segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Cada momento pode se tornar o hoje propício para nossa conversão

Palavras de Bento XVI ao recitar o Angelus

CIDADE DO VATICANO, Domingo, 27 Janeiro 2013

Queridos irmãos e irmãs,

A liturgia de hoje nos mostra, unidas, duas passagens distintas do Evangelho de Lucas. A primeira, (1, 1-4) é o prólogo, dirigido a um certo “Teófilo”; porque este nome em grego significa “amigo de Deus”, podemos ver nele cada crente que se abre a Deus e deseja conhecer o Evangelho. A segunda passagem (4, 14-21), por sua vez, mostra-nos Jesus que “com a potência de Espírito” ia aos sábados na sinagoga de Nazaré. Como bom observador, o Senhor não se abstém ao ritmo litúrgico semanal e se une à assembleia de seus compatriotas na oração e na escuta das Escrituras. O rito prevê a leitura de um texto da Tora ou dos Profetas, seguida de um comentário. Naquele dia Jesus levantou-se para ler e encontrou uma passagem do profeta Isaías que começa assim: “o Espírito do Senhor Deus repousa sobre mim, / porque o Senhor consagrou-me pela unção; / enviou-me a levar a boa nova aos humildes” (61, 1-2). Comenta Origens: “Não é por acaso que ele abriu o pergaminho e encontrou o capítulo da leitura que profetiza sobre ele, mas também isto foi obra da providência de Deus” (Homilia sobre o Evangelho de Lucas, 32, 3). Jesus, de fato, terminada a leitura, em um silêncio cheio de atenção, disse: “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura que acabastes de ouvir” (Lc 4,21). São Cirilo de Alexandria afirma que o “hoje”, situado entre a primeira e a última vinda de Cristo, está ligado à capacidade do crente de escutar e arrepender-se (cfr PG 69, 1241). Mas, em um sentido mais radical, é o próprio Jesus o “hoje” da salvação na história, pois cumpre a plenitude da redenção. O termo “hoje”, muito caro a São Lucas (cfr 19,9; 23,43), relata-nos o título cristológico preferido pelo próprio  Evangelista, aquele de “salvador”. Já nas narrações da infância, este é apresentado nas palavras do anjo aos pastores: “Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um Salvador, Cristo Senhor” (Lc 2,11).

Queridos amigos esta passagem interpela “hoje” também nós. Antes de tudo nos faz pensar no nosso modo de viver o domingo: dia de repouso e da família, mas antes, de dedicar ao Senhor, participando da Eucaristia, na qual nos nutrimos do Corpo e Sangue de Cristo e da sua Palavra de vida. Em segundo lugar, no nosso tempo disperso e distraído, este Evangelho nos convida a questionar-nos sobre nossa capacidade de escuta. Antes de poder falar de Deus e com Deus, é preciso escutá-Lo, e a liturgia da Igreja é a “escola” desta escuta do Senhor que nos fala. Enfim, nos diz que cada momento pode se tornar o “hoje” propício para nossa conversão. Cada dia pode se transformar no hoje salvífico, porque a salvação é historia que continua para a Igreja e para cada discípulo de Cristo. Este é o sentido Cristão do “carpe diem”: aproveite o hoje em que Deus te chama para doar-te a salvação!

A Virgem Maria seja sempre o nosso modelo e a nossa guia no saber reconhecer e acolher em cada dia da nossa vida, a presença de Deus, Salvador nosso e de toda a humanidade.

(Depois do Angelus)

Queridos irmãos e irmãs,

Acontece hoje a “Dia da Memória” que recorda o Holocausto das vítimas do nazismo. A memória desta terrível tragédia, que atingiu duramente, sobretudo o povo hebreu, deve representar para todos um alerta constante a fim que não se repitam os horrores do passado, se supere qualquer forma de ódio e de racismo e se promova o respeito e a dignidade da pessoa humana.

É celebrada também hoje a 60° Jornada Mundial do doente de hanseníase. Exprimo minha proximidade às pessoas que sofrem deste mal e encorajo os pesquisadores, os profissionais da saúde e voluntários, particularmente os que fazem parte das organizações católicas e das Associações Amigos de Raoul Follereau. Invoco sobre todos o apoio espiritual de São Damião de Veuster e de Santa Mariana Cope, que deram a vida pelos doentes de lepra.

Neste domingo acontece também o Dia de intercessão pela paz na Terra Santa.

Agradeço àqueles que a promovem em várias partes do mundo e saúdo em particular aos aqui presentes.


