terça-feira, 7 de agosto de 2018

A humildade é a verdade



anta Teresa de Ávila (mística espanhola do Século XVI e doutora da Igreja) afirmou que "a humildade é a verdade".

Penso muitas vezes no sentido desta afirmação que para quem é cristão faz todo o sentido, pois a fé ajuda-nos a ser realistas, a tomar consciência dos nossos pecados, ignorâncias e limitações, e essa é a verdade da condição humana. A consciência do que somos pode ser o ponto de partida para a mudança não apenas do agir, mas, sobretudo, do ser.

Creio que esta é uma das lições de vida que podemos tirar do Evangelho. Em Cristo encontramos o que Santa Teresa descobriu, e de como a soberba e o orgulho são uma ilusão, nos afastam da verdade, criando uma sensação de segurança e de saber, que não são reais e que, com o tempo, acabarão por desmoronar.

É claro que haverá sempre quem nos apoie e conforte, mesmo quando estamos errados, mas quem assim age não nos ajuda, uma vez que, entre a realidade e a "nossa realidade", pode não haver coincidência.

Sobre esta mesma temática, afirmou há uns anos o Papa Bento XVI que hoje se corria o risco de confundir "o bem e o mal, com o sentir-me bem ou mal".

Chamamos a isto subjectivismo, que é diferente de subjectividade (um valor dos nossos tempos), e nos projecta no pântano do egocentrismo, da insensibilidade e da auto-suficiência.

Ter a pretensão de que somos omniscientes e que podemos falar sobre tudo, com autoridade, é ilusão e falácia. Talvez nos possa também ajudar a célebre frase do Filósofo Sócrates: "eu só sei que nada sei". De facto, quanto mais estudamos. mais vamos tomando consciência do que não sabemos, e de que só podemos, por isso. ser humildes.

É seguindo o caminho da humildade que seremos capazes de refazer percursos e relações, em quaisquer âmbitos da nossa vida, de nos redescobrirmos, renovarmos e rumarmos em direcção à utopia. “Errar é humano”, já diziam os romanos, por isso, a humildade é também um sinal de realismo, de inteligência e de verdade.


Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
in Diário do Alentejo, 03 de Agosto de 2018



quinta-feira, 19 de julho de 2018

Falta de Humanidade e Solidariedade


O drama dos refugiados, enjaulados em frágeis e superlotadas embarcações e explorados por máfias impiedosas, continua a bater às nossas portas e a mexer nas nossas consciências. Infelizmente, somos despertos quando alguma tragédia, mas apenas se esta for notícia nos mass media. Salvo tais excepções, um silêncio cúmplice anestesia os nossos sentidos, perante um dos maiores problemas da actualidade.

É claro que importa perceber as causas subjacentes a estas grandes movimentações humanas, acossadas e sem esperança nos seus locais de origem, e que consideram que vale a pena arriscar tudo, mesmo que uma consequência provável seja ir jazer anonimamente no fundo do Mar Mediterrâneo. A outra questão exige também resposta: como é possível que seres humanos (desumanos) tratem outros seres humanos como "carne para canhão", fonte de lucro, meros objectos e não pessoas?

A Europa, por outro lado, continua a não dar uma resposta uníssona e coordenada e, os interesses, os jogos nacionais e as estratégias políticas, sobrepõem-se à vida e dignidade humanas e o resultado é, não apenas o que vemos, mas, sobretudo, o que não vemos e que termina geralmente em tragédia silenciosa e silenciada. Impressiona também algum oportunismo, de quem, por diferentes formas e meios, procura colher dividendos. Quantos mais irmãos nossos deverão ainda morrer?

Como europeu esta é uma situação que me choca, até porque a Europa tem sido ao longo dos séculos a "Casa" dos valores humanos, da defesa do ser humano e da sua dignidade. Se vivemos todos nesta Casa Comum e formamos uma única Família Humana, não deixemos que os egoísmos e os individualismos ganhem raízes nos nossos corações, em especial, nos mais jovens. Este Continente necessita de uma forte transfusão de humanidade, para que não desfaleçam os seus ideais, para que continuemos a escrever a sinfonia que séculos estamos a compor, e para que os outros povos possam continuar a olhar para nós, como uma referência que vale a pena seguir.

Foi também na Europa que o Cristianismo ganhou raízes, e daqui foi levado aos quatro cantos da Terra, um projecto para o qual nós portugueses dêmos um assinalável contributo. É preciso, por isso, ter memória, não esquecer a nossa identidade, pois, esquecê-la é hipotecar o nosso futuro, e um futuro melhor é possível e desejável; e agir!

in Ecos de Grândola, nº 315, 13 de Julho de 2018



sexta-feira, 6 de julho de 2018

Ecologia integral


papa Francisco na Carta Encíclica Laudato Si, fiel à herança de S. Francisco de Assis e à visão cristã do mundo, desafia-nos a cultivar um olhar respeitoso e global sobre o universo e este planeta azul em que habitamos, pois, assim seremos obreiros de uma verdadeira ecologia. Esta deve ter no centro o Homem, o que não significa que este exerça sobre a criação um domínio despótico, sem regras, nem limites.

