quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Andrey Kuraev hoje é um popular evangelizador na Rússia

«Camarada, ajude-me: o meu filho, licenciado em Ateísmo Científico, quer entrar no seminário»

O contacto com os textos reais do Evangelho, a leitura de Dostoyevski e a realidade do mal levaram Andrey à fé. As pressões da KGB não o moveram do seu caminho.

Actualizado 3 Novembro 2012

Tatiana Fedótova/ReL

Andrey Kuraev nasceu em 1963 em Moscovo. Sendo criança no início dos anos 70, "eu sonhava com o comunismo", explica. "Imaginava-o como uma grande tenda cheia de jogos onde se podia escolher grátis qualquer coisa, sem dinheiro e sem que os pais dissessem que não o podiam permitir”.

Os pais de Andrey não eram crentes. Tampouco eram especialmente militantes do ateísmo. O seu pai era filósofo e trabalhava no Presidium da Academia de Ciências. A criança cresceu com um gosto pela filosofia. No colégio foi redactor de um jornal escolar chamado "O Ateu". Na hora de escolher o curso universitário, optou pela licenciatura mais ideológica de todas: Teoria e História do Ateísmo Científico.

E ali, na licenciatura de ateísmo, pela primeira vez o jovem Kuraev tomou contacto com os textos reais do Evangelho.

Muita mentira e muita incompetência
Nos livros soviéticos, com os seus comentários sobre a história do cristianismo, começou a ver que a crítica materialista não conjugava. “Rapidamente me dei conta de que nesses livros havia muita mentira, muitas conjecturas e um sem-fim da mais simples incompetência. Na minha época, nenhum dos professores conhecia hebreu nem grego, mas isso não os impedia de fazer uma crítica científica à Bíblia. Isso decepcionou-me muito”.

Dessa decepção académica veio a decepção do prático. A mesma atmosfera da sociedade socialista dos anos 80 lhe fazia olhar a Igreja. O jovem Andrey se disse: “Se vês que o teu querido Partido te mente no pequeno e no grande, quiçá tampouco tem razão no que ele mesmo proclama como a questão principal da filosofia: Existe Deus? Que prevalece, a matéria ou a razão?”

Dostoyevskiy e o diabo
Em 1981, com 18 anos, Kuraev leu “Os Irmãos Karamazov” de Dostoevskiy. Ali descobriu o demónio... e também a Cristo como Deus, Criador, Salvador e Juiz do dia final.

“Entendi que as tentações oferecidas por Satã a Cristo no deserto foram a eleição mais extrema, exacta e global. E por isso aceitei a característica do demónio, espírito de sabedoria e maldade sobre-humanas. Assim que primeiro admiti a existência do demónio. E dali, por lógica, se Cristo pode recusar as tentações, Ele também era de sabedoria sobre-humana, mas também de bondade. Soube que Cristo era Salvador, e a minha sensação de vazio interior desapareceu".

A KGB e os estudantes de ateísmo
Por essas alturas foi quando Andrey colaborou com a KGB sem sabê-lo. "A nós, os estudantes especializados em ateísmo, o director de cátedra nos disse que o Comité dos Jovens Comunistas de Moscovo estava realizando uma investigação sociológica sobre a religiosidade juvenil. Pediam-nos para fazer o trabalho de campo na forma de observação directa: visitar as igrejas moscovitas cada domingo e logo preencher os questionários. Tínhamos que indicar o nome do sacerdote, o conteúdo do seu sermão (detalhando se se dirigia especificamente à juventude, se citava só a Bíblia e Padres da Igreja ou também a imprensa e literatura contemporâneas, o que chamava ao povo, etc.). Também tínhamos que indicar, a olho, o número de paroquianos, quantos jovens havia e se reconhecíamos alguém, indicá-lo, mas sem especificar os nomes, o que já seria uma delação aberta", explicou anos depois Kuraev.

"Eu não era capaz nem de distinguir a leitura do Evangelho do sermão e quando tentei perguntar aos paroquianos, as pessoas me trataram de má vontade. Preferiam não dar nenhuma informação a um desconhecido curioso. Os sermões não me impressionaram. Neles, tal como nas minhas informações, não havia nada de política. Mas dediquei-me a falsificar os dados descaradamente. Para importunar o poder soviético, eu aumentava o número de paroquianos, sobretudo os jovens. Indiquei que os sacerdotes combinavam perfeitamente o conhecimento da patrística com a cultura clássica e contemporânea. Assim julgava que ajudava a Igreja… Passado um ano, já me dei conta que era justamente o contrário. Que para o poder o ter paroquianos jovens num templo era um sinal para ir aplicar as suas medidas de persuasão aos sacerdotes demasiado activos”.