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domingo, 27 de janeiro de 2013

Fé e religiosidade numa Europa em mudança

Encontro do Comité da CCEE e KEK sobre novos movimentos cristãos na Europa acontecerá em Varsóvia

ROMA, Sexta-feira, 25 Janeiro 2013

Este ano, o Comité Conjunto da Conferência das Igrejas Europeias (KEK) e do Conselho das Conferências Episcopais Europeias (CCEE) vão se reunir em Varsóvia na Sede da Caritas polaca (Ul. Okopowa 55) de 4 a 6 de Fevereiro de 2013, a convite do Arcebispo de Przemysl, Monsenhor Józef Michalik, presidente da Conferência Episcopal Polaca e Vice-Presidente da CCEE.

O Comité, instituído em 1972, é a instância mais alta do diálogo entre a KEK e o CCEE. Este se reúne anualmente e é formado, além das duas presidências e dos secretários-gerais dos dois órgãos, por quatro membros da KEK e quatro membros nomeados pela CCEE.

O tema do encontro Fé e religiosidade numa Europa em mudança. Os novos movimentos cristãos na Europa: desafios ou oportunidades? Pretende ser uma oportunidade para as duas realidades eclesiais reflectirem juntas sobre as mudanças que ocorrem com o homem europeu na sua relação com Deus e na sua experiência religiosa, particularmente em evidencia pelo aumento dos movimentos evangélicos e pentecostais na Europa. Diante da amplitude do tema, os dois grupos decidiram aprofundar especialmente o relacionamento, muitas vezes difícil, entre a Igreja "histórica" e as novas comunidades, cuja presença na Europa supõe novos desafios e oportunidades.

O tema será desenvolvido com a colaboração de especialistas e em três perspectivas: a primeira perspectiva sociológica e histórica conta com a colaboração da professora Eileen Barker, da London School of Economics e do professor Stanisław Wargacki SVD da Universidade Católica de Lublin; em um segundo momento, o cardeal Angelo Bagnasco, arcebispo de Gênova e vice-presidente da CCEE, juntamente com o metropolita Joseph do Patriarcado Ortodoxo da Romênia irão se pronunciar sobre a experiência que as Igrejas tradicionais vivem com a presença dos "novos movimentos" e, por fim, o arcebispo emérito de Southwark, monsenhor Kevin McDonald, e a pastora Claire Sixt-Gateuille da Igreja reformada da França tentarão definir os desafios pastorais.

No decorrer do encontro, os participantes serão informados sobre a situação religiosa e ecuménica na Polónia através da contribuição do bispo Krzysztof  Nitkiewicz, responsável pelas relações ecuménicas da Conferência Episcopal Polaca e do metropolita Jeremiasz, presidente do Conselho das Igrejas da Polónia.

Quarta-feira, 6 de Fevereiro, o trabalho será concluído pela manhã com uma visita ao Museu da Insurreição, precedida por duas palestras: "O Ano da Fé, o 50 º aniversário do Concílio Vaticano II e o Sínodo para a Nova Evangelização" com Dom Józef Michalik e "O papel da KEK numa Europa em mudança – (um olhar) sobre a renovação da KEK - Visão e Missão" com Cordelia Kopsch, da OKR, vice-presidente da EKD.

Às 11:00 de quarta-feira, 6 de Fevereiro, os jornalistas estão convidados para uma conferência de imprensa na sede da Caritas polaca (Ul Okopowa 55).

Participarão o arcebispo Józef Michalik, o bispo Christopher Hill, da Igreja da Inglaterra, o vice-presidente da KEK (a confirmar), monsenhor Duarte da Cunha, secretário geral da CCEE e o pastor Dr Guy Liagre, secretário geral da KEK.

Os dias serão marcados por momentos de oração, de acordo com as diversas tradições das confissões cristãs presentes no encontro.

As reuniões não serão abertas ao público. Entrevistas e filmagens nos dias do encontro poderão ser organizadas com o assessor de imprensa da CCEE.

