segunda-feira, 13 de novembro de 2017
segunda-feira, 23 de outubro de 2017
sexta-feira, 20 de outubro de 2017
A vida retoma o seu ritmo normal
Durante os meses de Verão há rotinas, ritmos e dimensões da vida que ficam, como que em suspenso, para, em Setembro, retomarem o seu ritmo normal.
Como já tive ocasião de o afirmar, em várias ocasiões, nestes artigos, sou um optimista e, por isso, procuro encarar cada novo Ano Escolar, Académico, Pastoral, com confiança e esperança, sem, como é óbvio, perder a noção da realidade.
Que me perdoem os menos jovens, mas gosto de olhar sempre com muita fé e esperança, para a juventude e para a educação, um binómio fundamental no futuro de qualquer sociedade e da nossa, naturalmente. A educação é, aliás, um sector tão estruturante da vida de um povo, que deveria ser objecto de consensos transversais e de medidas conjunturais e, de modo nenhum, ficar refém, objecto de diplomas legislativos avulsos e de mero carácter partidário e ideológico.
Para mim também é evidente que o Estado e/ou os Governos não devem cair na tentação de querer substituir as famílias e os encarregados de educação, como se os filhos fossem um objecto de luta e um troféu a obter, por todos os meios. Essa é a atitude das ditaduras, e a história está cheia de exemplos, que deram, no geral, mau resultado. Nada substitui a família, célula base da Sociedade, e a primeira função educativa é sua. A família deve, pois, mobilizar-se, organizar-se e fazer valer as suas opiniões e os seus direitos. Recordo, com alguma tristeza, o período em que fui encarregado de educação de alunos numa grande Escola, e nas reuniões dos pais e encarregados de educação, participava apenas um reduzido grupo, de reconhecido empenho e dedicação, mas, infelizmente, tão poucos...
A Sociedade e qualquer Democracia, para não cair nas mãos das oligarquias partidárias, sejam elas quais forem, deve estruturar-se de modo a garantir o surgimento de corpos intermédios, sindicatos, associações, colectividades, grupos, e outras formas de organização, para encher de vitalidade todos os sectores da sociedade. A qualidade das nossas democracias pode medir-se pelo número, vitalidade e compromisso na realidade, de grupos que lhe dão força, que também questionam, criticam e dinamizam.
É importante não esquecer, que a Democracia não se esgota nas eleições e no simples, mas essencial. acto de votar, que infelizmente tantos desperdiçam, quando outros, por esse Mundo fora, com o risco da própria vida, se empenham em conquistar, como um bem precioso e maior. Além de votar, participar e participar activamente é um direito, um dever e uma exigência.
Isto aplica-se também, logicamente, à Igreja. Igreja quer dizer Assembleia de pessoas e, uma das imagens mais felizes para a definir, é a que S. Paulo inclui no Capítulo 12 da 1ª Carta aos Coríntios: a Igreja é um corpo, com muitos membros e todos os membros são importantes, mesmo os aparentemente mais insignificantes. Sabemos pela nossa própria experiência que, quando algum membro do nosso corpo não está bem, é todo o corpo que se ressente. Que este novo Ano, para nós cristãos Ano Pastoral, seja vivido sob o signo desta imagem, que o Sínodo Diocesano tentou fortalecer e ajudar a assumir.
Que o nosso país seja também um corpo harmonioso e equilibrado, onde todos os membros cumpram a sua missão e contribuam para o bem comum, o único em que vale a pena confiar, apostar e por ele e para ele trabalhar. Na nossa Sociedade todos fazem falta, pessoas e instituições. Que os nossos jovens se sintam, por isso, cada vez mais membros activos deste corpo e não se deixem manipular por agendas, ideologias e demagogias, que não têm como objectivo o seu bem, mas os usam tantas vezes como um meio para atingir os seus objectivos.
in Ecos de Grândola, nº 306, 13 de Outubro de 2017
terça-feira, 3 de outubro de 2017
O divórcio entre a fé e a vida
Na minha juventude li uma biografia do papa João XXIII, o “bom papa”, e nunca mais deixei de o admirar. A ele se deve, entre muitas e extraordinárias iniciativas, a convocação do Concílio Ecuménico Vaticano II, que decorreu em Roma, entre 1962 e 1965, e foi, e continua a ser, o mais importante acontecimento eclesial da contemporaneidade.
