sexta-feira, 8 de maio de 2015

O Valor Inestimável da Vida Humana


Nem sempre é fácil encontrar temas apelativos sobre os quais escrever, sobretudo, quando a vida é preenchida de múltiplas tarefas, díspares, e sempre exigentes e empenhativas. Depois de alguns tempos de reflexão, e certamente motivado pelas recentes e consecutivas tragédias no Mediterrâneo, resolvi escrever algumas palavras sobre a vida humana e o seu valor inestimável, pois, para além de outras questões subjacentes, sobre as quais vale a pena também reflectir, creio que o que está em causa é o valor da vida humana e de cada vida.

Porque não acredito no destino, penso que muitos dos males deste Mundo poderiam ser vencidos, se não existisse tanta indiferença e desconsideração para com a pessoa humana, e se, quem de direito, procurasse, de facto, defender a vida humana e cada vida, porque ninguém pode predizer o futuro e imaginar o que se perde quando desaparece um ser humano. Quantos sonhos desfeitos? Quantos líderes potenciais? Quantos cientistas prematuramente desaparecidos? Quantos músicos que não chegaram a compor? No fundo, quantas pessoas iguais a nós não tiveram oportunidade de deixar a sua "pegada existencial" neste Mundo?

Muitos deles, como justamente afirmou o Papa Francisco, apenas procuravam a felicidade, um futuro melhor; com menos guerras, fomes, injustiças, para si e para as suas famílias. E tudo poderia ter sido diferente! Às vezes e infelizmente parece que só quando acontece uma catástrofe é que se desperta e se tomam decisões, que, porém, já não podem trazer à vida os que partiram.

Os valores sobre os quais foi edificado o Projecto Europeu não foram meramente materialistas, embora o possam inicialmente parecer. A Comunidade do Carvão e do Aço e a sua sucessora Comunidade Económica Europeia foram idealizadas por homens inspirados por valores profundamente humanistas e cristãos, e consolidaram-se no meio, certamente, de erros, falhas e desilusões. Para que este objectivo se tivesse imposto não foram certamente alheias as duas Grandes Guerras, o Holocausto e um sem número de conflitos de menor escala, que ajudaram a Europa a ir traçando o seu caminho e a fazer opções. Talvez, por isso, se torna hoje necessário mergulhar na nossa memória colectiva e combater uma espécie de amnésia e de insensibilidade tendencialmente generalizadas, que pairam sobre a Europa, e nos pretendem fazer esquecer que cada vida é única e irrepetível, e o direito à vida o primeiro e o fundamental dos direitos humanos. A passividade e o permissivismo podem ser a antecâmara de um crepúsculo civilizacional, de consequências imprevisíveis.

Não foi fácil, como já referi, mas a consubstanciação dos Direitos Humanos em Declarações um pouco por todo o Mundo, deve muito ao génio europeu profundamente marcado pelo Cristianismo, que há 2000 anos proclamou a igualdade essencial de todos os seres humanos e a fraternidade universal numa Casa Comum, que é este Planeta onde habitamos.

Neste tempo em que vivemos e olhando para os conflitos que marcam o nosso quotidiano, penso que temos despertar da letargia, insensibilidade e indiferença em que tantas vezes mergulhamos ou deixamos que nos mergulhem, e pensar que há tanto para fazer e tanto que cada um de nós pode fazer, se não quisermos tornar-nos noutros Pilatos. É tempo de perceber que também está nas nossas mãos fazer deste Mundo um Mundo melhor, onde todos os seres humanos, independentemente da sua cor, raça, ou religião, sejam tratados de igual forma, com a dignidade que lhes é inerente e que deve ser respeitada, defendida e promovida.

Se o Mediterrâneo é o "Mare Nostrum",quem o tenta atravessar não nos pode ser estranho, indiferente, ou, pior, encarado como um potencial inimigo.

É tempo de agir!

Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
in Ecos de Grândola, nº 277, 08 de Maio de 2015


quarta-feira, 15 de abril de 2015

FESTIVAL TERRAS SEM SOMBRA - Grândola recebe grandes intérpretes premiadas pelo Vaticano no Concurso Internacional de Música Sacra de Roma | 18 de Abril, 21h30 | igreja matriz de N.ª Sr.ª da Assunção


Informação à Comunicação Social
13 de Abril de 2015

Cultura/ Ambiente/ País

Grândola recebe grandes intérpretes premiadas pelo Vaticano no Concurso Internacional de Música Sacra de Roma

Dando novos sinais de ruptura com uma linha demasiado convencional na abordagem da música sacra, o Festival Terras sem Sombra apresenta no seu próximo concerto, em Grândola, terra de muitas ressonâncias artísticas, uma experiência estética única: o recital que une duas intérpretes de excepção, Patricia Janečková e Celeste Shin Je Bang, vencedoras  – respectivamente com o primeiro e o segundo prémios – do Concurso Internacional de Música Sacra de Roma, de 2014, realizado sob a égide da Santa Sé.
 