Delegação da KEK e CCEE:
Participantes da KEK:
Exm Sr. metropolita Emmanuel da França, Patriarcado Ecuménico, presidente KEK
Bispo Christopher Hill, Igreja da Inglaterra, vice-presidente KEK
OKRin Cordelia Kopsch, EKD United, Alemanha, vice-presidente KEK
Metropolita Arsenios Kardamakis, Patriarcado Ecumênico
Rev. Rauno Pietarinen, Igreja Ortodoxa da Finlândia
Dra. Joanna J. Matuszewska; Igreja Evangélica reformada na Polónia
Pastora Claire Sixt-Gateuille, Igreja reformada da França
Participantes da CCEE:
Exm Sr Cardeal Peter Erdo, arcebispo de Esztergom-Budapeste, presidente CCEE
Exm Sr Cardeal Angelo Bagnasco, arcebispo de Génova, Vice-Presidente CCEE
Sua Excelência Monsenhor Józef Michalik, arcebispo de Przemysl, Vice-Presidente CCEE
Sua Excelência Monsenhor Kevin McDonald, arcebispo emérito de Southwark
Sua Excelência Monsenhor Vasile Bizau, bispo de Maramures
Rev. P. Luis Okulik, secretário da Comissão Caritas in Veritate CCEE
Palestrantes
Professora Eileen Barker, docente da London School of Economics 
Professor Stanisław Wargacki SVD, docente da Universidade Católica de Lublin
Metropolita Joseph do Patriarcado Ortodoxo da Roménia
Sua Excelência Monsenhor Krzysztof Nitkiewicz, bispo responsável pelas relações ecuménicas da Conferência Episcopal Polaca
Metropolitana Jeremiasz, Presidente do Conselho das Igrejas da Polónia
* Para mais informações, contactar: ​​
Secretário Geral da KEK
Pastor Dr. Guy Liagre  Email: GenSecretariat@cec-kek.org
Secretaria da CCEE
Thierry Bonaventura – assessor de imprensa da CCEE  Email: media@ccee.ch


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Mídia Social: espaço de evangelização

Monsenhor Claudio Celli e monsenhor Paul Tighe comentam a Mensagem do Papa para o 47 º Dia Mundial das Comunicações Sociais

A Mensagem do Papa Bento XVI para o 47 º Dia Mundial das Comunicações Sociais expressa uma "avaliação positiva", mas "não ingénua" do social media . Afirmou esta manhã monsenhor Claudio Celli, presidente do Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais, na apresentação da Mensagem para os jornalistas credenciados na Sala de Imprensa do Vaticano.

De acordo com monsenhor Celli, o Santo Padre na sua Mensagem vê as novas mídias como oportunidade para "favorecer formas de diálogo e debate", com potencial de “reforçar os laços de unidade entre as pessoas e promover eficazmente a harmonia da família humana”.

Desde que "realizadas com respeito e cuidado pela privacidade, com responsabilidade e empenho pela verdade” porque “nestes espaços não se partilham apenas ideias e informações, mas em última instância a pessoa comunica-se a si mesma”.

Na dinâmica da mídia social, há um dimensão mais ampla que está inserida naquela “ainda mais rica e mais profunda” da “busca existencial do coração humano".

O responsável pelo Dicastério das Comunicações Sociais destacou a abordagem comedida do Santo Padre que não transcura "a voz discreta da razão" e a oportunidade que a rede possa ser um espaço de evangelização.

Se por um lado é rejeitada a agressividade com que, muitas vezes, os internautas se confrontam, e por outro favorecida a atitude de "diálogo, escuta e respeito pelo outro", não é necessário, disse Celli, ceder em um conceito equivocado de "tolerância", que quase sempre indica uma latente hostilidade, e não um acolhimento autentico.

Fazendo um balanço das primeiras seis semanas do perfil Twitter do Papa Bento XVI, monsenhor Celli disse que os followers do Papa chegam a dois milhões e meio, enquanto o perfil em latim - (@ Pontifex_ln) - activado há poucos dias, já tem cerca de 10 mil usuários.
Quanto às mensagens hostis que às vezes aparecem no perfil do Twitter @pontefix, Celli disse: "Fomos apanhados de surpresa”. O projecto de qualquer maneira vale à pena, disse o monsenhor, seja pelas "belas mensagens" de apoio ao Santo Padre, seja porque "se você quiser se comunicar com o homem de hoje," é oportuno fazê-lo através das novas tecnologias, com todos os riscos que isso comporta.

É melhor "estar presente do que estar ausente para evitar esses riscos", disse o responsável pelas comunicações do Vaticano. Quanto aos twits negativos, os moderadores optaram por cancelar apenas as "ofensas gratuitas", e manter as críticas mais ou menos respeitosas que, explicou Celli, "podem ​​representar ocasião de reflexão e crescimento”.

Respondendo a pergunta de um jornalista, monsenhor Celli assinalou que não será aberta uma página oficial no Facebook dedicada a Bento XVI, tratando-se de um social media de dimensão "pessoal", enquanto o Twitter é mais adequado para uma comunicação "institucional".

O monsenhor encorajou os seguidores do Santo Padre a "retwittar" as mensagens do Papa, lembrando que cerca de 7% dos usuários já o fazem.

