quarta-feira, 30 de julho de 2014

Férias: solidariedade e esperança


mbora não seja notícia de primeira página, a verdade é que ano após ano cresce o número, sobretudo de jovens, que prefere viver as férias numa dimensão de gratuidade e serviço ao próximo, dentro do nosso país ou noutro, preferencialmente de língua portuguesa. Não é a maioria, nem será uma multidão, mas para mim é um sinal convincente daquilo que o ser humano é capaz quando descobre a riqueza do dar e do dar-se.

Dir-me-ão que estes gestos são uma gota de água num oceano e talvez seja verdade, mas também não é menos verdade que, muitas gotas, multiplicadas, poderão dar origem a um pequeno riacho donde pode brotar vida nova. Quantas vezes, simples pessoas e pequenos gestos inverteram o curso da história?

Não posso, por isso, concordar com os pessimistas, que afirmam termos entrado numa espiral de egoísmo e individualismo incontroláveis, pelo que, não há razões para a esperança. Também não posso alinhar no diapasão daqueles que continuam a insistir no EU, no consumo, na diversão, no culto dos bens materiais, como a única realidade que nos preenche e para os quais vale a pena viver.
 
Como homem e como cristão costumo repetir para mim próprio, antes de mais, a afirmação de S. Francisco de Assis: “É dando que se recebe, é amando que se é amado, é perdoando que se é perdoado.” O egoísmo não traz verdadeira felicidade, nem os bens materiais, por mais importantes e necessários que sejam, bastam para preencher o coração humano e dar resposta às inquietações mais profundas que nele habitam e que anseiam por respostas.

Não duvido que será esse o resultado da experiência que centenas de jovens portugueses farão neste verão e que, decerto, os tornará pessoas diferentes, melhores, mais sensíveis ao próximo, mais conscientes da importância do serviço autêntico e genuinamente voluntário e desinteressado. Para os povos visitados, esta missão é um sinal de esperança, semente dum amanhã melhor, de um futuro mais risonho.

Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
in Diário do Alentejo, nº 1683, 25 de Julho de 2014



segunda-feira, 21 de julho de 2014

Obras na Casa do Ermitão da Capela do Viso

Desde 2012 que a Casa do Ermitão junto à Capela do Viso tem estado a sofrer obras de recuperação de forma tornar possível que se constitua como um centro nevrálgico de apoio às actividades religiosas desenvolvidas na capela, mas também num espaço activo para actividades comunitárias, religiosas e associativas.

No ano de 2014 foi dado mais um passo nessa recuperação com a forra interior dos tectos das várias salas.

Ficam algumas imagens do progresso das obras de recuperação:

video


Obras na Igreja Matriz de Azinheira dos Barros

Com o objectivo de preparar a Igreja para as Festas que este ano decorrerão particularmente no dia 17 de Agosto, iniciaram-se neste mês de Julho algumas intervenções que passamos a discriminar: substituição de tábuas no tecto da Igreja; pintura de todo o tecto; reboco e pintura dentro e fora da Igreja; revisão dos telhados.

A Câmara Municipal, na sua carpintaria, está a trabalhar no novo guarda-vento que deverá ser instalado até ao dia 17 de Agosto. Bem haja por mais esta excepcional colaboração do nosso Município. Seguir-se-á o guarda-vento da Igreja de S. Jorge, no Lousal.



sexta-feira, 11 de julho de 2014

Papas Nossos Contemporâneos


Depois de ter escrito sobre os Papas João XXIII e João Paulo II, a propósito da sua canonização sinto-­me na obrigação de dizer também algumas palavras sobre os outros Papas nossos contemporâneos, a saber: Paulo VI, João Paulo I e, claro, Francisco.

Tal como aconteceu com João XXlll, o meu conhecimento de Paulo VI é fruto das leituras e do estudo que fui fazendo ao longo dos anos, e a verdade é que, quanto mais o conheço, mais o admiro. Este grande homem nasceu numa família de convictas tradições democráticas e, por isso, sofreu (o seu pai em particular) as agruras da ditadura de Benito Mussolini (ltália). A sua estrutura democrática trouxe-lhe a incompreensão de algumas ditaduras dentro e fora da Europa, Espanha e Portugal incluídos. A ele devemos a condução da Igreja durante o Concílio Vaticano II (1963) até 1978, período marcado por autênticas mutações da Sociedade e da Igreja, em praticamente todos os sectores. Tentar aplicar o Concílio Vaticano II, projecto difícil e complexo, valeu-lhe muitas incompreensões, sofrimentos e críticas, quer por parte de sectores vanguardistas, quer pelos ultraconservadores. A sua actuação, porém, caracterizou-se sempre por um grande equilíbrio, por uma hábil diplomacia mista de diálogo e abertura, pela firmeza das decisões, pela amplitude da sua visão, pela clareza e profundidade do seu pensamento. Os documentos saídos da sua pena são disso clara expressão. Por tudo isto e muitíssimo mais, creio que este extraordinário homem deverá ser mais estudado, direi mesmo reabilitado, em nome da verdade em que viveu, defendeu e anunciou.