Como é óbvio, não vou fazer o elogio da vida e obra deste Homem, que a Igreja declarou santo, e é um dos grandes papas dos tempos modernos, antes vou fixar-me, apenas, numa frase por ele proferida, e que suscita em mim profundas interpelações. Dizia João XXIII, falando para dentro da Igreja, que o maior escândalo dos nossos dias era “o divórcio entre a fé e a vida dos cristãos”.
O alcance destas palavras é enorme e, se cada cristão, e cristão quer dizer “um outro Cristo”, fizer um sério exame de consciência sobre as consequências da fé na sua vida, creio que teríamos todos de entrar numa dinâmica de conversão e de mudança. Ser cristão em todas as dimensões da vida e não apenas nos espaços religiosos é o grande desafio que nos é colocado, e é a melhor forma de manifestarmos que somos, na verdade, discípulos de Jesus “o Deus feito homem”.
João XXIII encarnou e ajudou precisamente a recuperar a dimensão holística da fé cristã e a humanidade que está no coração do Evangelho, filão que os papas sucessivos têm procurado aprofundar, e que é por demais evidente no papa Francisco. A mensagem de Jesus é clara: “Não podemos amar a Deus que não vemos, se não amarmos o próximo que vemos.”
Uma das maravilhas da fé cristã, para mim, consiste em acolher o convite que Jesus me faz, de me encontrar com a verdade da minha condição humana, com as minhas fragilidades e pobrezas e, por outro lado, que deixe entrar e experimente na minha vida a força do amor de Deus, que é maior do que o mal e o pecado, e me pode tornar, como diria S. Paulo “uma criatura nova”, independentemente da minha idade.
Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
in Diário do Alentejo, 02 de Outubro de 2017
segunda-feira, 25 de setembro de 2017
Cuidar da nossa casa comum
Todos os dias nos chegam notícias, umas mais verosímeis do que outras, que nos alertam para os perigos em que incorre o nosso Planeta Terra, e para a necessidade de alterarmos comportamentos, em nome dum futuro comum, que a imprudência, insensibilidade, e/ou maldade, ameaçam hipotecar a curto ou médio prazo.
Para nós portugueses, infelizmente, um dos temas que se enquadra nesta moldura é o dos incêndios, cujas causas são diversas, mas onde decerto há lugar para a “mão humana”.
São, porém, muitas outras as situações do nosso dia a dia, que põem em causa o nosso viver nesta Casa Comum, e são reveladoras do que de menos bom existe no coração humano.
Creio, a este propósito, que uma das piores coisas que nos pode acontecer, é não nos questionarmos sobre o nosso modo de vida, como se fossemos seres perfeitos, impecáveis, sem nada para mudar e, assim, continuamos os mesmos, com as mesmas rotinas, dia após dia e ano após ano. A mudança é para os outros!
Aproveitemos, por isso, este tempo de férias, para parar e refletir sobre o nosso agir na relação com os outros e com o meio envolvente, pois, muitos dos nossos gestos, atitudes e posturas de vida, são nefastas para o equilíbrio do nosso Planeta Azul. A lista é extensa e, talvez, surpreendente.
Na mudança, que creio ser uma necessidade e está ao alcance de todos, o mais importante é que ela não seja meramente cosmética, superficial e imediatista, mas antes penetre até ao nosso interior, para que aí aconteça uma verdadeira mutação.
Como cristão, sinto diariamente este mesmo apelo que também me vem de Jesus e, deixai-me dizê-lo, do Papa Francisco, verdadeiro sinal de Deus, não só para nós católicos, mas para tantas pessoas, mesmo sem fé, que se revêm na sua simplicidade, transparência e nos seus gestos ousados e proféticos.
Para que não esteja em causa o futuro desta nossa maravilhosa Casa Comum, ousemos acolher o convite à mudança. O nosso Planeta e as futuras gerações agradecem e merecem!
Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
Ilustração Susa Monteiro
in Diário do Alentejo, nº 1846, 08 de Setembro de 2017
Fundamentalismos e radicalismos
Nestes dias, pelos piores motivos, a nossa atenção tem vindo a ser captada por consequências dramáticas de atos de radicalismo e fundamentalismo. Contudo, precisamos de estar atentos, porque também podem existir outras manifestações, embora não tão violentas, mas nocivas e corrosivas da relação e comunhão entre pessoas e comunidades.
Os fundamentalismos são, por sua natureza, irracionais e muitas vezes populistas e demagógicos nos seus argumentos e, frequentemente, quando se esgotam os argumentos, passam à crítica sem fundamento, a chavões, mais ou menos elaborados, ao “quem não pensa como nós está errado”!
Talvez pela minha formação humana e cristã sempre acreditei que só a verdade liberta e que, tantas vezes, nós apenas somos conhecedores de uma parte da verdade, devendo, por isso, respeitar a opinião dos outros, reconhecer os nossos erros e mudar. Persistir em querer ter sempre razão e procurar argumentos, tantas vezes falaciosos, para justificar o injustificável, é como aquele doente que está doente mas não quer aceitar a doença, desdobrando-se em justificações, para projetar nos outros a culpa que ele teima em não reconhecer em si. Um “doente” assim estará cada vez mais doente, privado de sentido crítico, sem capacidade de se aceitar, para poder mudar.
Ter, pois, a capacidade de dialogar, de respeitar o outro, de aceitar a sua opinião e de reconhecer que, tantas vezes, estamos errados, é um caminho certo e eficaz para evitar fundamentalismos, venham eles donde vierem.
Quando era jovem, lembro-me de uma frase que ouvi a um amigo, e que nunca mais esqueci, e me tem sido de grande utilidade ao longo das minhas cinco décadas de vida: “Amigo não é aquele que nos dá palmadinhas nas costas e nos diz que temos sempre razão; amigo é aquele que, tantas vezes, nos faz chorar, porque nos diz a verdade”. E a verdade é muitas vezes dura e faz sofrer, mas pode ser medicinal para a nossa vida. Precisam-se de amigos destes!
Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
in Diário do Alentejo, 14 de Agosto de 2017
Do fatalismo à criatividade, do pessimismo à positividade
Decerto todos conhecemos este adágio popular: “Depois da casa arrombada, trancas na porta”. Nestes dias ele voltou a ser realidade, e infelizmente da pior forma, pois se é verdade que os incêndios continuam a ser entre nós uma praga, desta vez as consequências foram devastadoras para pessoas, bens, e, quiçá, para o futuro desta região e de todo o interior.
Uma situação extrema revela o que temos de melhor, como povo e nação, mas deixa-nos também interrogações. O que falhou? Por que falhou? De quem são as responsabilidades?
Não me compete, nem quero, fazer juízos ou tirar conclusões, enquanto se aguardam os resultados das investigações, que trarão à luz a verdade sobre o que realmente aconteceu e tanto sofrimento gerou entre as gentes do pinhal interior.
Esta situação dá-me, contudo, a oportunidade de introduzir uma questão que deveras me preocupa: o abandono, a desertificação do interior de Portugal. Sem pessoas tudo tende a ser desvalorizado, abandonado e mesmo a desaparecer.
Penso que, tendo como horizonte alguns exemplos felizes, deveríamos ter a coragem de mudar procedimentos e voltar a apostar nas virtualidades, nas potencialidades do interior. Esta não é, nem pode ser, apenas uma questão do Estado, mas deve também comprometer toda a comunidade e em particular as novas gerações, que, na minha opinião, são hoje possuidoras de acrescidas competências, e, por isso mesmo, capazes de se tornarem pioneiras de um processo de regresso ao interior, de aposta em projetos inovadores, capazes que atrair pessoas e investimentos, que podem ajudar a estancar a sangria da fuga para o litoral.
Acredito nas capacidades dos nossos jovens e muitas vezes, ao longo dos anos, desafiei alguns a arriscarem, a não se limitarem à atitude cómoda, pessimista e fatalista de quem espera que “os outros façam”, mas a assumirem com ousadia o protagonismo, em vez de papéis secundários, ou de meros observadores.
Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
in Diário do Alentejo, 24 de Julho de 2017
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