A conferência de imprensa contou com a presença do monsenhor Paul Tighe, secretário do Pontifício Conselho para as Comunicações Sociais, lembrando que a Internet é uma forma de comunicação determinada pelos próprios usuários, portanto, eles têm uma grande responsabilidade de transmitir "comunicações positivas" destinadas a "promover o bem-estar individual e social”.

Além disso, o ambiente digital não é "um tipo de mundo paralelo, ou apenas virtual", mas sim, um ambiente existencial onde as pessoas vivem e se movem", portanto, um “continente” onde a  “Igreja deve estar presente" e onde "os crentes, se querem ser autênticos na sua presença, devem buscar partilhar com os outros a fonte mais profunda de sua alegria e sua esperança, Jesus Cristo”.

Ao final, monsenhor Tighe mencionou o sucesso da página Facebook de News.va, através da qual os artigos do portal Vaticano tem  "mais ressonância”. A este respeito, monsenhor Celli ressaltou que as notícias mais lidas no News.va são as de "conteúdo espiritual mais forte”.


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Redes Sociais: portais de verdade e de fé; novos espaços de evangelização

Mensagem de Bento XVI por ocasião da 47° Dia Mundial das Comunicações Sociais

CIDADE DO VATICANO, Quinta-feira, 24 Janeiro 2013 

Apresentamos o texto completo da mensagem de Bento XVI por ocasião do 47° Dia Mundial das Comunicações Sociais.

Redes Sociais: portais de verdade e de fé; novos espaços de evangelização

Amados irmãos e irmãs,
Encontrando-se próximo o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2013, desejo oferecer-vos algumas reflexões sobre uma realidade cada vez mais importante que diz respeito à maneira como as pessoas comunicam actualmente entre si; concretamente quero deter-me a considerar o desenvolvimento das redes sociais digitais que estão a contribuir para a aparição duma nova ágora, duma praça pública e aberta onde as pessoas partilham ideias, informações, opiniões e podem ainda ganhar vida novas relações e formas de comunidade.

Estes espaços, quando bem e equilibradamente valorizados, contribuem para favorecer formas de diálogo e debate que, se realizadas com respeito e cuidado pela privacidade, com responsabilidade e empenho pela verdade, podem reforçar os laços de unidade entre as pessoas e promover eficazmente a harmonia da família humana. A troca de informações pode transformar-se numa verdadeira comunicação, os contactos podem amadurecer em amizade, as conexões podem facilitar a comunhão. Se as redes sociais são chamadas a concretizar este grande potencial, as pessoas que nelas participam devem esforçar-se por serem autênticas, porque nestes espaços não se partilham apenas ideias e informações, mas em última instância a pessoa comunica-se a si mesma.

O desenvolvimento das redes sociais requer dedicação: as pessoas envolvem-se nelas para construir relações e encontrar amizade, buscar respostas para as suas questões, divertir-se, mas também para ser estimuladas intelectualmente e partilhar competências e conhecimentos. Assim as redes sociais tornam-se cada vez mais parte do próprio tecido da sociedade enquanto unem as pessoas na base destas necessidades fundamentais. Por isso, as redes sociais são alimentadas por aspirações radicadas no coração do homem.

A cultura das redes sociais e as mudanças nas formas e estilos da comunicação colocam sérios desafios àqueles que querem falar de verdades e valores. Muitas vezes, como acontece também com outros meios de comunicação social, o significado e a eficácia das diferentes formas de expressão parecem determinados mais pela sua popularidade do que pela sua importância intrínseca e validade. E frequentemente a popularidade está mais ligada com a celebridade ou com estratégias de persuasão do que com a lógica da argumentação. Às vezes, a voz discreta da razão pode ser abafada pelo rumor de excessivas informações, e não consegue atrair a atenção que, ao contrário, é dada a quantos se expressam de forma mais persuasiva. Por conseguinte os meios de comunicação social precisam do compromisso de todos aqueles que estão cientes do valor do diálogo, do debate fundamentado, da argumentação lógica; precisam de pessoas que procurem cultivar formas de discurso e expressão que façam apelo às aspirações mais nobres de quem está envolvido no processo de comunicação. Tal diálogo e debate podem florescer e crescer mesmo quando se conversa e toma a sério aqueles que têm ideias diferentes das nossas. «Constatada a diversidade cultural, é preciso fazer com que as pessoas não só aceitem a existência da cultura do outro, mas aspirem também a receber um enriquecimento da mesma e a dar-lhe aquilo que se possui de bem, de verdade e de beleza» (Discurso no Encontro com o mundo da cultura, Belém, Lisboa, 12 de Maio de 2010).

