
Li esta frase não há muito tempo, e decidi-me escrever umas linhas sobre o valor da vida humana, de toda a vida humana, pois são muitas as ameaças a que ela hoje está sujeita
Pensemos apenas, a título de exemplo, no cortejo infindável de guerras, nas intermináveis doenças, nas carências de bens elementares, (alimentação, higiene, segurança, exercício de direitos essenciais), para concluirmos fundamentadamente que a vida do ser humano corre sérios riscos neste mundo globalizado.
Esta sensação é, porém, paradoxal, contraditória, na medida em que, por um lado, parece estarmos a vencer batalhas contra doenças endémicas e famigeradas, que dizimaram multidões em tempos não muito longínquos, mas, por outro, temos a sensação de que a morte vai marcando pontos, conquistando novos terrenos, com as ameaças à vida humana, como sejam a despenalização e/ou legalização do aborto, a instalação e disseminação de formas mais ou menos refinadas de eugenismo, a manipulação e destruição de embriões, a persistência intransigente da pena de morte, e uma campanha, quiçá, orquestrada de imposição da eutanásia, que é tudo menos morte doce ou suave.
Para não me dispersar, irei centrar a minha atenção estritamente sobre a eutanásia. Esta matéria, tenho perfeita consciência de que é muito sensível e delicada, não só porque a fronteira entre a vida e a morte é já de si tão frágil, mas também porque há muitas questões colaterais, que importa ponderar. De facto, a ausência ou existência de alguns elementos, a acção ou omissão dos intervenientes, a intenção de quem age, podem fazer toda a diferença e alterar o juízo moral.
Há ainda algumas questões prévias, como por exemplo: O que se entende por morte? Que critérios interferem na sua definição? O que é a vida vegetativa? É possível haver recuperação? Quando é que se pode desligar a máquina? O que se entende por coma? E possível recuperar depois de um estado de coma prolongado?
As respostas não são unânimes, mas o que é facto é que situações que há alguns anos eram inultrapassáveis, deixaram de o ser, pelos avanços da ciência. Além disso, há diferentes "Escolas", com posições diversas e mesmo dispares, quando se procura definir a morte. Não é, por isso, uma questão de fácil resolução.
A dificuldade ainda aumenta quando se percebe a confusão que existe quanto à terminologia neste campo, pois a fronteira é ténue, mas faz toda a diferença quanto à essência do que está em causa. Na verdade, muitos casos que se apresentam como eutanásia (abreviação da vida), são, no fundo, distanásia (prolongamento artificial da vida). Morrer com dignidade chama-se ortotanásia, que não se identifica nem com eutanásia, nem com distanásia.
A questão da eutanásia creio fazer parte de uma "agenda" que tem na base uma visão utilitarista e materialista, que tende a "coisificar", e "descartar" a vida humana, colocando-a não como um valor em si, um fim, um absoluto que importa defender, mas conjugando-a com um sem número de condicionantes, que necessariamente a precarizam e menorizam. É fácil nesta perspectiva colocar as coisas, o dinheiro, os bens materiais, ou meros interesses acima do ser humano. Corre-se o risco, se se continuar por este caminho, de qualquer razão, por mais transitória, instantânea e inconsequente que seja, servir para justificar a eutanásia, que já se estendeu em alguns países europeus, às crianças!
Creio que há ainda um outro âmbito a ter em conta, quando se reflecte sobre questões tão sensíveis, refiro-me ao mundo dos afectos, do carinho (carinhoterapia dizia o Papa Francisco há dias), do amor para com os mais fracos, quer se trate da vida nascente, quer da vida no seu ocaso. Qualidade de vida também é isto.
O que dirão as gerações vindouras sobre nós, quando se interpelarem sobre as potencialidades que temos hoje de combater doenças e salvar vidas, mas aceitamos impavidamente que a morte vá vencendo avida no combate da história humana? Será que tudo aquilo que pode ser feito, deve ser feito?
Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário