sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

A fé nos faz peregrinos sobre a terra

Catequese de Bento XVI durante a audiência Geral de hoje

ROMA, Quarta-feira, 23 Janeiro 2013
 
Queridos irmãos e irmãs, gostaria de iniciar hoje a reflectir convosco sobre o Credo, isso é, sobre a solene profissão de fé que acompanha a nossa vida de crentes. O Credo começa assim: "Eu creio em Deus". É uma afirmação fundamental aparentemente simples na sua essencialidade, mas que abre ao infinito mundo do relacionamento com o Senhor e com o seu mistério. Crer em Deus implica adesão a Ele, acolhimento da sua Palavra e obediência alegre à sua revelação. Como ensina o Catecismo da Igreja Católica, " a fé é um ato pessoal: é a livre resposta do homem à iniciativa de Deus que se revela" (n. 166). Poder dizer acreditar em Deus é também um dom - Deus se revela, vem ao nosso encontro - e um empenho, é graça divina e responsabilidade humana, em uma experiência de diálogo com Deus que, por amor, "fala aos homens como aos amigos" (Dei Verbum, 2), fala a nós a fim de que, na fé e com a fé, possamos entrar em comunhão com Ele.

Onde podemos escutar Deus e a sua Palavra? Fundamental é a Sagrada Escritura, na qual a Palavra de Deus se faz escutável para nós e alimenta a nossa vida de "amigos" de Deus. Toda a Bíblia narra o revelar-se de Deus à humanidade; toda a Bíblia fala de fé e nos ensina a fé narrando uma história na qual Deus leva adiante o seu projecto de redenção e se faz próximo a nós homens, através de tantas luminosas figuras de pessoas que acreditam Nele e Nele confiam, até a plenitude da revelação no Senhor Jesus. 

Muito belo, a este respeito, é o capítulo 11 da Carta aos Hebreus, que escutamos há pouco. Aqui se fala da fé e se colocam à luz grandes figuras bíblicas que a viveram, transformando-se modelo para todos os crentes. Diz o texto no primeiro versículo: "A fé é fundamento da esperança, é uma certeza a respeito do que não se vê" (11, 1). Os olhos da fé são, portanto, capazes de ver o invisível e o coração do crente pode esperar além de toda a esperança, propriamente como Abraão, do qual Paulo diz na Carta aos Romanos que “acreditou, esperando contra toda a esperança” (4,18).

E é propriamente sobre Abraão que gostaria de concentrar-me e concentrar a nossa atenção, porque é ele a primeira grande figura de referência para falar de fé em Deus: Abraão o grande patriarca, modelo exemplar, pai de todos os crentes (cfr Rm 4, 11-12). A Carta aos Hebreus o apresenta assim: "Foi pela fé que Abraão, obedecendo ao apelo divino, partiu para uma terra que devia receber em herança. E partiu não sabendo para onde ia. Foi pela fé que ele habitou na terra prometida, como em terra estrangeira, habitando aí em tendas com Isaac e Jacob, co-herdeiros da mesma promessa. Por que tinha a esperança fixa na cidade assentada sobre os fundamentos (eternos), cujo arquitecto e construtor é Deus” (11,8-10).

O autor da Carta aos Hebreus faz também referência ao chamado de Abraão, narrado no Livro de Génesis, o primeiro livro da Bíblia. O que pede Deus a este patriarca? Pede-lhe para partir abandonando a própria terra para ir para o país que lhe mostraria, "Deixa tua terra, tua família e a casa de teu pai, e vai para a terra que eu te mostrar" (Gen 12, 1). Como respondemos nós a um convite similar? Trata-se, na verdade, de uma partida à escuridão, sem saber onde Deus o conduzirá; é um caminho que pede uma obediência e uma confiança radical, ao qual só a fé concede o acesso. Mas a escuridão do desconhecido – onde Abraão deve ir – é iluminada pela luz de uma promessa; Deus acrescenta ao comando uma palavra tranquilizante que abre diante de Abraão um futuro de vida em plenitude: “farei de ti uma grande nação; eu te abençoarei e exaltarei o teu nome...e todas as famílias da terra serão benditas em ti” (Gen 12, 2.3). 

A bênção, na Sagrada Escritura está ligada primeiramente ao dom da vida que vem de Deus e se manifesta antes de tudo na fecundidade, em uma vida que se multiplica, passando de geração em geração. E à bênção está ligada também a experiência da posse de uma terra, de um lugar estável no qual viver e crescer em liberdade e segurança, temendo a Deus e construindo uma sociedade de homens fiéis à Aliança, “reino de sacerdotes e nação santa” (cfr Es 19, 6). 

Por isso Abraão, no projeto divino, está destinado a transformar-se “pai de  uma multidão de povos” (Gen 17, 5; cfr Rm 4, 17-18) e a entrar em uma nova terra onde habitar. Porém, Sara, sua esposa, é estéril, não pode ter filhos; e o país para o qual Deus o conduz é distante da sua terra de origem, já está habitado por outras populações, e não lhe pertencerá mais verdadeiramente. O narrador bíblico o enfatiza, com muita discrição: quando Abraão chega ao lugar da promessa de Deus: “os cananeus estavam então naquela terra” (Gen 12, 6). A terra que Deus doa a Abraão não lhe pertence, ele é um estrangeiro e como tal permanecerá para sempre, com tudo aquilo que isto comporta: não ter ambição de propriedade, sentir sempre a própria pobreza, ver tudo como presente. Esta é também a condição espiritual de quem aceita seguir o Senhor, de quem decide partir acolhendo o seu chamado, sob o sinal de sua invisível mas poderosa bênção. E Abraão, “pai dos crentes”, aceita este chamado, na fé. Escreve São Paulo na Carta aos Romanos: “Ele acreditou, esperando contra toda a esperança e assim e se tornou pai de muitas nações, segundo o que lhe fora dito: Assim será a tua descendência. Ele não vacilou na fé, embora reconhecendo o seu próprio corpo sem vigor – pois tinha quase cem anos – e o seio de Sara igualmente amortecido. Ante a promessa de Deus, não vacilou, não desconfiou, mas conservou-se forte na fé deu glória a Deus. Estava plenamente convencido de que Deus era poderoso para cumprir o que prometera” (Rm 4, 18-21). 

A fé conduz Abraão a percorrer um caminho paradoxal. Ele será bendito, mas sem os sinais visíveis da bênção: recebe a promessa de formar grande povo, mas com uma vida marcada pela esterilidade de sua esposa Sara; é conduzido em uma nova pátria, mas deverá viver como estrangeiro; e a única posse de terra que lhe será concedida será aquela de um pedaço de terreno para enterrar Sara (cfr Gen 23, 1-20). Abraão é bendito porque, na fé, sabe discernir a bênção divina indo além das aparências, confiando na presença de Deus também quando os seus caminhos lhe parecem misteriosos. 

O que significa isto para nós? Quando afirmamos: “Eu creio em Deus”, dizemos como Abraão: “Confio em ti, confio-me a ti, Senhor”, mas não como a Qualquer um a quem recorrer somente nos momentos de dificuldade ou a quem dedicar qualquer momento do dia ou da semana. Dizer “Eu creio em Deus” significa fundar sobre Ele a minha vida, deixar que a sua Palavra a oriente a cada dia, nas escolhas concretas, sem medo de perder algo de mim mesmo. Quando, no Rito do Baptismo, por três vezes pergunto: “Crês?” em Deus, em Jesus Cristo, no Espírito Santo, a santa Igreja Católica e as outras verdades de fé, a tríplice resposta é no singular: “Creio”, porque é a minha existência pessoal que deve receber um avanço com o dom da fé, é a minha existência que deve mudar, converter-se. Cada vez que participamos de um Baptismo devemos perguntar-nos como vivemos quotidianamente o grande dom da fé. 

Abraão, o crente, ensina-nos a fé; e, como estrangeiro na terra, nos indica a verdadeira pátria. A fé nos torna peregrinos na terra, inseridos no mundo e na história, mas em caminho para a pátria celeste. Crer em Deus nos torna, portanto, portadores de valores que frequentemente não coincidem com a moda e a opinião do momento, pede-nos para adoptar critérios e assumir comportamentos que não pertencem ao modo comum de pensar. O cristão não deve ter temor de ir “contra a corrente” para viver a própria fé, resistindo a tentação da “uniformidade”. Em tantas de nossas sociedades Deus se tornou o “grande ausente” e no seu lugar estão muitos ídolos, diversos ídolos e sobretudo a posse e o “eu” autónomo. E também os significativos e positivos progressos da ciência e da técnica têm levado o homem à ilusão de omnipotência e de auto-suficiência, e um crescente egocentrismo criou não poucos desequilíbrios dentro dos relacionamentos interpessoais e dos comportamentos sociais. 

No entanto, a sede de Deus (cfr Sal 63, 2) não foi extinta e a mensagem evangélica continua a ecoar através das palavras e obras de tantos homens e mulheres de fé. Abraão, o pai dos crentes, continua a ser pai de muitos filhos que aceitam caminhar sob seus passos e se colocam em caminho, em obediência à vocação divina, confiando na presença benevolente do Senhor e acolhendo a sua bênção para fazer-se bênção para todos. É o mundo abençoado da fé ao qual todos somos chamados, para caminhar sem medo seguindo o Senhor Jesus Cristo. E é um caminho às vezes difícil, que conhece também o julgamento e a morte, mas que abre a vida, em uma transformação radical da realidade que somente os olhos da fé são capazes de ver e desfrutar em plenitude. 

Afirmar “Eu creio em Deus” leva-nos, então, a partir, a sair continuamente de nós mesmos, como Abraão, para levar na realidade quotidiana na qual vivemos a certeza  que nos vem da fé: a certeza, isso é, da presença de Deus na história, também hoje; uma presença que leva vida e salvação, e nos abre a um futuro com Ele para uma plenitude de vida que não conhecerá nunca o pôr do sol. 



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O criador da agência Moody´s fez-se católico depois de 40 anos de busca filosófica





quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

A chave para acolher os divorciados na Igreja: oração em grupos e paciência





Israel

María de Villota e o «papel fundamental de Deus» na sua recuperação depois do acidente de carro

Era piloto de Fórmula 1

A piloto espanhola perdeu um olho mas assegura que agora vê mais do que antes, porque percebe as coisas importantes da vida. Leva a sua história com "orgulho e carinho".

Actualizado 21 Janeiro 2013

Javier Lozano / ReL


María de Villota estava cumprindo o seu sonho desde criança, pilotar um Fórmula 1. Com uma prometedora carreira pela frente já era piloto provador da equipa Marussia. No passado dia 3 de Julho estava realizando no aeródromo britânico de Duxford diversas provas aerodinâmicas com o monolugar da sua esquadria quando teve um terrível acidente que mudou a sua vida. Chocou contra um camião e o seu capacete ficou feito em pedaços.

Esteve a ponto de morrer, perdeu o olho direito e depois de várias operações levou seis placas de titânio na cabeça. O seu sonho de ser piloto titular e imitar o seu pai desvaneceu-se mas longe de vir-se abaixo viu a mão de Deus em todo este tempo e assegura que o acidente lhe mudou de maneira radical a forma de ver a vida.

O seu acidente comoveu o mundo e a sua recuperação é todo um exemplo de superação ante a adversidade. No passado dia 13 de Janeiro cumpriu 33 anos e numa entrevista no programa ´El Partido de las 12’ de COPE, María confessava que “nunca soprou as velas com tanta vontade. A felicidade é algo muito simples. Sempre gostei de olhar em frente”.

O papel de Deus na sua recuperação
Sem dúvida, neste duro processo desde que sofreu o terrível acidente experimentou uma força sobrenatural. “Quando passeio pelas ruas as pessoas dizem-me que rezaram muito por mim. Agradeço-lhes. Quando voltei um primo meu faleceu e eu não. Deus jogou um papel muito importante na minha recuperação”, afirmava María de Villota.

A sua irmã Isabel estava presente quando María chocou contra o camião e meses depois explicou na revista Hola como houve uma mão divina em todo este sucesso. Ela foi a primeira a chegar ao local do acidente: “tentei o carro de debaixo, comecei a gritar, até que vieram todos os mecânicos. Afastaram-me do carro e já não me deixaram voltar aonde estava María”.

Isabel recorda que “não parava de perguntar: está morta? Está morta? E eles diziam-me: “não sabemos”. Então foi quando me atirei ao solo da pista, pus-me a rezar como uma condenada e, ao fim dos angustiosos minutos que passou inconsciente, alguém disse: ‘está movendo-se’. E eu pensei: ‘graças a Deus’.

Um sinal de Deus
A irmã da piloto considera que não estava com ela nessas provas no Reino Unido por casualidade. “Foi como um sinal de Deus, porque senti que tinha que ir”. María o vê assim também: “estou certa de que, desde o momento que chegou ao carro, a oração, as decisões que teve que tomar no hospital, tudo o fez com tanta eficácia…”.

Recordando esses momentos, Isabel continuou contando factos para ela inexplicáveis. Relatava que María não podia tomar certos fármacos. “Estando como estava, perguntei-lhe: María, a que és alérgica? Sem ter a menor esperança de que me respondesse, como se estivesse fazendo uma pergunta a Deus, e ela respondeu: pirazolonas”.

“Agora vejo mais que antes”
María experimentou uma mudança importante no seu interior e não só físico devido ao acidente em todos estes meses. Numa entrevista na Car&Driver confessa que “dás-te conta de que vês mais do que antes. Eu antes só via a Fórmula 1, só me via encima de um carro competindo e não via o que realmente era importante na minha vida”. Por isso, recorda que “não tenho um olho, não tenho olfacto, mas tenho pela frente outro olho e o tacto”.

Aceitar a sua situação não foi fácil ao princípio mas a sua virtude foi buscar consolo em quem podia dá-lo. “No primeiro dia que me olhei no espelho tinha 104 pontos na cara, negros, que pareciam cosidos com corda náutica e havia perdido o olho. Fiquei aterrada”. Nesse primeiro instante pensou em quem ia querê-la assim. Mas logo esse mau pensamento mudou ao chegar ao convencimento de que as pessoas que estavam em seu redor “me queriam para esta vida e para a que vem agora”.

“Levo a minha história com carinho e orgulho”
De facto, há uma frase que define na perfeição como afrontou María este trauma: “o meu aspecto de agora diz muito mais de quem é María de Villota que o aspecto anterior. Levo a minha história e a levo com muitíssimo carinho e orgulho”.

Neste sentido, a jovem piloto espanhola afirma que “a primeira sensação que teve depois do acidente foi negativa porque necessitava dos dois olhos, mas demorou muito pouco a ver todo o resto”. Foi esse encontro com p sofrimento humano o que s levou a mudar de atitude. Dar-se conta de que apesar de tudo devia estar agradecida com o dom da vida. “Conheci pessoas que o passaram muito mal. Afinal há que desfrutar do que tens porque não há mais. Desfrutar das coisas pequenas. Esse beliscar de humor é necessário para seguir em frente. Vou dar toda essa energia”.

Os seus novos desafios
Agora que já não vai poder competir a nível profissional, María de Villota quer enfrentar três desafios. Por um lado afirma que continuará ligada ao mundo do motor, “que adoro”. O segundo, é o dos enfermos dado que “estou no grupo dos que estão mal. Depois de ver que há gente que os passa tão mal, eu tenho que fazer algo”. Por isso, colabora activamente na Fundação Ana Carolina Díez Mahou, que ajuda doentes neuromusculares mitocondriais. E em terceiro lugar está ajudar a mulher, conseguir que uma chegue a ser titular na Fórmula depois de que ela ficou às portas. Na vida, diz contente, “todavia há que lutar por muitas coisas!”.


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Tráfico de pessoas: jovens vítimas escravizadas fora do país

De acordo com a Organização das Nações Unidas, o tráfico de pessoas para exploração sexual é a terceira maior fonte de renda ilegal no mundo

Maria Amélia Saad
 
BRASíLIA, Terça-feira, 22 Janeiro 2013

O que restou para a família de Simone foi uma foto, a sensação de impotência e impunidade, além do vazio eterno ocasionado pela saudade. A jovem de 23 anos deixou o Brasil em busca de melhores condições de vida na Espanha. Aliciada por uma quadrilha que trafica mulheres para fins sexuais, Simone morreu misteriosamente no país desconhecido, apenas três meses após sua chegada. Até hoje, os pais buscam explicações para o fato e dizem que nunca mais foram os mesmos desde o falecimento precoce da filha.

Simone faz parte da obscura estatística, que não possui números precisos para medir a quantidade de seres humanos vendidos e explorados como animais fora do país. Os activistas na luta contra essa realidade, como o bispo de Marajó (PA), Dom José Luiz Azcona Hermoso, afirmam que isso acontece porque as quadrilhas de traficantes são grupos tolerados pela sociedade por seu alto poder económico e a capacidade de eliminar aqueles que as denunciam.

De acordo com a Organização das Nações Unidas, o tráfico de pessoas para exploração sexual é a terceira maior fonte de renda ilegal no mundo, movimentando em torno de 32 biliões de dólares por ano. Estima-se que, por ano, quase um milhão de pessoas são traficadas, das quais 98% são mulheres. O Brasil lidera o vergonhoso ranking dos maiores exportadores de mulheres, com 85 mil vítimas.