O desafio, que as redes sociais têm de enfrentar, é o de serem verdadeiramente abrangentes: então beneficiarão da plena participação dos fiéis que desejam partilhar a Mensagem de Jesus e os valores da dignidade humana que a sua doutrina promove. Na realidade, os fiéis dão-se conta cada vez mais de que, se a Boa Nova não for dada a conhecer também no ambiente digital, poderá ficar fora do alcance da experiência de muitos que consideram importante este espaço existencial. O ambiente digital não é um mundo paralelo ou puramente virtual, mas faz parte da realidade quotidiana de muitas pessoas, especialmente dos mais jovens. As redes sociais são o fruto da interacção humana, mas, por sua vez, dão formas novas às dinâmicas da comunicação que cria relações: por isso uma solícita compreensão por este ambiente é o pré-requisito para uma presença significativa dentro do mesmo.

A capacidade de utilizar as novas linguagens requer-se não tanto para estar em sintonia com os tempos, como sobretudo para permitir que a riqueza infinita do Evangelho encontre formas de expressão que sejam capazes de alcançar a mente e o coração de todos. No ambiente digital, a palavra escrita aparece muitas vezes acompanhada por imagens e sons. Uma comunicação eficaz, como as parábolas de Jesus, necessita do envolvimento da imaginação e da sensibilidade afectiva daqueles que queremos convidar para um encontro com o mistério do amor de Deus. Aliás sabemos que a tradição cristã sempre foi rica de sinais e símbolos: penso, por exemplo, na cruz, nos ícones, nas imagens da Virgem Maria, no presépio, nos vitrais e nos quadros das igrejas. Uma parte consistente do património artístico da humanidade foi realizado por artistas e músicos que procuraram exprimir as verdades da fé.

A autenticidade dos fiéis, nas redes sociais, é posta em evidência pela partilha da fonte profunda da sua esperança e da sua alegria: a fé em Deus, rico de misericórdia e amor, revelado em Jesus Cristo. Tal partilha consiste não apenas na expressão de fé explícita, mas também no testemunho, isto é, no modo como se comunicam «escolhas, preferências, juízos que sejam profundamente coerentes com o Evangelho, mesmo quando não se fala explicitamente dele» (Mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais de 2011). Um modo particularmente significativo de dar testemunho é a vontade de se doar a si mesmo aos outros através da disponibilidade para se deixar envolver, pacientemente e com respeito, nas suas questões e nas suas dúvidas, no caminho de busca da verdade e do sentido da existência humana. A aparição nas redes sociais do diálogo acerca da fé e do acreditar confirma a importância e a relevância da religião no debate público e social.

Para aqueles que acolheram de coração aberto o dom da fé, a resposta mais radical às questões do homem sobre o amor, a verdade e o sentido da vida – questões estas que não estão de modo algum ausentes das redes sociais – encontra-se na pessoa de Jesus Cristo. É natural que a pessoa que possui a fé deseje, com respeito e tacto, partilhá-la com aqueles que encontra no ambiente digital. Entretanto, se a nossa partilha do Evangelho é capaz de dar bons frutos, fá-lo em última análise pela força que a própria Palavra de Deus tem de tocar os corações, e não tanto por qualquer esforço nosso. A confiança no poder da acção de Deus deve ser sempre superior a toda e qualquer segurança que possamos colocar na utilização dos recursos humanos. Mesmo no ambiente digital, onde é fácil que se ergam vozes de tons demasiado acesos e conflituosos e onde, por vezes, há o risco de que o sensacionalismo prevaleça, somos chamados a um cuidadoso discernimento. A propósito, recordemo-nos de que Elias reconheceu a voz de Deus não no vento impetuoso e forte, nem no tremor de terra ou no fogo, mas no «murmúrio de uma brisa suave» (1 Rs 19, 11-12). Devemos confiar no facto de que os anseios fundamentais que a pessoa humana tem de amar e ser amada, de encontrar um significado e verdade que o próprio Deus colocou no coração do ser humano, permanecem também nos homens e mulheres do nosso tempo abertos, sempre e em todo o caso, para aquilo que o Beato Cardeal Newman chamava a «luz gentil» da fé.

As redes sociais, para além de instrumento de evangelização, podem ser um factor de desenvolvimento humano. Por exemplo, em alguns contextos geográficos e culturais onde os cristãos se sentem isolados, as redes sociais podem reforçar o sentido da sua unidade efectiva com a comunidade universal dos fiéis. As redes facilitam a partilha dos recursos espirituais e litúrgicos, tornando as pessoas capazes de rezar com um revigorado sentido de proximidade àqueles que professam a sua fé. O envolvimento autêntico e interactivo com as questões e as dúvidas daqueles que estão longe da fé, deve-nos fazer sentir a necessidade de alimentar, através da oração e da reflexão, a nossa fé na presença de Deus e também a nossa caridade operante: «Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, sou como um bronze que soa ou um címbalo que retine» (1 Cor 13, 1).