A verdadeira ecologia obriga-nos a não nos centrarmos no que se passa apenas "no nosso quintal”, a não desbaratarmos recursos e energias em questões de manifesto cariz egoísta e hedonista, e a despertarmos para os grandes dramas humanos da actualidade.

Que respostas dar aos refugiados que batem à nossa porta, movidos pela utopia de um futuro melhor, demanda tantas vezes silenciada nas águas do mar Mediterrâneo, mare nostrum?

E que pensar dos conflitos fraticidas que ensanguentam tantos países e que têm na base não apenas questões internas, mas são fomentados por interesses económicos externos, pela busca do controlo das matérias-primas e pelo monopólio da venda de armas?

E que dizer de tantos seres humanos que deambulam pelas nossas ruas e praças, transformados em autênticos farrapos humanos, pelas histórias que penosamente arrastam e que merecem menos atenção dos passantes do que os animais que os acompanham?

Para que a ecologia não descambe em ideologia é preciso não esquecer que, entre nós, seres humanos, e os demais seres criados, há diferença substancial e qualitativa. Urge, pois, diante de tanta indiferença, injustiça e desigualdade, provocar; uma autêntica reviravolta cultural, que coloque o Homem no centro da criação, naturalmente, com o devido respeito da natureza e dos demais seres vivos, pois, só quem ama e defende o ser humano poderá, na verdade, respeitar a natureza e as outras criaturas.

A verdadeira ecologia, insiste o papa Francisco, deve ser integral, e integral significa humana e humanizadora.



Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
in Diário do Alentejo, 06 de Julho de 2018




quarta-feira, 20 de junho de 2018

Tempo de contradições e paradoxos




ivemos num tempo de contradições e paradoxos que me deixam muitas vezes perplexo e preocupado com o amanhã. Não fora eu um homem de fé e diria que estamos à beira do crepúsculo da nossa civilização.

Deixo apenas alguns exemplos.

É um dado inquestionável que vivemos um inverno demográfico e, no entanto, faltam medidas estruturantes e transversais para enfrentar o problema. O que aparece são propostas tíbias, pontuais, de caráter local, meritório, mas insuficiente.

Do ponto de vista científico, a vida humana começa na fecundação do óvulo pelo espermatozoide e, contudo, pretendem impor-nos, com o apoio de instituições internacionais, o aborto, como uma espécie de direito e método contracetivo.

Nunca como hoje se falou de educação sexual, de prevenção, e vejam-se os números da gravidez adolescente e jovem, não só em Portugal, mas na Europa e em alguns países ocidentais.

Fala-se de liberdade, de democracia, de direitos humanos, mas os estados pretendem substituir-se à família na educação dos filhos, doutrinando-os a seu bel-prazer, sem ter em conta os valores e os direitos das mesmas.

Propaga-se aos quatro ventos que as pessoas é que são importantes e devem ocupar o centro, seja em que nível for, e, no entanto, basta estar um pouco atento para perceber que são os números e as contas que marcam o ritmo e a prioridade nas opções.

Aumentou a esperança média de vida, ganhámos capacidade de controlar a dor e aliviar o sofrimento, e agora em alguns países (inclusive o nosso) pretendem impor-nos uma agenda que nos faz crer que a solução é a eutanásia, um nome que destoa daquilo que está em causa, pois trata-se de abreviar uma vida ainda viável.

Para onde vamos não sei, só sei que por aqui não quero ir, porque, com tanta contradição e paradoxo, o futuro é imprevisível, mesmo para as mentes "luminosas" que, a partir das suas agendas, comandam estas mutações. Precisamos que nos abram, por isso, novos horizontes.


Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
in Diário do Alentejo, 15 de Junho de 2018



sexta-feira, 15 de junho de 2018

Viver e Morrer com Dignidade



A Sociedade Portuguesa vive momentos de intenso debate sobre a Eutanásia, questão sobre a qual gostaria de deixar, a minha opinião, enquanto cidadão e sacerdote.

Sem querer questionar as boas intenções dos defensores da Eutanásia, talvez fosse esclarecedor saber-se o que se passa, de forma objectiva, nalguns países europeus, que deram este passo, e as situações se multiplicaram, chegando até a crianças e jovens!!! Depois de se abrir a porta, difícil é fecha-la e, não esqueçamos que a morte é irreversível. Permitir a Eutanásia é abrir uma "caixa de Pandora", de consequências imprevisíveis.

Creio, contudo, que há uma confusão que importa esclarecer, entre Eutanásia, Distanásia e Ortotanásia. Esta é justamente a morte com dignidade, embora pouco se fale dela, querendo passar a dignidade para o campo da Eutanásia, quando esta consiste em abreviar uma vida que ainda é viável. À Distanásia também se chama Encarniçamento Terapêutico ou Obstinação Terapêutica, e esta, tal como a Eutanásia, fere a dignidade das pessoas e o direito a morrer com dignidade. Quanto à questão da dor, temos hoje cada vez mais meios de a aliviar, mesmo sabendo que esse processo pode abreviar a vida. A Eutanásia não tem a ver apenas com um ato ou omissão do próprio ou de outrem, mas também com uma vontade explícita, por parte do próprio ou de outrem.