Na classe de Incompatibilidade Ciência-Fé
Andrey decidiu baptizar-se, e o fez no templo ortodoxo mais longínquo da sua casa e da universidade, para evitar que alguém o reconhecesse e denunciasse. Se o soubessem na universidade, no curso de Ateísmo Científico!, o expulsariam e os seus pais teriam problemas. Isso o assustava. Mas na cerimónia, enquanto se benzia a água baptismal, ouviu "não com o ouvido mas sim com o coração" umas palavras: “O Senhor é a minha luz e a minha salvação, a quem temerei?”. E deixou de tremer.

Ao sair do baptismo, foi directamente à universidade, chegou à terceira aula do dia. Era um curso de “Incompatibilidade da ciência natural contemporânea e a religião”. O professor recitava com uma voz monótona a sua conversa para um grupito de estudantes. Andrey não podia controlar o seu sorriso de felicidade. Como aos enamorados, se lhe notava na cara. No final o professor não pode mais: “Kuraev, a que se deve o seu riso durante a aula?” Andrey imaginou que lhe contava a causa da sua alegria, o seu baptismo clandestino, imaginou a reacção do professor e por pouco não desatou às gargalhadas.

Quando te apanham os teus pais...
Para poder ir à igreja, dizia aos seus pais que ia à discoteca. Compreendia que a verdade lhes seria dolorosa porque sabiam melhor do que o seu filho como a sua conversão iria destroçar a sua carreira.

Os pais souberam tudo de surpresa. Um dia regressaram a casa demasiado cedo e encontraram um livrito de orações e um par de ícones de papel que Andrey não teve tempo para esconder. Houve lágrimas, explicações. O que preocupava de verdade aos pais era o futuro laboral do seu filho. Ao ver que não pretendia deixar a universidade para ir para o deserto, tranquilizaram-se. E, de facto, um par de dias depois, o seu pai lhe disse “Sabes?, ao fim de contas estou contente de que te tenhas baptizado… Agora tens nas tuas mãos a chave de toda a cultura europeia”.

Surpresas debaixo do sistema
O jovem Kuraev terminou a sua tese de fim de curso, pensando que ninguém a leria detalhadamente. Parece que se deixou levar demasiado. O seu director académico lhe chamou e lhe observou: “Em vez de uma tese de ateísmo científico isto parece um tratado carismático!” O estudante replicou: “Mas já não terei tempo para reescrevê-la, agora não posso! Com a Semana Santa…ups...!" Havia falado demasiado. Mas o professor não moveu nem uma sobrancelha: “Eu com a sua idade tinha tempo para tudo: para o diploma e para o templo!”

Passados dois anos, Andrey anunciou aos seus pais o seu desejo de ingressar no seminário ortodoxo. Mais lágrimas. Então, os pais quiseram levar o seu filho a falar com o seu mestre de literatura, alguém muito respeitado e querido por Andrey. E assim, depois de alguma conversação sem importância, a mãe lhe disse: “Sabe você?, temos um problema. Andrey quer ingressar no seminário. Que lhe pode aconselhar?

O professor esteve um pouco pensativo.

“Que te posso dizer, Andrey?", respondeu por fim. "Que Deus te ajude a fazer aquilo com que eu sonhei toda a minha vida e não me atrevi a fazer!”

Perseguição ao seminarista e à sua família
Assim Andrey levou os seus documentos ao seminário, pedindo o ingresso. Logo que os entregou, ao seu pai lhe “pediram” para deixar o seu cargo no Presidium da Academia de Ciências. As autoridades bloquearam também o acesso do seu pai a um trabalho importante na UNESCO. E a Academia de Ciências pressionou o Ministério da Defesa para que chamassem o jovem para realizar o serviço militar para afastá-lo do seminário.

Mas aqui se deu um dos estranhos paradoxos do mundo soviético. Na URSS, os licenciados universitários automaticamente eram considerados tenentes ao entrar no Exército, e se lhes dava um cargo segundo a sua especialidade. A um licenciado em Ateísmo Científico lhe tocava ser tenente comissário político! Alguém no Exército decidiu que não queriam ter um seminarista como comissário político e ninguém o chamou para as fileiras.

A KGB e os seminaristas
Haviam passado só dois dias desde que levou os seus documentos ao seminário, quando um agente do KGB lhe fez uma visita. Primeiro tentaram dissuadi-lo do ingresso no seminário. Como não o conseguiram, uma vez dentro tentaram convertê-lo em informador. O mesmo faziam com todos os seus companheiros de curso, que nesse ano eram quase todos universitários e intelectuais. Daquela promoção saíram quatro dos actuais bispos ortodoxos. Às vezes os agentes esperavam os seminaristas descaradamente à saída, os levavam a sítios separados: num hotel próximo, no registro civil municipal, no museu do mesmo ministério...ali havia uma habitação para “trabalhar” com os monges que não saíam fora.

"No início não te pediam nada. Falavam. Domesticam-te. Faziam-te perguntas sem importância. Logo já tiravam fotos de algum companheiro do seminário perguntando-te quem era. De certeza que o sabiam, mas o importante era que tu lhes dissesses algo, qualquer tolice. Conto-o porque não estou certo de que não vá repetir-se", recorda hoje Kuraev.

"É importante que as pessoas da igreja que passaram por aquilo contem como os kagebistas trabalhavam com as pessoas e como é possível opor-se. Não se pode agora dizer que todos os sacerdotes colaboravam com o KGB. Se houve algum pecado na consciência dos hierarcas, é seu problema, Só Cristo está sem pecado. Tampouco são culpados os sacerdotes que não traíram ninguém. Se agora as pessoas voltassem as costas a esses sacerdotes, seria um triunfo póstumo da KGB".

Filósofo de prestígio e missionário popular
Hoje, o protodiácono ortodoxo Andrey Kuraev (http://kuraev.ru) é a personagem mais jovem que figura no "Dicionário de Filosofia Russa dos séculos XIX-XX". E foi o mais jovem (aos 35 anos) professor de teologia ortodoxa na história da Rússia. Ainda não se considera teólogo, mas sim um jornalista ortodoxo e missionário. É autor de vários livros e centenas de publicações de carácter divulgativo. Participa em programas de televisão e rádio. Das conversas, conferências e cursos por toda a geografia russa e o seu portal de missão ortodoxa na Internet reúne até 1.700 pessoas simultaneamente e é toda uma referência para a evangelização no país. Não está mal para um licenciado em Ateísmo Científico.

E que foi da criança que sonhava com o comunismo e a sua abundância? "Já não procuro soldaditos de chumbo. Mas respeito ao que de verdade necessito hoje, sim, o meu sonho comunista cumpriu-se". E em vez de soldaditos? "Uns presentes extraordinários: o dom da oração, do amor, sabedoria, pureza. Deus te os oferece grátis. Só tens que recolhê-los.

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segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Papa Bento XVI Audiência Geral, 28 de Novembro de 2012

O Ano da Fé. Como falar de Deus?

Queridos irmãos e irmãs,

A interrogação central que hoje levantamos é a seguinte: como falar de Deus no nosso tempo? Como comunicar o Evangelho, para abrir caminhos à sua verdade salvífica nos corações muitas vezes fechados dos nossos contemporâneos e nas suas mentes por vezes distraídas pelas numerosas luzes da sociedade? O próprio Jesus, dizem-nos os evangelistas, ao anunciar o Reino de Deus, interrogou-se acerca disto: «A quem compararemos o Reino de Deus? Ou com que parábola o representaremos?» (Mc 4, 30). Como falar de Deus hoje? A primeira resposta é que nós podemos falar de Deus, porque Ele falou connosco. Portanto, a primeira condição para falar de Deus é a escuta daquilo que o próprio Deus disse. Deus falou connosco! Por conseguinte, Deus não é uma hipótese distante sobre a origem do mundo; não é uma inteligência matemática muito distante de nós. Deus interessa-se por nós, ama-nos, entrou pessoalmente na realidade da nossa história e comunicou-se a si mesmo a ponto de se encarnar. Portanto, Deus é uma realidade da nossa vida, é tão grande que tem tempo também para nós, preocupa-se connosco. Em Jesus de Nazaré nós encontramos o rosto de Deus, que desceu do seu Céu para se imergir no mundo dos homens, no nosso mundo, e para ensinar a «arte de viver», o caminho da felicidade; para nos libertar do pecado e para nos tornar filhos de Deus (cf. Ef 1, 5; Rm 8, 14). Jesus veio para nos salvar e para nos mostrar a vida boa do Evangelho.

