sábado, 9 de abril de 2016

A Páscoa e as outras Páscoas


A Páscoa tem para o Povo Judeu vários sentidos, mas um dos importantes é a passagem, a libertação, do cativeiro do Egipto, e a consequente entrada na Terra Prometida. É, pois, uma grande Festa, indissociavelmente ligada à vida, história e identidade dos nossos ir­ mãos mais velhos na fé.

Para nós cristãos, Páscoa também é passagem e libertação, porquanto celebramos a passagem de Cristo da morte à vida, a Sua ressurreição, sinal de que igualmente nós seremos vencedores em Cristo. É o coração da fé cristã, pois a Igreja nasceu da Páscoa.

A dimensão da passagem e da libertação traz-me à memória os sinais positivos que vão fazendo a sua aparição, e acendendo a luz da esperança, tão necessária nos tempos que correm. Nesta linha, considero como dados extremamente positivos o encontro do Papa Francisco com o Patriarca Kiril, e a visita do Presidente Obama a Cuba. Estes sinais são imensamente importantes e deveriam consolidar-nos na certeza de que é possível ultrapassar velhas divisões e oposições, mesmo quando estão em causa décadas de desencontros, ou mesmo séculos.

Como é óbvio, existem muitas outras situações, em diferentes níveis, que necessitariam de ser superadas. Algumas ultrapassam-nos, outras, contudo, estão ao nosso alcance. Refiro apenas algumas, poucas e simples, que me ocorrem de momento:
  • desentendimentos e desencontros familiares por causa de bens materiais;
  • falta de diálogo, de tempo, e de humildade no seio da família ou na relação interpessoal;
  • procura desenfreada de lucro, sem ter em conta o factor humano, nomeadamente o respeito pela dignidade e direitos das pessoas, dos Povos, e dos Estados;
  • discriminação e marginalização de seres humanos, por obra de outros seres humanos, como se houvesse cidadãos de primeira e de segunda;
  • aumento do fosso entre ricos e pobres, no seio do mesmo país, ou entre países diferentes;
  • banalização da vida humana mais fragilizada, acompanhada de uma gritante insensibilidade perante "o outro" que sofre;
  • manipulação de conteúdos e falta de deontologia na apresentação da realidade, frequentemente lida e noticiada com base em "agendas" e não no rigor e objectividade;
  • pouca preocupação na procura da verdade e insistência no sensacionalismo e no subjectivismo.
Termino aqui o enunciado de algumas das muitas realidades que necessitariam, na minha opinião, de ser conquistadas, transformadas e superadas.

Já o tenho referido noutras ocasiões que acredito na mudança, por isso, continuarei a trabalhar e a rezar por todas aquelas situações que, mais longe ou mais perto, urgem dar lugar a novas e mais promissoras realidades. Creio, porém, que a mudança mais importante é a do coração humano. Podemos mudar de imagem, de carro, de casa, de computador, de telemóvel, etc; mas, se não mudarmos nós, tudo pode ser vão e ilusório.

Acredito na força motriz da Páscoa e naquilo que Deus pode fazer no coração humano, mesmo nos mais empedernidos…

Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
in Ecos de Grândola, nº 288, 09 de Março de 2016



sexta-feira, 8 de abril de 2016

O milagre da vida humana


vida humana é simultaneamente mistério e maravilha, e uma fonte inesgotável para sobre ela escrevermos.

Hoje vivemos um tempo de paradoxos: nunca como até hoje tivemos tanta capacidade de vencer doenças no início e no terminus da vida, descendo a taxa de mortalidade infantil e aumentando a esperança média de vida. Contudo, olhamos para as taxas de natalidade de países como o nosso e só podemos concluir que se enveredou por uma espécie de suicídio demográfico, de consequências ainda imprevisíveis, sendo tímidos os sinais de mudança, por parte de quem é mais responsável. Pelo contrário, promovem-se políticas de controlo da natalidade, facilita-se o aborto, pretendendo fazer esquecer que se trata de vida humana, e, agora, saltou para a ribalta a questão da eutanásia.

Do que tenho lido, ressalta à primeira vista a confusão (deliberada ou inocente) na terminologia. Mete-se tudo no mesmo saco, esquecendo que, para além da eutanásia (abreviação da vida; morte doce, suave), existe a distanásia (que é o oposto da eutanásia, e se resume no prolongamento da vida já inviável, também chamada encarniçamento terapêutico) e ainda a ortotanásia (morrer com dignidade). Além do mais, é preciso não esquecer a definição de morte, sobre a qual existem diferentes escolas, com posições diversas e até antagónicas.

Há ainda realidades a ter em conta: a eutanásia pode ser por acção ou omissão, do próprio ou de terceiros, e não se resume apenas a actos, mas supõe também intenções. São obviamente muitas as questões que, por brevidade, não poderei aqui aprofundar. Não esqueçamos, contudo, uma grande vitória sobre a doença: os cuidados paliativos.

Não gostaria também de esquecer o papa Francisco e a sua defesa da vida, contra as tentativas de a tornar “descartável”. A vida, toda a vida, vale a pena. O utilitarismo, o materialismo e o egoísmo são a grande ameaça que paira sobre os mais frágeis da nossa sociedade. Não estaremos perante uma forma velada de eugenismo?

Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
in Diário do Alentejo, nº 1772, 08 de Abril de 2016



sexta-feira, 11 de março de 2016

A Vida, toda a vida, vale a pena


Li esta frase não há muito tempo, e decidi-me escrever umas linhas sobre o valor da vida humana, de toda a vida humana, pois são muitas as ameaças a que ela hoje está sujeita

Pensemos apenas, a título de exemplo, no cortejo infindável de guerras, nas intermináveis doenças, nas carências de bens elementares, (alimentação, higiene, segurança, exercício de direitos essenciais), para concluirmos fundamentadamente que a vida do ser humano corre sérios riscos neste mundo globalizado.

Esta sensação é, porém, paradoxal, contraditória, na medida em que, por um lado, parece estarmos a vencer batalhas contra doenças endémicas e famigeradas, que dizimaram multidões em tempos não muito longínquos, mas, por outro, temos a sensação de que a morte vai marcando pontos, conquistando novos terrenos, com as ameaças à vida humana, como sejam a despenalização e/ou legalização do aborto, a instalação e disseminação de formas mais ou menos refinadas de eugenismo, a manipulação e destruição de embriões, a persistência intransigente da pena de morte, e uma campanha, quiçá, orquestrada de imposição da eutanásia, que é tudo menos morte doce ou suave.

Para não me dispersar, irei centrar a minha atenção estritamente sobre a eutanásia. Esta matéria, tenho perfeita consciência de que é muito sensível e delicada, não só porque a fronteira entre a vida e a morte é já de si tão frágil, mas também porque há muitas questões colaterais, que importa ponderar. De facto, a ausência ou existência de alguns elementos, a acção ou omissão dos intervenientes, a intenção de quem age, podem fazer toda a diferença e alterar o juízo moral.

Há ainda algumas questões prévias, como por exemplo: O que se entende por morte? Que critérios interferem na sua definição? O que é a vida vegetativa? É possível haver recuperação? Quando é que se pode desligar a máquina? O que se entende por coma? E possível recuperar depois de um estado de coma prolongado?

As respostas não são unânimes, mas o que é facto é que situações que há alguns anos eram inultrapassáveis, deixaram de o ser, pelos avanços da ciência. Além disso, há diferentes "Escolas", com posições diversas e mesmo dispares, quando se procura definir a morte. Não é, por isso, uma questão de fácil resolução.