No ambiente digital, existem redes sociais que oferecem ao homem actual oportunidades de oração, meditação ou partilha da Palavra de Deus. Mas estas redes podem também abrir as portas a outras dimensões da fé. Na realidade, muitas pessoas estão a descobrir – graças precisamente a um contacto inicial feito on line – a importância do encontro directo, de experiências de comunidade ou mesmo de peregrinação, que são elementos sempre importantes no caminho da fé. Procurando tornar o Evangelho presente no ambiente digital, podemos convidar as pessoas a viverem encontros de oração ou celebrações litúrgicas em lugares concretos como igrejas ou capelas. Não deveria haver falta de coerência ou unidade entre a expressão da nossa fé e o nosso testemunho do Evangelho na realidade onde somos chamados a viver, seja ela física ou digital. Sempre e de qualquer modo que nos encontremos com os outros, somos chamados a dar a conhecer o amor de Deus até aos confins da terra.

Enquanto de coração vos abençoo a todos, peço ao Espírito de Deus que sempre vos acompanhe e ilumine para poderdes ser verdadeiramente arautos e testemunhas do Evangelho. «Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura» (Mc 16, 15).

           Vaticano, 24 de Janeiro – Festa de São Francisco de Sales – do ano 2013.

BENEDICTUS PP. XVI


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A Santa Sé e Cuba

Colaboração com frutos para ambos

A igreja está numa posição de interlocutor e mediador legítimo


Juan Pablo Somiedo, 22 de Janeiro de 2013 às 08:19

(Juan Pablo Somiedo).- As relações da Santa Sé com Cuba passaram por diferentes momentos, desde o choque frontal, que teve o seu ponto alto na excomunhão de Fidel Castro por parte de João XXIII, até à colaboração actual.

Este facto fica manifesto se observamos as diferentes declarações dos Papas. Enquanto João Paulo II pedia em 1998 um maior grau de liberdade ao regime comunista cubano, Bento XVI fala de diálogo e reconciliação. Esta mudança de estratégia está dando os seus frutos e colocou a igreja numa posição de interlocutor e mediador legítimo que teve como consequência mais próxima a libertação de vários presos políticos.

Uma análise do cenário cubano revela-nos a presença de um conjunto de actores estatais e não estatais, cada um deles com os seus próprios interesses: a dissidência interna cubana, a comunidade de exiliados de Miami, os interesses dos E.U.A. e da Europa (com Espanha como ponta de lança), os interesses particulares das grandes empresas e, como não, a omnipresente Igreja.

Há que ter em conta, além disso, que os E.U.A. e a União Europeia defendem diferentes pontos de vista sobre as pautas que deve seguir o tão ansiado processo de transição de Cuba até à democracia. Na postura da União Europeia, Espanha exerceu uma influência decisiva, mas coabitam diferentes posturas que oscilam desde a flexibilidade e proximidade defendidas desde o governo de Madrid até à firmeza e intransigência que mostram os países do antigo bloco soviético, que vêem em Cuba uma ditadura semelhante à que eles padeceram.

Washington, pelo contrário, defende um modelo de transição rápida, com um rápido afundamento do regime castrista que seria substituído por um governo democrático no qual o exilio cubano estabelecido em Miami tivesse um peso específico e significativo.

Mas os interesses do governo americano vão muito mais além do meramente político e abarcam questões económicas. Uma mostra disso foi a recente chamada à ordem do governo de Obama através da SEC (Securities and Exchange Comisión) como consequência dos precipitados e imprudentes movimentos do presidente da Telefónica Cesar Alierta. O aviso dissuasório entende-se melhor se temos em conta que uma das sete medidas ditadas pela administração Obama em 2009 sobre Cuba refere-se a "outorgar licenças a provedores de telecomunicações para realizar acordos de serviços de conectividade com provedores de telecomunicações em Cuba".

