sexta-feira, 16 de maio de 2014

sexta-feira, 9 de maio de 2014

A utopia da democracia


s 40 anos do 25 de Abril convidam-me  a  uma  breve  reflexão sobre o muito que importa fazer, para realizar os ideais de Abril e da Democracia, enquanto sistema que procura responder aos legítimos direitos, deveres e aspirações dos cidadãos.

Quarenta anos penso ser tempo suficiente para olhar- mos criticamente e construtivamente para o País que tem vindo a ser delineado ao longo destas décadas, embora seja evidente que as opiniões não serão coincidentes na leitura e nas conclusões, o que também é salutar, pois unidade é sinónimo de pluralidade e não de unanimismo.

Numa coisa creio não haver dúvidas: não há verdadeira Democracia sem o voto dos cidadãos, embora ela não se restrinja a isso, e seja necessário criar e apoiar outras formas de participação dos cidadãos, de forma individual ou organizada, com carácter mais ou menos estável, sendo obrigação dos políticos ouvir as pessoas, sempre que elas se expressem dentro do quadro legal e respeitem os princípios do Estado de Direito.

Para se poder avançar na utopia de um mundo melhor e mais justo, apresento, ainda que de forma sintética, algumas ideias:
  • Maior proximidade entre eleitos e eleitores, entre os nomes propostos nas listas e os efectivamente eleitos;
  • Mais clareza e transparência nas relações entre a Política e os demais sectores da sociedade;
  • Aposta mais decidida nas novas gerações, e naqueles que estiverem disponíveis para o serviço do bem comum;
  • Diálogo mais abrangente entre as diversas forças políticas, na implementação de medidas de carácter conjuntural e estrutural, para além do horizonte de uma legislatura;
  • Maior liberdade de pensamento e de expressão dos representantes do povo, sempre que estejam em causa questões de consciência e os legítimos direitos dos cidadãos eleitores.
O que acabo de afirmar são notas, naturalmente breves, da Doutrina Social da Igreja, e que é possível encontrar nos documentos elaborados, sobretudo, a partir do Concílio Vaticano II.

Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
in Diário do Alentejo, nº 1672, 09 de Maio de 2014


sexta-feira, 11 de abril de 2014

Regra de Prata e Regra de Ouro


Decerto todos os nossos leitores já ouviram e/ou talvez até tenham reflectido sobre alguma destas duas frases: "não faças aos outros, o que não queres que te façam a ti"; "faz aos outros, o que queres que te façam a ti". Uma pela negativa ("regra de prata") e outra pela positiva ("regra de ouro"), portam consigo uma sabedoria secular, que merece alguns instantes de minha reflexão e, espero, que também da vossa atenção. Não sei se todos os nossos leitores saberão qual é a fonte destes ditames; por isso, sinto-me na obrigação de vos dizer, para quem não sabe, "que a sua origem 'é a Bíblia, o Antigo Testamento, mais concretamente.

A sapiência subjacente a estes pensamentos é muito clara, incisiva e evidente, e se a puséssemos em prática, imaginemos quantas coisas mudariam?! Lembro apenas algumas hipotéticas situações:
  • Quantas vezes queremos que nos respeitem e nós não respeitamos os outros?
  • Quantas vezes exigimos aos outros e não aceitamos que façam o mesmo connosco?
  • Quantas vezes nos exaltamos, somos arrogantes, tratamos mal os outros e depois recusamos que utilizem connosco a mesma moeda?
  • Quantas vezes falamos de humildade, de verdade, de justiça, e exigimos aos outros comportamentos conformes, e nós fazemos exactamente o contrário?
O número e a variedade das situações que poderia aqui enunciar é imensa, pelo que, não me alongarei muito mais, pois não quero substituir-me a ninguém naquilo que lhe compete fazer na sua vida.

Creio que na vida não necessitamos de fazer grandes propósitos, nem de aspirar a grandes projectos, bastaria apenas que fossemos dando pequenos passos, reflectindo mais sobre a nossa vida, o nosso ser e o nosso agir, procurando ter e crescer na humildade, olhando-nos no espelho da nossa consciência e aceitando as correcções que nos fazem, mesmo quando elas não são feitas pelos melhores motivos, por muito que isso nos custe.

Penso que a nossa vida se transformaria se procurássemos ser mais coerentes e consequentes entre aquilo que dizemos e aquilo que fazemos, evitando cair no erro das aparências, procurando ser mais autênticos e transparentes, diante dos homens e, para quem acredita, diante de Deus, que nos conhece melhor do que nós mesmos.

Estamos na Quaresma e, para nós cristãos, este deveria ser o seu autêntico espírito, a ajudar-nos a colocarmo-nos no caminho da conversão, da mudança de tanta coisa que na nossa vida necessita" de ser purificada e transformada. Voltando às duas frases iniciais, elas inserem-se na grande sabedoria que é possível encontrar nas páginas da Bíblia. Mesmo quem não é cristão, não terá muitas vezes dificuldade em entender a verdade de muitas das suas afirmações, princípios, valores, propostas. Era esta a convicção profunda do Papa e Beato João XXlll, quando introduziu na Encíclica Pacem in Terris, como destinatários da mensagem da Igreja, a expressão "homens e as mulheres de boa vontade".

Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
in Ecos de Grândola, nº 264, 11 de Abril de 2014


sexta-feira, 4 de abril de 2014

Incoerências e contradições


em sempre nos apercebemos das incoerências e contradições que marcam a nossa vida, e é frequente, por exemplo, exigirmos aos outros aquilo que não admitimos que exijam de nós. Sem querer esgotar as situações em que isto se pode verificar, deixo apenas alguns exemplos:

Quantas vezes somos agressivos, altaneiros, mal-educados com outras pessoas, e deploramos atitudes deste género, quando o alvo somos nós?

Quantas vezes exigimos verdade, honestidade, transparência e fidelidade, mas sempre em único sentido?

Quantas vezes anunciamos a importância da confidencialidade, a hierarquia das verdades e dos princípios, e fazemos precisamente o contrário?

A Bíblia, no Antigo Testamento, tem duas frases, plenas de sabedoria, que nos poderão dar uma preciosa ajuda no repensar da nossa vida: “não faças aos outros, o que não queres que te façam a ti”; “faz aos outros, o que queres que te façam a ti”.

A clareza, horizontalidade e praticidade desta mensagem torna-as acessíveis mesmo a quem não tem fé, desde que procure viver segundo a consciência, na rectidão e na verdade.

Na correria da vida hodierna, que não favorece a paragem e a reflexão, torna-se cada vez mais necessário descobrir e inventar oásis que nos ajudem a repensar as nossas palavras, gestos e atitudes, a conhecermo-nos melhor, e a perceber a realidade da nossa condição. Só assim poderemos perceber que a fragilidade e a imperfeição são características da condição humana. Esta constatação, ser-nos-á de grande utilidade, pois, quanto mais percebermos a falibilidade da nossa humanidade, às vezes na relação uns com os outros, tanto mais nos poderemos disponibilizar para a mudança de paradigma existencial, encontrando caminhos novos e de renovação.

Sem grandes projectos nem ambições, estas duas frases podem ajudar-nos a colocar os pés em terra e a perceber, como diz o Provérbio, que: “um grande caminho começa com o primeiro passo”.

Bom exercício … para todos, caros leitores.

Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
in Diário do Alentejo, nº 1667, 04 de Abril de 2014


Convite para o Festival Terras Sem Sombra