A dificuldade ainda aumenta quando se percebe a confusão que existe quanto à terminologia neste campo, pois a fronteira é ténue, mas faz toda a diferença quanto à essência do que está em causa. Na verdade, muitos casos que se apresentam como eutanásia (abreviação da vida), são, no fundo, distanásia (prolongamento artificial da vida). Morrer com dignidade chama-se ortotanásia, que não se identifica nem com eutanásia, nem com distanásia.

A questão da eutanásia creio fazer parte de uma "agenda" que tem na base uma visão utilitarista e materialista, que tende a "coisificar", e "descartar" a vida humana, colocando-a não como um valor em si, um fim, um absoluto que importa defender, mas conjugando-a com um sem número de condicionantes, que necessariamente a precarizam e menorizam. É fácil nesta perspectiva colocar as coisas, o dinheiro, os bens materiais, ou meros interesses acima do ser humano. Corre-se o risco, se se continuar por este caminho, de qualquer razão, por mais transitória, instantânea e inconsequente que seja, servir para justificar a eutanásia, que já se estendeu em alguns países europeus, às crianças!

Creio que há ainda um outro âmbito a ter em conta, quando se reflecte sobre questões tão sensíveis, refiro-me ao mundo dos afectos, do carinho (carinhoterapia dizia o Papa Francisco há dias), do amor para com os mais fracos, quer se trate da vida nascente, quer da vida no seu ocaso. Qualidade de vida também é isto.

O que dirão as gerações vindouras sobre nós, quando se interpelarem sobre as potencialidades que temos hoje de combater doenças e salvar vidas, mas aceitamos impavidamente que a morte vá vencendo avida no combate da história humana? Será que tudo aquilo que pode ser feito, deve ser feito?

Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
in Ecos de Grândola, nº 287, 11 de Março de 2016


domingo, 28 de fevereiro de 2016

24 horas para o Senhor


“Deus rico de misericórdia” é o tema da jornada de oração e confissão “24 Horas para o Senhor”, organizada pelo Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização e convocada pelo Papa Francisco em sua mensagem para a Quaresma 2016.

Em Grândola vamos celebrar o 24 horas para o Senhor de forma ininterrupta.

A celebração terá início com a Celebração da Eucaristia, na Igreja Matriz, às 18:00 horas do dia 04 de Março, prolongando-se em oração por grupos, com a exposição do Santíssimo, até às 04:00 horas do dia 05 de Março.


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Mais responsáveis uns pelos outros


Talvez nunca como hoje o ser humano tenha tido a capacidade de ler e interpretar o passado, aprendendo com ele se tal foi o caso, e prever e condicionar o futuro, in­ vertendo procedimentos e alterando sucessivamente as perspectivas. Isto quer dizer que somos muito mais responsáveis pelo presente e pelo futuro, em diferentes níveis e áreas, do que os nossos antepassados; e esta é mais uma das grandes vantagens da globalização e desta mais recente revolução industrial em curso.

Se olharmos para o nosso Mundo, o horizonte que se abre diante de nós é fascinante, mas igualmente comprometedor, se de facto não tivermos medo de mergulhar na realidade e de querer intervir e transformar positivamente o status quo reinante, onde encontramos situações perfeitamente contraditórias e absurdas, de país para país e mesmo dentro do próprio país. Deambulamos entre as viagens espaciais, a descoberta de novos planetas e sistemas solares, e o flagelo da exploração, da discriminação, da guerra, do analfabetismo, das doenças endémicas, que há décadas já deveriam ter sido debeladas. Sob o mesmo tecto convivem ainda, infelizmente, o excesso alimentar e o desperdício, e a escassez daquilo que de mais básico é considerado em termos alimentares. No entanto, conhecedores de tudo isto, poderíamos e deveríamos fazer mais, muito mais, pois há alimentos suficientes para satisfazer todas as necessidades, e meios de os fazer chegar onde é necessário com rapidez. Não basta, porém, saber; é preciso querer e comprometer-se, pois as boas intenções e as boas palavras não são suficientes para resolver, de facto, os problemas reais das pessoas concretas.