Falar de Deus quer dizer, antes de tudo, ter bem claro o que devemos levar aos homens e às mulheres do nosso tempo: não um Deus abstracto, uma hipótese, mas um Deus concreto, um Deus que existe, que entrou na história e está presente na história; o Deus de Jesus Cristo como resposta à pergunta fundamental do porquê e do como viver. Por isso, falar de Deus exige uma familiaridade com Jesus e com o seu Evangelho, supõe um nosso conhecimento pessoal e real de Deus, e uma forte paixão pelo seu desígnio de salvação, sem ceder à tentação do sucesso, mas seguindo o método do próprio Deus. O método de Deus é o da humildade — Deus faz-se um de nós — é o método realizado na Encarnação na simples casa de Nazaré e na gruta de Belém, o da parábola do pequeno grão de mostarda. É preciso não temer a humildade dos pequenos passos e confiar no fermento que se mistura com a massa e que, lentamente, a faz crescer (cf. Mt 13, 33). Ao falar de Deus, na obra de evangelização, sob a guia do Espírito Santo, é necessária uma recuperação de simplicidade, um retorno ao essencial do anúncio: a Boa Notícia de um Deus que é real e concreto, um Deus que se interessa por nós, um Deus-Amor que se faz próximo de nós em Jesus Cristo até à Cruz, e que na Ressurreição nos doa a esperança e nos abre para uma vida que não tem fim, a vida eterna, a vida verdadeira. Aquele comunicador extraordinário que foi o apóstolo Paulo oferece-nos uma lição que vai precisamente ao cerne da fé, do problema de «como falar de Deus» com grande simplicidade. Na Primeira Carta aos Coríntios, ele escreve: «Também eu, quando fui ter convosco, irmãos, não fui com o prestígio da eloquência nem da sabedoria, anunciar-vos o testemunho de Deus. Julguei não dever saber coisa alguma entre vós, senão Jesus Cristo, e Jesus Cristo crucificado» (2, 1-2). Portanto, a primeira realidade é que Paulo não fala de uma filosofia por ele desenvolvida, não fala de ideias que encontrou alhures ou que inventou, mas fala de uma realidade da sua vida, fala do Deus que entrou na sua vida, fala de um Deus real que vive, falou com Ele e falará connosco, fala do Cristo crucificado e ressuscitado. A segunda realidade é que Paulo não se procura a si mesmo, não quer criar para si um grupo de admiradores, não quer entrar na história como chefe de uma escola de grandes conhecimentos, não se procura a si mesmo, mas são Paulo anuncia Cristo e deseja conquistar as pessoas para o Deus verdadeiro e real. Paulo fala só com o desejo de anunciar aquilo que entrou na sua vida, e que é a vida autêntica, que o arrebatou no caminho de Damasco. Portanto, falar de Deus quer dizer reservar espaço Àquele que no-lo faz conhecer, que nos revela o seu rosto de amor; quer dizer expropriar o próprio eu, oferecendo-o a Cristo, na consciência de que não somos nós que podemos conquistar os outros para Deus, mas devemos esperá-los do próprio Deus, invocá-los dele. Portanto, falar de Deus nasce da escuta, do nosso conhecimento de Deus que se realiza na familiaridade com Ele, na vida da oração e segundo os Mandamentos.

Comunicar a fé, para são Paulo, não significa anunciar-se a si mesmo, mas dizer aberta e publicamente aquilo que viu e sentiu no encontro com Cristo, quanto experimentou na sua existência já transformada por aquele encontro: é anunciar aquele Jesus que sente presente em si e que se tornou a verdadeira orientação da sua vida, para levar todos a compreender que Ele é necessário para o mundo e é decisivo para a liberdade de cada homem. O apóstolo não se contenta com proclamar palavras, mas envolve toda a sua existência na grande obra da fé. Para falar de Deus, é necessário reservar-lhe espaço, na confiança de que é Ele quem age na nossa debilidade: reservar-lhe espaço sem medo, com simplicidade e alegria, na convicção profunda de que quanto mais O pusermos no centro, Ele e não nós, tanto mais a nossa comunicação será frutuosa. E isto é válido também para as comunidades cristãs: elas são chamadas a mostrar a acção transformadora da graça de Deus, superando individualismos, fechamentos, egoísmos, indiferenças e vivendo o amor Deus nos relacionamentos quotidianos. Perguntemo-nos se as nossas comunidades são verdadeiramente assim. Temos que agir, para nos tornarmos sempre e realmente assim, anunciadores de Cristo e não de nós mesmos.

