quarta-feira, 30 de setembro de 2015
sábado, 19 de setembro de 2015
O que vale a vida humana?
humanidade vive
um dos seus maiores dramas, desde a II Grande Guerra, com a deslocação de imensas massas humanas, que procuram, no meio das mais frágeis, degradantes, e indignas condições, cruzar o oceano da fome, da miséria, da guerra, e aportar
a terras de pão e de esperança, mesmo que a realidade esteja mistificada e eivada de um certo irrealismo. Para quem tem tão pouco, tudo parece ser preferível.
Dada a enormidade e complexidade do problema, é preciso encontrar soluções, não apenas nos países de destino, mas também nos países de origem, muitos deles a
braços com graves
crises humanitárias, económicas e políticas, nalguns casos, de completa desagregação e desgoverno. A resposta
terá, por isso, de ser global e
transversal, exigindo
a superação dos egoísmos nacionais e
regionais, de modo que seja possível encontrar caminhos de solução para estes seres humanos, iguais a nós em dignidade e direitos. Esta é
para mim a questão
fundamental, mesmo admitindo a sua complexidade e dificuldade.
Nesta, como noutras questões onde está em causa a
vida humana, preocupam-me os sintomas de uma certa amnésia, insensibilidade e indiferença, sobressaltadas momentaneamente pela notícia de mais algumas centenas de mortos, que se tornam paulatinamente milhares, mas que, mergulhando no oceano imediatista do esquecimento, rapidamente deixa de ser notícia, engolida por outras novidades, por vezes banais, onde a
vida humana surge apenas como uma entre muitas variáveis.
A banalização e desvalorização da vida humana, considerada “descartável” para muitos, como gosta de dizer o Papa Francisco, é um dos sinais
de que a nossa civilização está doente. Não duvido, por isso, que, no futuro, as gerações vindouras nos julgarão com um olhar reprovador.
Talvez seja tempo de voltarmos a ler com atenção a Declaração Universal dos Direitos Humanos, nomeadamente o
seu nº1: “Todos os seres humanos nascem livres e
iguais em dignidade e em direitos. (…).”
Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
in Diário do Alentejo, nº 1743, 18 de Setembro de 2015
sexta-feira, 14 de agosto de 2015
O Papa Francisco e S. Francisco de Assis
A eleição de um Papa é sempre, para nós católicos, um grande sinal da Providência Divina, pois cada um deles, para além dos critérios humanos que parecem presidir à sua eleição, é a pessoa de que a Igreja tem necessidade no tempo concreto, e cada um deles deixará a sua marca, que ultrapassará os confins institucionais da Igreja. O Papa Francisco é o exemplo perfeito de quanto acabo de afirmar: não constava na lista dos "Papabili”, e ei-lo a marcar a agenda da Igreja e dos grandes líderes e acontecimentos do Planeta Terra, arrastando multidões num crescendo imparável.
O nome Francisco, por ele escolhido, vai revelando a riqueza e o porquê desta opção. Sem ter a pretensão de querer tentar revelar as linhas de pensamento e de ação do Papa, que constantemente nos surpreende, assinalo alguns traços que me parecem ser fundamentais e distintivos:
O nome Francisco, por ele escolhido, vai revelando a riqueza e o porquê desta opção. Sem ter a pretensão de querer tentar revelar as linhas de pensamento e de ação do Papa, que constantemente nos surpreende, assinalo alguns traços que me parecem ser fundamentais e distintivos:
- Centralidade do ser humano, sobretudo, do mais fraco, mais pobre, mais fragilizado, que não pode, de modo nenhum, ser considerado "descartável";
- Preocupação de chegar a toda a gente, em especial, às "periferias' humanas, físicas e existenciais;
- Vontade renovadora da Igreja, nas suas estruturas e mentalidades, simplificando, desfuncionalizando, tornando mais simples, mais transparente, mais participativo o Governo da Igreja, seja no Centro (Roma e Vaticano), como nas Dioceses e demais organismos;
- Pobreza como opção preferencial (já assumida em Puebla, em 1979), que deve envolver e comprometer todos na lgreja, e o Papa dá o exemplo, que deve ser seguido, por convicção e não apenas por aparência;
- Firmeza na condenação dos erros, venham eles de "dentro" ou de "fora" da lgreja, com a criação e implementação de instrumentos e medidas que tornem efetivas as mudanças necessárias;
- Estabelecimento de pontes com as Igrejas Cristãs, com as demais Religiões e com os homens e mulheres de "boa vontade", e aposta no diálogo, não como estratégia, mas como "modus vivendi”;
- Coragem no enfrentar de questões delicadas, "dentro" e "fora" da Igreja, e simplicidade na procura de consensos e de respostas, às vezes inovadoras;
- Preocupação com a natureza, o ambiente e com o futuro deste Planeta e da Humanidade, o que implica a coragem da denúncia de modelos materialistas e desumanos de desenvolvimento, implementados frequentemente à custa da vida e da dignidade de tantos irmãos nossos.
Sem pretender esgotar o rico ministério deste Papa, que já conquistou e aproximou de Deus e da Igreja muitos dos descrentes e até adversários tradicionais, resta-me pedir a Deus que o proteja, para que ele continue a ser no nosso tempo o que S. Francisco de Assis foi em plena Idade Média, um convicto renovador, na fidelidade a Cristo e ao Seu Evangelho; e desperte a Igreja, para que esteja à altura de acolher os desafios deste Papa "vindo do fim do Mundo", e se deixe arrastar e transformar pela força vivificadora do Espírito Santo.
Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
in Ecos de Grândola, nº 280, 14 de Agosto de 2015
sexta-feira, 24 de julho de 2015
Francisco versus Francisco
medida que o tempo vai passando, mais evidentes se tornam as razões da escolha do nome Francisco, pelo cardeal jesuíta Jorge Mario Bergoglio. Com efeito, a mística em torno do ideal de radicalidade evangélica do poverello de Assis, tem cativado gerações e multidões, e desafia a Igreja a não ter medo da renovação e da abertura a este mundo real, concreto, histórico, para lhe levar a boa notícia que a muitos ainda não chegou e que nem sempre é visível na vida da comunidade cristã.
O papa Francisco é o homem providencial para guiar a Igreja, mas é também um líder respeitado, incontestado, amado, mas também temido, pela força da sua palavra, dos documentos que nos lega, e, sobretudo, dos gestos carregados de uma humildade autêntica que desconcerta, em especial, aqueles que se habituaram a associar a Igreja e a sua hierarquia à frivolidade e à ostentação, ao funcionalismo carreirista, ao centralismo avesso às “periferias” e à participação.
Saliento mais algumas notas do seu ministério: preocupação pelo ser humano, em particular, por quem não se pode defender e tende a ser “descartado”; aposta num desenvolvimento que coloque o Homem no centro, respeite a natureza e garanta o futuro das gerações vindouras; estabelecimento de pontes, através de um diálogo sem condições, com crentes e não-crentes; empenho em levar a solicitude da Igreja a todos; luta pela transparência, dentro e fora da Igreja; firmeza no combate contra o erro, e caridade para com os arrependidos; denúncia dos poderes instituí- dos que não respeitam o ser humano, a sua dignidade e direitos.
Como ele próprio já afirmou, o seu ministério talvez não seja longo, pois o seu ritmo de vida é avassalador, a energia que coloca em todos os projetos impressionante, mas os sinais de que este é o caminho, são claros. Poderemos nós cristãos ficar indiferentes?
Creio não exagerar se afirmar que S. Francisco de Assis estará satisfeito com o seu homónimo Francisco, papa.
O papa Francisco é o homem providencial para guiar a Igreja, mas é também um líder respeitado, incontestado, amado, mas também temido, pela força da sua palavra, dos documentos que nos lega, e, sobretudo, dos gestos carregados de uma humildade autêntica que desconcerta, em especial, aqueles que se habituaram a associar a Igreja e a sua hierarquia à frivolidade e à ostentação, ao funcionalismo carreirista, ao centralismo avesso às “periferias” e à participação.
Saliento mais algumas notas do seu ministério: preocupação pelo ser humano, em particular, por quem não se pode defender e tende a ser “descartado”; aposta num desenvolvimento que coloque o Homem no centro, respeite a natureza e garanta o futuro das gerações vindouras; estabelecimento de pontes, através de um diálogo sem condições, com crentes e não-crentes; empenho em levar a solicitude da Igreja a todos; luta pela transparência, dentro e fora da Igreja; firmeza no combate contra o erro, e caridade para com os arrependidos; denúncia dos poderes instituí- dos que não respeitam o ser humano, a sua dignidade e direitos.