Porque a história é um devir contínuo e nós não surgimos por geração espontânea, todos somos de certo modo herdeiros daquilo que nos foi legado pelas gerações que nos precederam, do bem e do mal, do que contribuiu para evolução da espécie humana e, em certos casos, da involução ou retrocesso da mesma. Não devemos, contudo, correr o risco de julgar com os nossos critérios actuais, o que teve o seu contexto espácio-temporal próprio, e que naturalmente, condicionou e orientou pessoas e acontecimentos num determinado sentido. Também nós estamos sujeitos ao juízo das gerações que nos sucederão e que poderão olhar para nós criticamente e concluir que, apesar de todos os meios de que dispomos, pouco fizemos para esbater e anular as desigualdades e injustiças gritantes que continuam a abater-se sobre tantos dos nossos contemporâneos.

É claro que talvez não esteja nas nossas mãos, individualmente falando a resolução dos grandes flagelos que afectam a humanidade, mas isso não é argumento que possa justificar a nossa indiferença, desinteresse, ou recusa de fazer algo de concreto em favor do nosso próximo. A história ensina-nos, entre outras coisas, que as pessoas fazem toda a diferença e quando nós queremos e nos envolvemos, algo à nossa volta pode ir mudando e isso pode ser o início de uma cadeia de transformações que tudo pode alterar, para melhor, pois, para pior não vale a pena; já basta o que temos.

Uma vez que estamos ainda no início de um novo ano, que tal olharmos para dentro de nós e à nossa volta, e tentarmos perceber aquilo que está ao nosso alcance e que pode contribuir para a mudança positiva deste nosso Mundo e do mundo que nos rodeia?

Não vamos esperar que sejam os outros, como às ve­zes dizemos, a tomar a ini­ciativa, vamos começar nós, hoje mesmo, agora!


Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
in Ecos de Grândola, nº 286, 12 de Fevereiro de 2016



Conhecimento versus responsabilidade



ão sei se todos estarão de acordo comigo, mas, por formação e convicção, creio firmemente que a nossa responsabilidade aumenta na medida em que crescemos, ganhamos autonomia, adquirimos conhecimentos e capacidades. Ficamos assim dotados de “instrumentos”, que nos permitem não deixar nas mãos dos outros, aquilo que depende cada vez mais de nós, a nível pessoal, profissional, familiar, e global.

Como cidadãos de corpo inteiro, passa a depender também de cada um de nós, se não fizermos como “Pilatos”, a transformação daquilo que está ou nos parece estar menos bem, ou mesmo mal. É evidente que o conhecimento por si só não basta, se não houver consequências e, sobretudo, vontade de fazer algo, de nos comprometermos, e realizarmos coisas concretas. Esta postura incómoda, convida à desinstalação, a não ficar sentado no sofá, de pantufas calçadas e a jogar com o computador, pois há tanto para fazer à nossa volta e nos quatro cantos do Mundo. É claro que custa crescer, abandonar o estatuto de espectadores e consumidores acríticos, e vestir a pele de agentes e de personagens principais da história do Mundo, que continua no seu devir em demanda de mais sentido, justiça e humanidade.

Os meios de que hoje dispomos permitem-nos ler o passado, interpretar o presente, prever e condicionar o futuro, como em nenhuma outra época da história da Humanidade, o que constitui uma novidade, mas nos deixa com o ónus de não permanecermos de mãos vazias, alheios, indiferentes, insensíveis aos grandes problemas que afectam o nosso planeta azul.

A noção realista do que está ao nosso alcance é fundamental para não oscilarmos entre as grandes ideias e projectos, e o nada. É claro que nem tudo depende de nós, como é óbvio, mas há tanto para fazer, se quisermos e nos comprometermos.


Que o novo ano, que ainda há pouco viu a luz, desperte em nós o desejo de rompermos a cadeia fatalista do “sempre foi assim”, ou “os outros que façam”.

Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
in Diário do Alentejo, nº 1764, 12 de Fevereiro de 2016