O estado de Goiás figura como um dos campeões nacionais no tráfico de pessoas, sobretudo mulheres. Para o membro do Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas (NETP), o juiz Rinaldo Aparecido Barros, muitos aspectos contribuem para a liderança do estado, entre eles, a beleza da mulher goiana, que é a mão de obra predilecta e prioritária para os traficantes, os quais fazem falsas promessas de emprego como babás e modelos e até mesmo apresentam a prostituição como uma oportunidade mágica de enriquecimento.

O juiz afirma que o tráfico de mulheres costuma ser mais vantajoso para um criminoso que o tráfico de drogas, uma vez que a mulher explorada não é descartável e pode ser reutilizada por meio de diversas vendas, sendo esse ciclo encerrado apenas com a morte ou o enlouquecimento da vítima.

Mulheres de vida nada fácil
Entre promessas de despesas pagas, emprego garantido e muitos sonhos de uma vida melhor, as vítimas do tráfico internacional de pessoas, têm como destinos mais frequentes Espanha, Suíça e Portugal.

Ao chegar no país de destino, a realidade é totalmente diferente daquela prometida pelos aliciadores. As mulheres se endividam com o traficante, que lhes cobra o valor da passagem e da hospedagem, e exigem uma percentagem dos muitos programas que são obrigadas a realizar. Eles também cerceiam sua liberdade, retendo o passaporte e não permitindo que elas transitem livremente pela rua nem falem ao telefone sem monitoramento.

Nas senzalas do século XXI, as escravas sexuais são algemadas às crescentes e impagáveis dívidas impostas pelos “barões do tráfico”, que tornam a alforria um ato praticamente impossível.

A situação se torna ainda pior com as inúmeras pequenas regras que regem o serviço e que geram multas se forem infringidas. Os mais variados motivos geram penas financeiras absurdas, como uso de ténis. Nos prostíbulos onde são essas mulheres escravizadas, não se pode descer dos quartos de sandália, nem deitar no balcão ou passar da hora; é proibido ir à rua com roupas curtas; as actividades exploratórias sempre devem começar em horário determinado. Quem infringe essas normas paga multa. As mulheres também pagam multa quando recusam um cliente. Ou seja, é praticamente impossível se libertar desse cativeiro e para conseguir dar conta das “regras” e aguentar essa vida, muitas dessas mulheres se vêem obrigadas a fazer uso de drogas.

As mentiras que os aliciadores contam
De acordo com a titular da Delegacia de Defesa Institucional da Polícia Federal, Marcela Rodrigues, o aliciador (ou aliciadora) geralmente aborda as jovens oferecendo trabalho no exterior ressaltando sua beleza, suas características corporais e a facilidade para ganhar dinheiro. “Elas sabem dos desejos e das dificuldades dessas jovens e sabe convencê-las porque apresentam sua própria trajectória como vitoriosa. E, ainda, ressaltam a superioridade da mulher brasileira em relação às europeias no que concerne à sexualidade e que seriam as preferidas dos homens estrangeiros. Esse discurso está todo baseado na subalternidade e na condição heterônoma da mulher”, destaca.

Por incrível que pareça, comumente o aliciador é uma pessoa próxima, e possui com a vítima, relações que envolvem afectividade. Para a psicóloga Cíntia Maia, da Diretoria de Políticas Públicas para as Mulheres, como já há um vínculo com o aliciador, existe um maior respaldo na hora do convencimento, que envolve promessas de uma vida farta e dinheiro em abundância.

Vislumbradas com essas possibilidades elas encaram tais propostas, como uma oportunidade de enriquecimento. Dados da Polícia Federal apontam que as mulheres aliciadas, são em maioria, jovens de baixa renda, entre 18 e 30 anos. Muitas são mães solteiras, responsáveis pelo sustento de seus familiares.

Segundo Nelma Pontes, do Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas (NETP), a prostituição pode ser até uma opção pessoal, mas é preciso desconfiar do oferecimento de muitas vantagens. “Para vencer na vida, não existem facilidades demais, é preciso desconfiar dessas propostas muito boas. Se a pessoa fizer uma conta matemática, o custo de vida lá é muito mais alto e para ter o mesmo padrão de vida daqui a pessoa precisa se desdobrar. Ninguém é muito bonzinho para te ajudar na a ganhar na loteria”, alerta.

Combate ao crime enfrenta desafios
A desarticulação das redes de tráfico humano é uma atitude arriscada e extremamente difícil. De acordo com o bispo de Marajó, Dom Azcona, a actividade conta com a conivência de políticos e pessoas influentes, além de estar intimamente atrelada ao narcotráfico, ao tráfico de armas e à exploração sexual de menores.

A delegada Marcela Rodrigues também expõe a dificuldade de desarticulação por consequência das próprias vítimas, pois há uma grande dificuldade para efectuarem denúncias e se desvincularem da rede. “A maior dificuldade para desarticular redes de tráfico de mulheres é que as envolvidas têm muitas dificuldades de se perceberem como vítimas, devido ao fato de o aliciador pertencer à sua convivência social; as relações são permeadas por contradições e um desejo muito grande de melhorar de vida, ser independente financeiramente e ajudar a família; e as condições de trabalho das mulheres que actuam no mercado do sexo no Brasil são difíceis e permeadas, também, pela violência”, explica.

Mesmo com as inúmeras dificuldades, já elencadas, muitas mulheres conseguem retornar ao Brasil através de instituições, como a Organização Não Governamental (ONG), “Resgate”, que possui escritórios em diversos países, e como o próprio nome revela, resgata pessoas que vivem em condições desumanas fora do país.

Uma vez, de volta à terra natal, essas mulheres enfrentam grandes dificuldades de readaptação, por consequência da história de terror vivida durante o tempo de permanência fora. Além disso, muitas delas adquirem marcas irreversíveis, como as doenças sexualmente transmissíveis e o vício em álcool e drogas.

A directora de Políticas Públicas para as Mulheres de Goiás, Erondina de Moraes, ressalta que em muitos atendimentos feitos por sua diretoria, a mulher resgatada possui bens, mas não encontra estrutura psicológica e monetária para um recomeço em sua comunidade original. “Elas até têm uma casa organizada, levando as pessoas a pensarem que não há necessidade de apoio, mas o que não se sabe é que essas mulheres não têm como se manter socialmente”, afirma.

A crise económica na Europa tem prejudicado o tráfico e favorecido o resgate das vítimas. Se antes uma mulher cobrava 100 euros por programa, com a crise foi obrigada a baixar seu preço para 20 euros. Ou seja, a prostituição não está mais tão atractiva como antigamente e essas garotas mal vêm conseguido recursos para a própria sobrevivência. No entanto, o principal foco das entidades de luta contra o tráfico humano continua sendo a educação e o esclarecimento, para que as vítimas não caiam nessa terrível cilada.


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A caminho da cura e da renovação

Simpósio para bispos e superiores religiosos sobre os abusos na Igreja Católica está prestes a completar um ano

ROMA, Terça-feira, 22 Janeiro 2013

Quase um ano depois do Simpósio Internacional de bispos católicos e superiores religiosos sobre os abusos sexuais na Igreja (Pontifícia Universidade Gregoriana, 6 a 9 de Fevereiro de 2012), o compromisso de combatê-los continua progredindo.

O encontro “A caminho da cura e da renovação”, no próximo dia 5 de Fevereiro, não será uma nova conferência, mas uma exposição e avaliação das actividades promovidas ao longo dos últimos meses.


Serão apresentadas as atas do simpósio, já publicadas em polaco, italiano, húngaro, alemão, inglês, espanhol, croata e ucraniano, e, em breve, também em português, francês, eslovaco e romeno. Serão expostas ainda as primeiras actividades do Centro de Protecção ao Menor, entre as quais a primeira conferência anual, realizada em Freising no ano passado, sobre “Comunicação e Empoderamento: Vítimas de Abuso Sexual Infantil”, que abordou particularmente o abuso de crianças com deficiências em instituições educacionais. Também serão apresentados os dados levantados nas primeiras visitas aos parceiros do Centro de Protecção ao Menor localizados na América Latina, África, Ásia e Europa.


Ênfase particular será dada ao programa de e-learning que foi desenvolvido para oferecer treinamento voltado à prevenção, detecção e tratamento de casos de abuso, bem como para formar operadores diocesanos.


As reuniões serão conduzidas em inglês e italiano.


O encontro será precedido por uma conferência de imprensa com a presença do pe. Hans Zollner, SI, Presidente do Conselho de Administração do Centro de Protecção ao Menor; de Hubert Liebhart, director do Centro de Protecção ao Menor, e do pe. Robert W. Oliver, novo promotor de justiça da Congregação para a Doutrina da Fé.


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