Nesta altura, temos que nos interrogar como o próprio Jesus comunicava. Na sua unicidade, Jesus fala do seu Pai — Abbá — e do Reino de Deus, com o olhar cheio de compaixão pelas necessidades e dificuldades da existência humana. Fala com grande realismo e, diria, o essencial do anúncio de Jesus é que torna transparente o mundo e a nossa vida tem valor para Deus. Jesus demonstra que no mundo e na criação transparece o rosto de Deus e mostra-nos que Deus está presente nas histórias quotidianas da nossa vida. Quer nas parábolas da natureza, o grão de mostarda, o campo com diversas sementes, quer na nossa vida, pensamos na parábola do filho pródigo, de Lázaro e noutras parábolas de Jesus. Dos Evangelhos nós vemos como Jesus se interessa por cada situação humana que Ele encontra, se imerge na realidade dos homens e das mulheres do seu tempo, com uma confiança plena na ajuda do Pai. E que realmente nesta história, de modo escondido, Deus está presente e, se prestarmos atenção, podemos encontrá-lo. E os discípulos que vivem com Jesus, as multidões que O encontram, vêem a sua reacção aos problemas mais diversos, vêem como Ele fala, como se comporta; vêem nele a obra do Espírito Santo, a acção de Deus. Nele anúncio e vida entrelaçam-se: Jesus age e ensina, começando sempre a partir de uma relação íntima com Deus Pai. Este estilo torna-se uma indicação essencial para nós, cristãos: o nosso modo de viver na fé e na caridade torna-se um falar de Deus no presente, porque mostra com uma existência vivida em Cristo a credibilidade, o realismo daquilo que dizemos com palavras, que não são apenas palavras, mas demonstram a realidade, a realidade verdadeira. E nisto devemos estar atentos a captar os sinais dos tempos na nossa época, ou seja, a identificar as potencialidades, os desejos, os obstáculos que se encontram na cultura actual, de modo particular o desejo de autenticidade, o anseio pela transcendência, a sensibilidade pela salvaguarda da criação, e comunicar sem temor a resposta oferecida pela fé em Deus. O Ano da fé é ocasião para descobrir, com a fantasia animada pelo Espírito Santo, novos percursos a níveis pessoal e comunitário, a fim de que em cada lugar a força do Evangelho seja sabedoria de vida e orientação da existência.

Também no nosso tempo, um lugar privilegiado para falar de Deus é a família, a primeira escola para comunicar a fé às novas gerações. O Concílio Vaticano II fala dos pais como dos primeiros mensageiros de Deus (cf. Constituição dogmática Lumen gentium, 11; Decreto Apostolicam actuositatem, 11), chamados a redescobrir esta sua missão, assumindo a responsabilidade de educar, de abrir as consciências dos pequeninos ao amor de Deus, como um serviço fundamental à sua vida, de ser os primeiros catequistas e mestres da fé para os seus filhos. E nesta tarefa é importante antes de tudo a vigilância, que significa saber aproveitar as ocasiões favoráveis para introduzir na família o discurso de fé e para fazer amadurecer uma reflexão crítica em relação aos numerosos condicionamentos aos quais os filhos estão submetidos. Esta atenção dos pais é também sensibilidade de entender as possíveis interrogações religiosas presentes no espírito dos filhos, às vezes evidentes, outras, escondidas. Depois, a alegria: a comunicação da fé deve ter sempre uma tonalidade de alegria. É a alegria pascal, que não se cala, nem oculta a realidade da dor, do sofrimento, do cansaço, da dificuldade, da incompreensão e da própria morte, mas sabe oferecer os critérios para interpretar tudo na perspectiva da esperança cristã. A vida boa do Evangelho é precisamente este novo olhar, esta capacidade de ver cada situação com os olhos do próprio Deus. É importante ajudar todos os membros da família a compreender que a fé não é um peso, mas uma fonte de júbilo profundo, é entender a obra de Deus, reconhecer a presença do bem, que não faz ruído; e oferece orientações preciosas para viver bem a própria existência. Enfim, a capacidade de escuta e de diálogo: a família deve ser um ambiente em que as pessoas aprendem a estar juntas, a recompor os contrastes no diálogo recíproco, que é feito de escuta e de palavra, a compreender-se e a amar-se, para ser um sinal mútuo do amor misericordioso de Deus.