De João Paulo I, infelizmente, não tenho muito para dizer, pois o seu pontificado foram apenas 33 dias. É claro que um pontificado tão breve mereceu logo dos profissionais dos mistérios e intrigas palacianas, motivo para conjecturas, gerando assim a possibilidade de venderem mais umas obras e manter em suspenso a opinião pública. Albino Luciani, de seu nome, deixou um breve legado que não permanecerá, contudo, no anonimato, na medida em que ele emergirá e permanecerá justamente como o Papa do sorriso, da simplicidade e da bondade, que encheu a Igreja de alegria e de esperança, e fez despertar alguns adormecidos "homens e mulheres de boa vontade" (João XXIII).

De Francisco, em tão pouco tempo há já tanto a dizer; e que mais surpresas ele nos fará? Para mim e para muitos, ele é uma autêntica surpresa de Deus, pois não constava nas listas dos "Papabili", é um verdadeiro "furacão" que veio confirmar o Concílio Vaticano II como bússola para o caminho que a Igreja deve trilhar decididamente, e que insiste em que, ela (Igreja) para ser credível junto dos homens e mulheres deste tempo, não precisa de estar sempre à procura de "inimigos" para se justificar nas suas posições, mas, antes pelo contrário, necessita de se envolver no meio do Mundo, qual fermento e sal, sem ter medo de se aproximar das "periferias", nem de dizer o que pensa de forma destemida, mesmo que seja contra aqueles que, como diz Jesus no Evangelho: "não entram nem deixam entrar". Já o Papa Bento XVI, aliás, quando esteve em Portugal (2010), disse, para quem o quis ouvir que: "muitos dos problemas da Igreja não estão fora, mas dentro dela." Espero e desejo que o "Efeito Francisco" continue a cumprir a sua missão de acordar, interpelar e conduzir pelos caminhos da conversão e da renovação, as pessoas, instituições e estruturas da Igreja, sobretudo, as mais cristalizadas, profissionalizadas e superficializadas…


Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
in Ecos de Grândola, nº 267, 11 de Julho de 2014


sábado, 5 de julho de 2014

Critérios dos homens e critérios de Deus


escobri o Papa João XXIII nas leituras que fui fazendo ao longo dos anos. Segundo critérios humanos, pela sua avançada idade, ele seria um “Papa de transição”, e afinal foi o homem da renovação e da abertura da Igreja ao Mundo, ao diálogo com crentes e não crentes. Devemos-lhe a intuição do Concílio Vaticano II (1962-1965), o mais importante acontecimento eclesial dos nossos tempos.

Sucedeu-lhe um homem extraordinário e não menos providencial, Paulo VI. Dotado de uma clarividência, de intuições proféticas, de um estilo claro e profundo, conduziu a “barca de Pedro” por entre as tormentas de um Mundo em mutação e de uma Igreja em crise de identidade, e de deserção de clero. A seguir, tivemos um brevíssimo pontificado de João Paulo I, que, com o seu sorriso e palavras, conquistou o Mundo.

Sucedeu um dos mais longos pontificados, o de João Paulo II, também ele declarado recentemente Santo. Recordo-o como o Papa da minha juventude. Assistiu à queda de duas ditaduras, e foi obreiro de “Uma Europa do Atlântico aos Urais”. Como primeiro “Papa global”, levou a mensagem de Cristo a todo o Mundo, instituiu as Jornadas Mundiais da Juventude e contribuiu para a renovação da Igreja.

Bento XVI teve a ingrata missão de suceder a um “gigante da Fé”, mas a História lhe fará justiça, pela aposta clara que fez no diálogo com cristãos e crentes de outras Religiões, com o Mundo da Cultura e da Ciência. A sua craveira intelectual permanecerá na Igreja como um precioso legado do “essencial cristão”.

Todos somos neste momento testemunhas da acção deste autêntico “furacão de Deus” que é o Papa Francisco. Sobre ele muito mais haverá a dizer, mas os dados não mentem. O “Efeito Francisco” como muitos já lhe chamam, está a despertar a Igreja, convidando-a a renovar-se, a chegar às “periferias”, para que ninguém fique excluído do amor de Deus. Para um cristão a eleição de um Papa não é um mero exercício de contabilidade, de influências ou estratégias; mas sim, um sinal claro da presença de Deus e do Seu Espírito nesta Igreja, “Santa, de pecadores” (João XXIII). Todos eles são diferentes, mas cada um foi e é a resposta de Deus para cada momento da história.


Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
in Diário do Alentejo, nº 1680, 04 de Julho de 2014