Parece-me um contrasenso nesta fase da história da Humanidade, em que se têm vencido tantas batalhas na luta contra as doenças, criado melhores condições de vida, e prolongado a esperança média de vida, se queira agora voltar atrás e legitimar medidas para abreviar a vida. Faltam sim Cuidados Paliativos, bem como outras respostas integradas, que ajudem a criar condições para que todos sejam sujeitos de direitos e possam morrer com dignidade.

É legítimo perguntar: porque se quer voltar atrás? É porque os idosos já não produzem, ficam caros, são um peso para a sociedade? E então, as pessoas não são mais importantes do que as coisas?

Enquanto sacerdote tenho presidido a muitos funerais, alguns de pessoas de avançada idade e que chegaram até aí porque, além dos cuidados médicos, essenciais, foram amadas até ao fim "pelas suas famílias e pelas instituições que as acolheram, e esta é, na minha opinião, uma questão essencial: para se viver com dignidade é preciso ser-se amado e acompanhado, para que ninguém se sinta um peso e deseje, por isso mesmo, partir e descansar finalmente.


in Ecos de Grândola, nº 314, 08 de Junho de 2018



domingo, 3 de junho de 2018

Peregrinação ao Santuário de Fátima



30 de Junho de 2018

Programa

06:00 horas - Concentração junto à Câmara Municipal
07:30 horas - Paragem
09:45 horas - Via Sacra em Fátima
11:00 horas - Eucaristia na Capela de Santo Estêvão
12:00 horas - Visita a Aljustrel (Casa dos Pastorinhos)
13:00 horas - Almoço partilhado no Santuário
14:00 horas - Participação no Rosário na Capelinha das Aparições
14:30 horas - Divisão em grupos e visitas organizadas. Tempo livre.
17:00 horas - Partida para Grândola
18:30 horas - Paragem
20:30 horas - Chegada a Grândola.




domingo, 20 de maio de 2018

Encontro do Clero da Diocese de Beja


Depois de anos de paragem, retomou-se uma bela tradição que se manteve durante anos: o encontro do Clero da Diocese de Beja, no dia 01 de Maio, Dia de S. José Operário, Padroeiro da Diocese. A escolha recaiu sobre a Aldeia Mineira do Lousal, no Concelho de Grândola, a convite do Pároco, Pe. Manuel António do Rosário.

A jornada iniciou-se, pelas 10h, com a celebração da Eucaristia, na magnífica e imponente Igreja de S. Jorge, presidida pelo Senhor João Marcos e concelebrada por cerca de 30 Sacerdotes e 3 Diáconos Permanentes, e com a participação dos nossos 9 seminaristas teólogos, e cristãos oriundos, predominantemente, do Lousal e de Grândola. Na assembleia incluía-se também a Madame Velge, matriarca da Família que durante anos se dedicou a esta comunidade mineira, tomando-a uma comunidade modelar no Concelho de Grândola. A esta Família e à SAPEC se deve também a doação desta Igreja à Comunidade Cristã, processo iniciado em 2011 e concluído o ano passado. Depois da Eucaristia, seguiu-se a visita ao Centro de Ciência Viva e ao Museu Mineiro, sob a orientação dos Professores Jorge Relvas e Álvaro Pinto, responsáveis deste grande projecto de sucesso inegável, que atrai ao Lousal mais de 20.000 visitantes todos os anos, e que em muito tem contribuído para o renascimento desta localidade.

O almoço foi servido no Centro Comunitário do Lousal/Casa do Povo de Azinheira dos Barros, oferta da Junta de Freguesia, que, na pessoa do seu Presidente, Ricardo Rufino, nos acompanhou e foi de uma dedicação assinalável, por todos reconhecida. Uma palavra também ao Dr. Luís Sobral e às funcionárias do Centro Comunitário.

O programa continuou depois com a visita/descida à Galeria Waldemar, mais um projecto de sucesso, que veio enriquecer e dar densidade à experiência de visitar este local emblemático e marcante, cujas raízes mergulham no tempo e nos fazem recuar a 130 milhões de anos atrás.

Porque a comunhão não deve ser palavra vã, mas verdade e praticidade, e o presbitério uma realidade em crescimento e consolidação, é preciso continuar e não perder a embalagem neste projecto e noutros que contribuam para reforçar a convicção de que é fundamental trabalharmos como Corpo de Cristo na evangelização e renovação da Igreja, que deve estar insculturada neste Alentejo, tão diverso, mas tão belo e desafiante.

Pela nossa parte, comunidade cristã do Lousal e de Grândola, ficámos satisfeitos e dispostos a acolher estas e outras iniciativas, que dão trabalho, mas também grande alegria e recompensa pela sensação de dever cumprido.

Manuel António G Rosário
in Notícias de Beja, nº 4426, de 10 de Maio de 2108