Como ele próprio já afirmou, o seu ministério talvez não seja longo, pois o seu ritmo de vida é avassalador, a energia que coloca em todos os projetos impressionante, mas os sinais de que este é o caminho, são claros. Poderemos nós cristãos ficar indiferentes?
Creio não exagerar se afirmar que S. Francisco de Assis estará satisfeito com o seu homónimo Francisco, papa.
Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
in Diário do Alentejo, nº 1735, 24 de Julho de 2015
sexta-feira, 10 de julho de 2015
À descoberta dos Santos Populares
Este é um período fértil em Festas de diversa índole, mas hoje gostaria de me centrar, ainda que brevemente, nos três Santos Populares que celebramos durante o mês de Junho Santo António, São João e São Pedro.
No nosso país eles são objeto de uma generalizada devoção, e nestes dias multiplicam-se os festejos
de Norte a Sul, passando pelas Ilhas até à diáspora lusitana, espalhada pelos quatro cantos da Terra. Não será, contudo, muito difícil perceber que estas festividades foram construindo percursos celebrativos alternativos, frequentemente,à margem do culto oficial casos mesmo em contradição com as suas vidas e missões. Poder-nos-íamos, então, perguntar qual ou quais as razões deste facto? A resposta não é fácil e eu próprio desconheço como nasceram consolidando estas tradições, o se cruza com outras manifestações religiosas humanas, numa amálgama que constitui, por um lado, uma riqueza inestimável, por outro, um desafio à ação da Igreja. Por outro lado, estas manifestações são uma revelação, muitas vezes heterodoxa, a religiosidade inata no ser humano que clama do mais profundo do nosso eu.
Não é por acaso que o Livro do Génesis, primeiro livro da Bíblia, diz que nós seres humanos fomos "criados à imagem de Deus" e em Cristo nos tornámos família de Deus, ao ponto de lhe podermos chamar Pai!
A importância deste culto extravasou os confins institucionais da Igreja e pode bem ajudar-nos a refletir como devemos estar atentos aos Sinais de Deus, que tantas vezes nos surpreende e desafia a que estejamos abertos, recetivos, e sejamos capazes de acolher a novidade que é intrínseca à essência do nosso Deus. E é sobretudo sobre isto que eu pretendo escrever.
A Igreja não pode, por isso, não tentar compreender estes fenómenos tão arreigados
no coração do nosso povo e, muito deve desvalorizá-los apelidando-os de "pagãos", como algumas mentes pretensamente iluminadas insistem em fazer. Para mim esta é uma oportunidade para darmos a conhecer autenticamente a vida e ação destes homens extraordinários que, nestes três casos, vivendo em períodos distintos, nomeadamente Santo António em relação aos outros dois, estiveram unidos na mesma fé e amor a Cristo, que deu sentido às suas vidas e os tornou, como diria S. Paulo, "modelos do Modelo".
Já tive experiências que considero bastante interessantes aquando das pregações que fiz em algumas localidades, em dia de Festa em honra do/a Padroeiro/a, ao perceber que existia um desconhecimento quase absoluto da riqueza das suas vidas e, como este fato, ao constituir para mim uma oportunidade de anúncio, me permitiu perceber o acolhimento, a alegria, e até o entusiasmo que a súbita descoberta gerou entre os ouvintes. Repetidas vezes isto tem sucedido comigo, e tem convencido do muito que há a fazer no campo da Piedade Popular e Festas em honra dos Santos Populares. É missão da Igreja e de nós sacerdotes ajudarmos a encontrar sentido profundo, humano, cristão está na sua raiz, e foi ganhando outras expressões, através dos séculos, tantas vezes, por falta de um adequado acompanhamento evangelização da Igreja.
Fica esta reflexão em jeito de partilha e também de compromisso da minha parte, de estar ainda mais atento a estes fenómenos, que nos merecem todo o respeito, e admiração, e nos convidam a irmos mais além, ao sentido profundo destas Festas.
Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
in Ecos de Grândola, nº 279, 10 de Julho de 2015
Subscrever:
Mensagens (Atom)