O concerto terá lugar na igreja matriz de Nossa Senhora da Assunção, no próximo sábado, 18 de Abril, pelas 21h30. Sob o título “Vinho Velho em Odres Novos: Perspectivas das Novas Gerações sobre a Voz Humana”, faz parte da 11.ª edição do Festival Terras sem Sombra, iniciativa do Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja, em colaboração com o município e a paróquia locais (como todas as actividades deste projecto, é de entrada gratuita). Domingo, uma acção de salvaguarda da biodiversidade traz ao palco o património geológico da faixa piritosa do Alentejo, habitat privilegiado de muitas manifestações da biodiversidade.

Trata-se da primeira vez que a soprano Patricia Janečková e a meio-soprano Celeste Shin JeBang actuam em Portugal, o que torna este promissor concerto uma ocasião histórica. “É difícil conseguir maior contraste entre duas cantoras”, salienta Juan Ángel Vela del Campo, director artístico do Festival: “juntá-las, em Grândola, num recital com estas características, afigurou-se uma oportunidade de ouro, para além de uma clara aposta no futuro do canto”. Vela del Campo, celebrado crítico musical espanhol, integrou, no passado Outono, o júri do Concurso de Música Sacra da Academia Musical Europeia. “Houve unanimidade nas deliberações, algo pouco frequente, e os dois primeiros prémios recaíram em duas cantoras nos antípodas estilísticos”, explicou, acrescentando “é um privilégio poder levar a cabo um encontro musical com estas características”.

Patricia Janečková, nascida na Eslováquia em 1998, triunfou em Roma com a sua interpretação da Paixão segundo São Mateus, de J. S. Bach. A crítica tem chamado a atenção para a maturidade musical desta soprano que, desde os quatro anos de idade, encanta sucessivas audiências – mesmo as mais exigentes. De uma entoação e afinação vocal perfeitas, aos 12 anos venceu, com a sua voz cristalina, o concurso da televisão checa e eslovaca, Talentmania, sendo nomeada vencedora absoluta e recebendo o prémio das mãos do célebre tenor eslovaco Peter​ Dvorský.​ Porém, foi na série “Junge​ Talenteder Klassik 2013”, que teve início a sua carreira internacional a solo. Em 2014, distinguiu-se como protagonista de​ Buquet,​ adaptação de poemas e baladas da literatura checa.

O segundo prémio do concurso de Roma foi concedido à meio-soprano Celeste Shin Je Bang, de nacionalidade sul-coreana, que brilhou com Requiem. Natural de Seoul (1982), esta grande cantora tem sido reconhecida internacionalmente, alcançando importantes galardões. Estreou-se no Teatro alla Scala, de Milão, em 2013, no papel de Lucila (La Scala di Seta, de Rossini) e fez Il Piccolo Spazzacamin, de Britten, no papel de Miss Baggot. Outras actuações suas de relevo foram na Petite Messe Solennelle, de Rossini, no Teatro Müvészetek Palotája de Budapeste, sob a direcção de Bruna Casoni, e na Missa en Dó Maior, op. 86, de Beethoven, no Nuovo Teatro dell’Opera, de Florença, sob a direcção de Omer Meir Welber.

Complementar entre si, esta dupla será acompanhada pela pianista Julia Grejtáková, outra notável intérprete eslovaca, fautora de brilhante carreira internacional. Um repertório de excelência, cheio de colorido e de profundidade, com obras de Rombi, Handel, Bach, Mozart, Vivaldi, Rossini e Verdi, adequa-se em pleno a um dos mais monumentos religiosos do Alentejo litoral, a Igreja Matriz de Grândola, que tem vindo a ser alvo de obras de restauro e se destaca pela excelência do seu património de artes decorativas.

José António Falcão, director-geral do Festival Terras sem Sombra, chama a atenção, por seu turno, para o desafio de apresentar, no Alentejo, “uma região especialmente vocacionada para a música sacra”, premières de repercussão europeia. “Faz todo o sentido reivindicar para a nossa região um papel próprio no panorama da arte dos nossos dias; este festival integra a divisão de topo da música sacra e o concerto do próximo sábado, em Grândola, é uma boa prova disso”, acrescenta Falcão, sublinhando: “o tempo do provincianismo, em termos de vida cultural, já passou; hoje, ou estamos à frente ou ficamos à margem”.


Biodiversidade – Acção do Terras Sem Sombra em Grândola destaca a importância da geodiversidade da faixa piritosa  

Na manhã de domingo, 19 de Abril, músicos, moradores e a comunidade do Festival unir-se-ão, como é timbre do Terras sem Sombra, numa iniciativa de salvaguarda da biodiversidade.