Portanto, falar de Deus quer dizer fazer compreender com a palavra e com a vida que Deus não é o concorrente da nossa existência, mas sobretudo o seu verdadeiro garante, o protector da grandeza da pessoa humana. Assim voltamos ao início: falar de Deus é comunicar, com força e simplicidade, com a palavra e a vida, aquilo que é essencial: o Deus de Jesus Cristo, aquele Deus que nos mostrou um amor tão grande, a ponto de se encarnar, morrer e ressuscitar por nós; aquele Deus que pede para O seguir e para se deixar transformar pelo seu amor imenso, para renovar a nossa vida e os nossos relacionamentos; aquele Deus que nos concedeu a Igreja, para caminharmos juntos e, através da Palavra e dos Sacramentos, renovarmos toda a Cidade dos homens, a fim de que ela possa tornar-se Cidade de Deus.

Revela-o o sacerdote que o atendeu

A Alfred Hitchcock se lhe saltavam as lágrimas quando comungava nos seus últimos dias

«Havia estado um tempo afastado da Igreja, assim que contestava a missa em latim», recorda o então jovem jesuíta Mark Henninger.


Actualizado 9 Dezembro 2012

C.L. / ReL

Uma recente biografia de Donald Spoto sobre Alfred Hitchcock (1899-1980) o apresenta rejeitando a religião no leito de morte. "Não é verdade. Eu estava ali", foi a rápida resposta de Mark Henninger, sacerdote professor de Filosofia na Universidade de Georgetown e então um jovem jesuíta que atendeu espiritualmente nos seus últimos dias ao católico e londrinense director de cinema na sua mansão de Bel Air.

Assim o explicou num artigo publicado no Wall Street Journal, onde confessa que desde pequeno era um aficionado da legendária série Alfred Hitchcock apresenta e das suas "curiosas apresentações" dos capítulos, "tão distintas de qualquer outra coisa da televisão". Compreende-se então o choque que foi para ele entrar na casa no início de 1980 e encontrar-se com o seu ídolo "numa esquina do quarto de estar, dormitando com um pijama negro azeviche".


Uma oportunidade para não desaproveitar 
Havia ido ali para celebrar missa, convidado por outro membro da Companhia de Jesus, Tom Sullivan, que conhecia bem o cineasta e o confessava. O padre Henninger ficou estupefacto ante a inesperada proposta: "Mas, por suposto, disse que sim", afirma traduzindo a emoção que lhe embargava ante o golpe de sorte de conhecer o mestre.

O padre Sullivan o despertou delicadamente, e Hitchcock beijou a sua mão.

- Este é Mike Henninger, um jovem sacerdote de Cleveland - apresentou.
- De Cleveland Que vergonha! - rugiu o ancião, com o seu tradicional humor sarcástico. Depois de conversar um pouco, passaram ao estúdio de Hitchcock, onde os esperava Alma, a sua mulher.

Celebraram a missa em silêncio: "Hitchcock tinha estado um tempo afastado da Igreja, assim que contestava a missa em latim", recorda Henninger.

E houve algo mais: "Depois de receber a comunhão, chorou em silêncio, e vi as lágrimas cair pelas suas bochechas rechonchudas".



Montgomery Clift como sacerdote em "Eu confesso" (1952),
extraordinária homenagem de Hitchcock ao segredo da confissão.

Ambos os sacerdotes visitarão o génio muitas vezes depois, sempre aos sábados pela tarde. Mas em uma ocasião o padre Tom não pode ir, e isso converteu o encontro com o padre Mark em muito especial para ele: "Intimido-me um pouco ante a pessoas famosas, assim foi-me difícil falar com Alfred Hitchcock, mas o fizemos amavelmente até que ele disse: ´Vamos à missa´".

O sacerdote ofereceu-lhe o braço e caminhavam lentamente por causa da sua idade. Henninger sentiu-se na obrigação de dizer algo e rompeu o silêncio perguntando-lhe se havia visto algum bom filme recentemente. A resposta de Hitchcock demonstra que se concentrava para a celebração, porque disse enfaticamente, talvez pensando no auge naquela época da ficção-cientifica: "Não. Quando eu fazia filmes, eram sobre pessoas, não sobre robots. Os robots são aborrecidos. Venha, vamos para a missa".

Pouco depois morreu e se celebrou o funeral na igreja do Bom Pastor de Beverly Hills.