E entende-se mais ainda se temos em conta que os movimentos e investimentos de empresas espanholas em Cuba já estavam sendo seguidas e investigadas pelo governo dos E.U.A. como revelaram recentemente as mensagens do Wikileaks: (http://www.elpais.com/documentossecretos/geo/cuba/)

Por agora, os objectivos da Igreja em Cuba não mudaram muito. Três dos mais importantes são a plena liberdade de culto com o conseguinte beneplácito do governo para abrir novos centros de culto (e tratar de mitigar assim o avanço dos cultos Pentecostais), o sector da educação e o acesso aos meios de imprensa. Um dos projectos ansiados pelos jesuítas desde que as escolas privadas foram nacionalizadas por Fidel Castro em 1961 (a ordem era proprietária do colégio Belén em Havana, onde estudou Fidel Castro), é levar à realidade um projecto educativo na ilha de maior amplitude e relevância.

E isto por mais que os jesuítas tentem negar publicamente este facto baixou o risco que pudesse ser classificado de um intento de recuperar os privilégios da colonização e pudesse ferir sensibilidades dentro da própria Companhia, não isenta de tensões internas. A este respeito podem ver-se as declarações à imprensa de Jorge Cela, recentemente nomeado superior dos jesuítas para a América Latina: http://www.jornada.unam.mx/2012/03/06/mundo/023n1mun

Mas o papel da Companhia de Jesus em Cuba com o seu superior Arregui à cabeça, pode tornar-se importante por outras razões. A presença dos jesuítas na ilha foi contínua, inclusive nos tempos mais duros da revolução cubana. Hoje os jesuítas tem presença em toda a ilha, que inclui paróquias em Havana, Camagüei, Matanzas, Cienfuegos e Santiago de Cuba e podem ser decisivos na formação de uma nova classe dirigente do país em consonância com os valores democráticos.

Isto unido a que a Igreja em geral poderia ser a condutora da paz e da estabilidade social evitando as temidas disputas posteriores contra o actual establishment cubano fazem que o Vaticano seja um expoente do que Joseph Ney cunhou como "soft power" ou "poder brando".

A respeito da imprensa, a Igreja já possui a única revista independente de crítica política de Cuba, "Espacio Laical", na qual escrevem diferentes académicos e homens da Igreja. Além disso o seminário San Carlos e San Ambrosio converteu-se no centro de diálogo "Felix Valera da Cultura", onde se reúnem a debater problemas nacionais figuras da revolução junto com vozes da Igreja e inclusive alguns opositores ao regime.

A Santa Sé está consciente, além disso, que o futuro da ilha vai estar ligado aos desejos do grosso da população e não tanto, por paradóxico que isto pareça, aos da dissidência ou o exilio cubano. Mas se alguém acertou no diagnóstico e na solução do problema cubano, esse foi, sem lugar a dúvidas, o defunto João Paulo II quando disse: "Cuba deve abrir-se ao mundo para que o mundo se abra a Cuba". Não se pode dizer tanto com tão poucas palavras.


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Enquanto esperava um autocarro em Madrid falou de Deus a um jovem drogado e o salvou do suicídio

Só chorou

Carmen esperava na estação quando apareceu. Ele queria dinheiro para comprar droga para suicidar-se. Ao escutar a carta de um preso que havia deixado a droga graças a Deus. Não parou de chorar e decidiu não suicidar-se.

Actualizado 23 Janeiro 2013

Javier Lozano /ReL


Há pessoas no mundo que se alguém concreto não lhes fala de Deus ninguém o fará nunca. E pode ser questão de vida ou morte. Daí a importância de ser testemunhas e evangelizadores. Por outras palavras, dar grátis o que receberam grátis. É o que ocorreu a Carmen, membro do Caminho Neocatecumenal de Ocaña, um dia na estação de autocarro de Méndez Álvaro de Madrid.

Carmen e José Mari, seu marido, são um casal que leva muitos anos ajudando na pastoral penitenciária da cadeia Ocaña II. Ali puderam ser testemunhas de como Cristo realmente actua e transforma os corações. Algo que havia marcado Carmen para actuar na história que vem de seguida.

O encontro na estação de autocarros
Esta mulher estava esperando o autocarro que a levaria uma tarde de volta a Madrid. Sem dúvida, restava-lhe mais de uma hora de espera. Nesse momento, um jovem toxicodependente aproximou-se e pediu-lhe dinheiro para uma suposta viagem que tinha que fazer. Ela deu-lhe algo e quando se afastava o sofrimento que ele levava dentro. Viu Cristo sofrendo no seu interior.

Ao ver a Cristo neste jovem escravo da droga soube que ao menos alguém tinha que falar-lhe de Deus. Foi assim como se aproximou dele e lhe perguntou: “que se passa?” E pediu ao rapaz que lhe contasse a sua história.