Com o apoio do Centro Ciência Viva do Lousal, do Comité Nacional para o Programa Internacional de Geociências da Unesco, do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas e do Laboratório Nacional de Energia e Geologia, esta acção – invulgar entre nós – convida o público a mergulhar nos tempos geológicos, numa visita em torno de uma das principais regiões mineiras da Europa: a faixa piritosa ibérica.

Levantando o véu sobre de que forma esta faixa estruturou a ocupação humana num vasto território do Sudoeste peninsular, os participantes são convidados a conhecer o extraordinário património geológico português, nas suas múltiplas vertentes, muitas das quais ainda pouco divulgadas. Numa animada acção, serão observadas a antiga corta (escavação a céu aberto) e uma galeria mineira, santuários da geodiversidade e da biodiversidade, enquanto contadores de histórias partilharão vivências dos antigos mineiros.

O diálogo entre gerações é outras das componentes desta iniciativa, já que vão estar presentes os alunos, os professores e os técnicos da Eco-Escola das Ameiras, um estabelecimento do ensino básico de Grândola cujo programa escolar se centra, em larga medida, no património ambiental do concelho, e que é presença regular, sempre muito interessada, nas actividades do Festival Terras sem Sombra. Da sua interacção já resultaram a criação de um “Museu do Sobreiro” ao ar livre e projectos em curso sobre a valorização do montado sobro e a salvaguarda da Serra de Grândola, onde se verificam severos problemas de conservação de espécies autóctones.

Para ver as fotografias das solistas e Minas de Lousal (3), abrir em http://we.tl/xEHFIwXUQL


sexta-feira, 10 de abril de 2015

A Primavera e a Páscoa


A Primavera é um tempo extraordinário em que a vida brota e tudo se enche e canta de alegria, bastando olhar para a maravilha dos nossos campos e deixarmo-nos deslumbrar pelas suas mil cores, que rebentam intempestivamente, rompendo por todo o lado sem pedir autorização, numa harmoniosa sinfonia de cores e beleza que nos envolvem e conquistam.

Para nós cristãos, Primavera é também sinal de Páscoa, da Vida, de Alegria, pois nela celebramos a vitória da Vida sobre a Morte, em Cristo Jesus Morto e Ressuscitado, Aquele que, para nós cristãos, nos vem revelar Deus e a Sua vontade salvífica de estabelecer uma aliança com toda a humanidade, doravante chamada a ser uma só família, caracterizada pelo perdão e pela reconciliação. A Páscoa é, por isso mesmo, na sua essência, coração da fé cristã.

Por ser um tempo tão importante, ela é preparada pela Quaresma e concluiu-se na Semana Santa, prolongando-se os seus festejos durante mais cinquenta dias, até ao Pentecostes, descida do Espírito Santo sobre a pequenina comunidade cristã em oração, com os Apóstolos e Nossa Senhora.

Em muitos locais, dentro e fora de Portugal, à celebração do mistério pascal de Cristo, foi possível associar e integrar outras dimensões mais profanas, numa feliz complementaridade que, porém, não deve fazer esquecer o que se-celebra nestes dias intensos; e essa é uma das nossas missões, enquanto cristãos. Nestes dias somos, pois, convidados a meditar na fragilidade da vida humana e na humildade em que deveríamos viver, enquanto discípulos de Cristo, pois foi este o caminho por Ele assumido e percorrido, o qual nos é igualmente proposto para nele prosseguirmos.

Este tempo lembra-nos ainda uma frase que repetimos muitas vezes, quando rezamos o Pai Nosso, e que pouco se reflecte na nossa vida: a disponibilidade para fazer a Vontade de Deus. Esta supõe a consciência dos nossos pecados, um desejo firme de mudarmos de vida e de nos reconciliar­mos, com Deus e com os irmãos, no fundo, de nos renovarmos, sem nunca desistir, mesmo quando os obstáculos são grandes e nos desafiam, colocando em causa as nossas forças humanas.

Páscoa é também, já o dei a entender, tempo de esperança, uma esperança que vence a morte e nos diz que o nosso horizonte já não é o cenário dos confins deste mundo, mas a eternidade, a imortalidade, porque em Cristo também nós somos vencedores e temos a certeza de que, para quem, acredita, avida não acaba, apenas se transforma.

Que estes dias nos ajudem a recuperar a autêntica alegria, a meditar e a agradecer o dom e o mistério da vida, da nossa vida, e de como sem Deus ela (vida) é pobre, incompleta, carente, de um projecto que nos envolva, arrebate e nos convença do quanto Deus nos ama, ao ponto de Se fazer um de nós, para que nós nos tomemos e vivamos como filhos de Deus e irmãos em Cristo.

Uma Páscoa bem vivida.


Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
in Ecos de Grândola, nº 276, 10 de Abril de 2015