O verdadeiro rosto da humanidade e a religião
Henninger lamenta que os prejuízos anti-religiosos da nossa época tenham ocultado nas últimas biografias e filmes biográficos a sua faceta de católico. "Porque exactamente pediu Hitchcock a Tom Sullivan que lhe visitasse? Para nós não estava claro, e quiçá tampouco estava totalmente claro para ele. Mas algo se lhe tocou no coração, e as visitas respondiam a um desejo humano profundo, a uma necessidade humana real. Quem não tem essas necessidades e desejos?".

Acrescenta o jesuíta que há quem considere "um sinal de debilidade" quando as pessoas se aproximam da religião a ver próxima a morte: "Mas nada centra tanto a mente como a morte. Uma antiga tradição dos primeiros tempos fala do memento mori [recorda a morte]. Porquê? Creio que ao afrontar a morte considera-se seriamente, com maior ou menor claridade, verdades esquecidas durante anos que finalmente merecem a nossa atenção".

"Nessa perspectiva, valorizar a própria vida, compartilhar as feridas sofridas e causadas, e procurar a reconciliação com um Deus disposto e acostumado a perdoar, parece-me profundamente humano. A extraordinária reacção de Hitchcock ao receber a comunhão foi o rosto da humanidade real e da religião real, longe dos títulos e das biografias de hoje", conclui em alusão ao livro que motivou o seu artigo.


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Coroa do Advento


O jovem de 23 anos que pôs as coisas claras a cardeais e bispos no Vaticano

Actualizado 6 Dezembro 2012

Por Jorge Enrique Mújica, LC

De 7 a 28 de Outubro de 2012 ocorreu no Vaticano o sínodo dos bispos sobre o tema da nova evangelização no terceiro milénio. Cardeais e bispos católicos de todo o mundo puderam expor e discutir pontos de vista sobre este tema de tanta relevância para a vida da Igreja católica.

Alguns laicos também puderam participar como auditores. Um deles foi Tommaso Spinelli, um jovem italiano de 23 anos que deixou com os olhos abertos todos os bispos presentes. É que Tommaso tem claro que a evangelização passa pelos pastores, pelos sacerdotes, daí que as suas palavras tenham suscitado admiração e tenham dado matéria para a reflexão.

Não é habitual que um jovem de 23 anos ponha as coisas claras aos bispos do mundo... Que foi que lhes disse? O que espera um jovem católico da nova evangelização? Este foi o discurso - por certo muito breve - do participante mais jovem no passado Sínodo (uma leitura especialmente recomendada para sacerdotes e pessoas consagradas):

*** 
"A minha reflexão quer ser simplesmente uma ajuda para entender que espera um jovem da nova evangelização.

Vós os sacerdotes – dirigindo-se aos bispos - haveis falado sobre o papel dos laicos, eu que sou laico, quero falar do papel dos sacerdotes.

Nós os jovens temos necessidade de guias fortes, sólidos na sua vocação e na sua identidade. É de vós, sacerdotes, de quem nós aprendemos a ser cristãos, e agora que as famílias estão mais desunidas, o vosso papel é todavia mais importante para nós. Vós nos testemunhais a fidelidade a uma vocação, nos ensinais a solidez na vida e a possibilidade de escolher um modo alternativo de viver, sendo este mais belo que o que nos propõe a sociedade actual.

A minha experiência testemunha que ali onde há um sacerdote apaixonado a comunidade, em pouco tempo, floresce. A fé não perdeu atractivo, mas é necessário que existam pessoas que a mostrem como uma eleição séria, sensata e credível.

O que me preocupa é que estes modelos se converteram numa minoria. O sacerdote perdeu confiança na importância do seu próprio ministério, perdeu carisma e cultura. Vejo sacerdotes que interpretam "dedicar-se aos jovens" com "travestir-se de jovem" ou, pior ainda, viver o estilo de vida dos jovens. E o mesmo na liturgia: no intento de fazer-se originais convertem-se em insignificantes.

Peço-lhes a coragem de serem vós mesmos. Não temais, porque ali onde sejais autênticamente sacerdotes, ali onde proponhais sem medo a verdade da fé, ali onde não tenhais medo de ensinar-nos a rezar... nós os jovens os seguiremos. Fazemos nossas as palavras de Pedro: "Senhor, a quem iremos? Só Tu tens palavras de vida eterna". Nós temos fome do eterno, do verdadeiro.

