sexta-feira, 20 de novembro de 2020

Razões para a esperança


esperança deveria ser uma das traves-mestras da nossa vida, uma espécie de luz e suplemento que orienta e impulsiona, impedindo-nos de capitular diante das dificuldades. Para nós cristãos, ela é também virtude teologal (dom de Deus), em estreita ligação com a fé.

Se olharmos para a história, descobriremos nela o melhor e o pior do ser humano; mas não podemos deixar de acreditar nele e na sua capacidade de se arrepender, regenerar e recomeçar. Abundam os exemplos. Atrevo-me até a dizer que Deus acredita em nós, sua obra-prima, e seus filhos, em Cristo.

É verdade que nem sempre é fácil ser-se otimista e ter esperança, quando as notícias que nos envolvem não transmitem tudo o que de bom, belo e positivo sucede no mundo. Às vezes é preciso ser-se mesmo contracorrente, e procurar alternativas, descobrir a “crónica branca”, para que a esperança prevaleça sobre o joio do desespero e do pessimismo.

Nem sempre é fácil ser-se otimista e ter esperança, quando as notícias que nos envolvem não transmitem tudo o que de bom, belo e positivo sucede no mundo 

Com efeito, há notícias que não são notícia, e muitos heróis anónimos que não têm lugar nas capas das revistas, nem na abertura dos telejornais, mas cujo testemunho discreto, paulatinamente, tem aberto sulcos profundos de humanidade e amor. Nós cristãos, recordamos estes heróis no Dia de Todos os Santos, em cujo catálogo se encontrarão, decerto, familiares nossos.

Estes heróis, que são um sinal visível de que só se é feliz quando se dá e se serve o próximo, deveriam sair do anonimato e ser conhecidos, sobretudo, pelas novas gerações, para que descubram neles modelos de genuína humanidade e solidariedade, e releguem para detrás da ribalta, para um mero papel secundário, o ter, o poder e o parecer.

Além destes testemunhos, é preciso também lançar a boa semente que dá pelo nome de “valores”, os quais devem ser assumidos e transmitidos na educação, pois “não se pode amar o que não se conhece”. Eles são verdadeiro antídoto contra o egoísmo, o individualismo e a autocomplacência.

Por mim, acredito que há razões para a esperança!

Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
in Diário do Alentejo, 20 de Novembro de 2020


segunda-feira, 12 de outubro de 2020

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Proteger os mais fracos



 humanidade vive tempos paradoxais. Com efeito, nunca como hoje soubemos tanto sobre o Homem: a sua saúde, doenças e tratamentos; os perigos que o assolam; a prevenção do futuro e a inversão das previsões… Contudo, em contraponto, as ameaças à sua existência são também impressionantes: aborto e infanticídio; eutanásia e pena de morte; fome e pobreza endémica; discriminação, escravatura e genocídios; poluição, desflorestação em massa e mudanças climatéricas; proliferação do comércio de armas e guerras infindáveis; tráfico de seres humanos e de estupefacientes… A lista de atentados é descomunal.

De todos estes sinais preocupantes, emerge para mim uma prioridade, que dá título a este artigo: a proteção dos mais fracos.

Com efeito, uma sociedade verdadeiramente humana, solidária e democrática deve primar pela defesa da igualdade entre todos os seres humanos, da sua dignidade e direitos, promovendo, por isso, uma cultura que combata desigualdades, proteja os mais fracos, aqueles que por si sós não têm capacidade de se defenderem, para que prevaleçam, os princípios que estão na base do autêntico estado de direito e não “a lei do mais forte”. Parafraseando o Papa Paulo VI, é imperioso defender “o Homem todo e todo o Homem”, para que não aumente o fosso entre ricos e pobres; primeiro, terceiro e quarto mundos; novos e idosos; trabalhadores ativos e aposentados. O Homem não vale pelo que tem, mas, sobretudo, pelo que é, independentemente da raça, sexo, cultura, cor da pele ou religião.

Creio que este foi um dos principais valores que Cristo e o cristianismo legaram à humanidade: a afirmação da igualdade essencial entre todos os seres humanos e, entre estes, Cristo manifestou sempre uma predileção pelos mais pobres, frágeis e marginalizados. Desejo e espero que a Igreja, fiel a Cristo, continue nesta senda, e que a sua missão seja sempre pautada pelo serviço à humanidade, difundindo a misericórdia e globalizando a solidariedade, sem proselitismo.

Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
in Diário do Alentejo, 09 de Outubro de 2020