A carta de um preso convertido
Coisas da providência, Carmen levava no seu bolso a carta de um preso da cadeira a que ela acode como voluntária. Era a história de como este recluso havia podido deixar as drogas graças a Deus. “Disse-lhe, vou ler-ta, pus-me a lê-la, e ao escutá-la o rapaz começou a chorar”, recorda. Este jovem toxicodependente perguntava-lhe: “Realmente, você crê que Deus existe? Eu duvido, porque não entendo porque me faz sofrer tanto”, pois não só estava afectado pelo vício da droga mas também por muitos problemas físicos.

O jovem, estranhando a atitude desta mulher e o conteúdo da carta, voltou a perguntar-lhe: “E Deus pode fazer isto que diz a carta?” Um testemunho que não só relatava a sua conversão e como havia saído do poço mas que além disso animava os seus companheiros a aproveitar esta graça.

“Contei-lhe os milagres que vi”
Ante estas perguntas do jovem, Carmen não só utilizou a carta mas também contou-lhe a sua própria experiência de fé. “Estive muito tempo falando com ele e não só lhe falei das maravilhas que havia feito na minha vida mas também contei-lhe as experiências dos irmãos da minha comunidade”, autênticos milagres. “Eu dizia-lhe que era Deus o que havia tirado da droga outros irmãos e que somos filhos de Deus e que nos ajuda”, afirma.

O dinheiro era para suicidar-se
Depois chegou a vez do jovem. Confessou que lhe havia mentido e que o dinheiro que lhe tinha pedido não era para fazer nenhuma viagem. Chorando disse-lhe que “esse pedaço de conversa não havia sido em vão” e avassalado pela sua vida queria o dinheiro para conseguir droga suficiente para suicidar-se dado que previamente se havia escapado de um centro de reabilitação.

A diferença entre o suicídio e a morte cristã
Sem dúvida, Carmen continuou falando com ele e relatando experiências similares à do jovem e nas que haviam podido sair da droga. “Falei-lhe também da morte e da paz que se tem quando se morre de maneira cristã, como se afronta a morte tendo a Cristo e como quando não se tem”.

Por isso, sobre a sua intenção de suicidar-se disse-lhe: “queres suicidar-te porque não podes mais e crês que a solução está em deixar a vida” mas não, realmente, há esperança e com Cristo tudo é possível. Ele transformou a morte em vida, pelo que recomendou-lhe que fosse à Igreja, que é sua mãe.

A decisão de não suicidar-se
Admirado e muito emocionado, o jovem drogado assegurava que “ninguém me falou como você o está fazendo”. Depois de longo tempo de conversa na estação de autocarros, o jovem afirmou que a carta e a experiência de Carmen lhe haviam tirado a ideia de suicidar-se. “Agora vejo que devo ir a casa dos meus pais, pedir-lhes perdão e que me ajudem a deixar a droga”, assegurava. E acrescentou que também “devo fazer o que me disse e pedir ajuda à Igreja”. Deu-lhes tempo para despedir-se e o jovem mostrou-se agradecido a Carmen. De uma maneira quanto menos curiosa, Deus havia chegado aos ouvidos deste jovem escravo da droga.

Anos vendo milagres nas cadeias
José Mari e Carmen continuam indo todas as semanas à cadeia de Ocaña porque “as pessoas estão muito necessitadas de Deus”. Ali viram autênticos milagres e “temos um agradecimento enorme a Deus por esta missão”. De facto, Carmen confessa que “eu jamais havia pensado em ir a uma cadeia pois sou muito medrosa” mas na capela da prisão “eles sentem-se livres, não saem iguais que quando entraram. Dizia um recluso no outro dia que levava a gasolina para a semana”.

Esta experiência na pastoral penitenciária ajuda-os na sua vida de fé como casal. José Mari assegura que “para nós ir é estar com os pobres e os débeis. É estar com Cristo, com a presença viva de Cristo. Vemos como sofrem e como encontram um consolo grande. Isto é também um testemunho para nós”.

Dar grátis o que receberam grátis
Igualmente, Carmen afirma que “temos visto grandes testemunhos, presos que haviam tido brigas entre eles e que se perdoaram porque a raiz de estar na Igreja sabiam que tinham que perdoar-se para estar com Cristo”.

Ainda que às vezes também o seu papel seja mais contemplativo. “Em ocasiões só com escutar ajuda-os porque hoje em dia não se escuta. Vivemos num mundo com prisões e assim ao menos podem sentir-se escutados”. Cumprindo o que diz o Evangelho este matrimónio assegura “sentir a presença de Deus como nunca na cadeia” e havendo recebido a Deus puderam dá-lo aos demais numa estação de autocarros para dar grátis o que receberam grátis.


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