Portanto, proponho:

1)    Aumentar a formação, não só espiritual, mas também cultural dos sacerdotes. Com demasiada frequência vemos sacerdotes que perderam o papel de mestres de cultura que lhes fazia importantes para toda a sociedade. Hoje, se queremos ser credíveis e úteis, devemos votar a ter boas ferramentas culturais.

2)    Redescobrir o Catecismo da Igreja Católica no seu carácter conciliar: em concreto a primeira parte de cada secção, onde os documentos do Concilio iluminam os temas tradicionais. De facto, o Catecismo põe com sabedoria como premissa a explicação do Credo uma parte inspirada na Dei Verbum, na qual se explica a visão personalista da revelação; aos sacramentos, a Sacrosantum Concilium, e aos mandamentos, a Lumen Gentium, que mostra ao homem criado à imagem de Deus. A primeira parte de cada secção do Catecismo é fundamental para que o homem de hoje sinta a fé como algo que o afecta de perto e seja capaz de dar respostas às suas perguntas mais profundas.

3) Por último, a liturgia se esquece e se dessacraliza com demasiada frequência: há que voltar a pô-la com dignidade no centro da comunidade paroquial.

Concluo com as palavras que deram inicio ao nascimento da Europa Medieval: "Nós os queremos, dada prova da vossa santidade, da linguagem correcta e da vossa instrução; de tal modo que qualquer que vá a vós se edifique com o vosso testemunho de vida e a vossa sabedoria (...) e regresse alegre dando graças ao Senhor omnipotente" (da carta Letteris Colendis de Carlo Magno ao mosteiro de Fulda, ano 780). Obrigado”.


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domingo, 9 de dezembro de 2012

Cresceu numa família católica

Martin Freeman, de «O Hobbit»: «Sou uma das poucas pessoas que conheço que crê em Deus»

O actor britânico estudou com os salesianos. Jesus foi a sua «primeira pedra de toque moral», e a sua história, «a maior jamais contada».

Actualizado 7 Dezembro 2012

Mar Velasco / ReL

O quotidiano do seu aspecto, a sua estatura, a sua voz, caracteriza muitos dos papéis que interpretou. Martin Freeman faz da quotidianidade uma arte, e a melhor prova desta habilidade é o papel de Bilbo Bolsón, o célebre “Hobbit” protagonista da história de J. R. R. Tolkien, que lhe deu o director Peter Jackson e que chegará nos próximos dias aos ecrãs de todo o mundo.

Freeman nasceu em 1971, em Aldershot, Hampshire, e é o mais novo de uma família de cinco irmãos. Com só 10 anos o seu pai, um oficial da marinha, morreu de um ataque ao coração. Quando morreu os pais de Freeman tinham-se separado.

Foi criado pela sua mãe, Filomena, como católico. De criança frequentou a escola Cardenal Newman e mais tarde foi aluno dos Padres Salesianos: “A minha primeira pedra de toque moral foi Jesus”, reconhece Freeman. “E ainda que a relação com a minha fé nunca tenha sido fácil – não sou o que se diz um católico praticante – sou uma das poucas pessoas que conheço que crê em Deus”, disse. “O filme Jesus de Nazaré de Zeffirelli, com o actor Robert Powell no papel de Jesus, foi a primeira encarnação de Jesus que vi. Eu tinha cinco anos, e recordo que pensei: é incrível, brilhante. Aquele filme me deixou absolutamente admirado”.


Desde muito jovem, a actuação foi a sua via de escape. Quando no Natal de 2009 estreou a comédia familiar Nativity!, afirmava: “A ideia de que o mais humilde será exaltado é, sem dúvida, uma grande ideia, por isso, quiçá, se diz que a vida de Jesus é a maior história jamais contada. É uma história com um começo realmente belo. Quando vemos um filme sempre nos pomos do lado do mais fraco. Pois bem, quem é Jesus senão o mais fraco? Sejas crente ou não, a sua história é a melhor lição sobre como há que ver o mundo, e o realmente difícil é aplica-lo ao dia a dia, ser cristão é realmente difícil”, assegura.

“Para mim a religião tem validade na medida em que traz boas ideias e coisas boas para oferecer aos demais, como por exemplo, a ideia da redenção, a de que é possível mudar, e mudar as coisas ao nosso redor”, reconhece. Uma ideia, a da transformação e a redenção, que supõe desenvolver melhor do que nada o mestre

Tolkien na história de O Senhor dos Anéis e a sua predecessora, O Hobbit. Quiçá não é a maior jamais contada, mas sim uma das maiores.


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Confissão de Fé de Grandes Cientistas