terça-feira, 3 de outubro de 2017

O divórcio entre a fé e a vida



Na minha juventude li uma biografia do papa João XXIII, o “bom papa”, e nunca mais deixei de o admirar. A ele se deve, entre muitas e extraordinárias iniciativas, a convocação do Concílio Ecuménico Vaticano II, que decorreu em Roma, entre 1962 e 1965, e foi, e continua a ser, o mais importante acontecimento eclesial da contemporaneidade.


Como é óbvio, não vou fazer o elogio da vida e obra deste Homem, que a Igreja declarou santo, e é um dos grandes papas dos tempos modernos, antes vou fixar-me, apenas, numa frase por ele proferida, e que suscita em mim profundas interpelações. Dizia João XXIII, falando para dentro da Igreja, que o maior escândalo dos nossos dias era “o divórcio entre a fé e a vida dos cristãos”. 

O alcance destas palavras é enorme e, se cada cristão, e cristão quer dizer “um outro Cristo”, fizer um sério exame de consciência sobre as consequências da fé na sua vida, creio que teríamos todos de entrar numa dinâmica de conversão e de mudança. Ser cristão em todas as dimensões da vida e não apenas nos espaços religiosos é o grande desafio que nos é colocado, e é a melhor forma de manifestarmos que somos, na verdade, discípulos de Jesus “o Deus feito homem”.

João XXIII encarnou e ajudou precisamente a recuperar a dimensão holística da fé cristã e a humanidade que está no coração do Evangelho, filão que os papas sucessivos têm procurado aprofundar, e que é por demais evidente no papa Francisco. A mensagem de Jesus é clara: “Não podemos amar a Deus que não vemos, se não amarmos o próximo que vemos.”

Uma das maravilhas da fé cristã, para mim, consiste em acolher o convite que Jesus me faz, de me encontrar com a verdade da minha condição humana, com as minhas fragilidades e pobrezas e, por outro lado, que deixe entrar e experimente na minha vida a força do amor de Deus, que é maior do que o mal e o pecado, e me pode tornar, como diria S. Paulo “uma criatura nova”, independentemente da minha idade. 


Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
in Diário do Alentejo, 02 de Outubro de 2017



segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Cuidar da nossa casa comum




Todos os dias nos chegam notícias, umas mais verosímeis do que outras, que nos alertam para os perigos em que incorre o nosso Planeta Terra, e para a necessidade de alterarmos comportamentos, em nome dum futuro comum, que a imprudência, insensibilidade, e/ou maldade, ameaçam hipotecar a curto ou médio prazo.

Para nós portugueses, infelizmente, um dos temas que se enquadra nesta moldura é o dos incêndios, cujas causas são diversas, mas onde decerto há lugar para a “mão humana”. 

São, porém, muitas outras as situações do nosso dia a dia, que põem em causa o nosso viver nesta Casa Comum, e são reveladoras do que de menos bom existe no coração humano. 

Creio, a este propósito, que uma das piores coisas que nos pode acontecer, é não nos questionarmos sobre o nosso modo de vida, como se fossemos seres perfeitos, impecáveis, sem nada para mudar e, assim, continuamos os mesmos, com as mesmas rotinas, dia após dia e ano após ano. A mudança é para os outros!

Aproveitemos, por isso, este tempo de férias, para parar e refletir sobre o nosso agir na relação com os outros e com o meio envolvente, pois, muitos dos nossos gestos, atitudes e posturas de vida, são nefastas para o equilíbrio do nosso Planeta Azul. A lista é extensa e, talvez, surpreendente.

Na mudança, que creio ser uma necessidade e está ao alcance de todos, o mais importante é que ela não seja meramente cosmética, superficial e imediatista, mas antes penetre até ao nosso interior, para que aí aconteça uma verdadeira mutação.

Como cristão, sinto diariamente este mesmo apelo que também me vem de Jesus e, deixai-me dizê-lo, do Papa Francisco, verdadeiro sinal de Deus, não só para nós católicos, mas para tantas pessoas, mesmo sem fé, que se revêm na sua simplicidade, transparência e nos seus gestos ousados e proféticos.

Para que não esteja em causa o futuro desta nossa maravilhosa Casa Comum, ousemos acolher o convite à mudança. O nosso Planeta e as futuras gerações agradecem e merecem!


Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
Ilustração Susa Monteiro
in Diário do Alentejo, nº 1846, 08 de Setembro de 2017



Fundamentalismos e radicalismos



Nestes dias, pelos piores motivos, a nossa atenção tem vindo a ser captada por consequências dramáticas de atos de radicalismo e fundamentalismo. Contudo, precisamos de estar atentos, porque também podem existir outras manifestações, embora não tão violentas, mas nocivas e corrosivas da relação e comunhão entre pessoas e comunidades.

Os fundamentalismos são, por sua natureza, irracionais e muitas vezes populistas e demagógicos nos seus argumentos e, frequentemente, quando se esgotam os argumentos, passam à crítica sem fundamento, a chavões, mais ou menos elaborados, ao “quem não pensa como nós está errado”!

Talvez pela minha formação humana e cristã sempre acreditei que só a verdade liberta e que, tantas vezes, nós apenas somos conhecedores de uma parte da verdade, devendo, por isso, respeitar a opinião dos outros, reconhecer os nossos erros e mudar. Persistir em querer ter sempre razão e procurar argumentos, tantas vezes falaciosos, para justificar o injustificável, é como aquele doente que está doente mas não quer aceitar a doença, desdobrando-se em justificações, para projetar nos outros a culpa que ele teima em não reconhecer em si. Um “doente” assim estará cada vez mais doente, privado de sentido crítico, sem capacidade de se aceitar, para poder mudar. 

Ter, pois, a capacidade de dialogar, de respeitar o outro, de aceitar a sua opinião e de reconhecer que, tantas vezes, estamos errados, é um caminho certo e eficaz para evitar fundamentalismos, venham eles donde vierem.

Quando era jovem, lembro-me de uma frase que ouvi a um amigo, e que nunca mais esqueci, e me tem sido de grande utilidade ao longo das minhas cinco décadas de vida: “Amigo não é aquele que nos dá palmadinhas nas costas e nos diz que temos sempre razão; amigo é aquele que, tantas vezes, nos faz chorar, porque nos diz a verdade”. E a verdade é muitas vezes dura e faz sofrer, mas pode ser medicinal para a nossa vida. Precisam-se de amigos destes!


Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
in Diário do Alentejo, 14 de Agosto de 2017



Do fatalismo à criatividade, do pessimismo à positividade



Decerto todos conhecemos este adágio popular: “Depois da casa arrombada, trancas na porta”. Nestes dias ele voltou a ser realidade, e infelizmente da pior forma, pois se é verdade que os incêndios continuam a ser entre nós uma praga, desta vez as consequências foram devastadoras para pessoas, bens, e, quiçá, para o futuro desta região e de todo o interior.

Uma situação extrema revela o que temos de melhor, como povo e nação, mas deixa-nos também interrogações. O que falhou? Por que falhou? De quem são as responsabilidades? 

Não me compete, nem quero, fazer juízos ou tirar conclusões, enquanto se aguardam os resultados das investigações, que trarão à luz a verdade sobre o que realmente aconteceu e tanto sofrimento gerou entre as gentes do pinhal interior. 

Esta situação dá-me, contudo, a oportunidade de introduzir uma questão que deveras me preocupa: o abandono, a desertificação do interior de Portugal. Sem pessoas tudo tende a ser desvalorizado, abandonado e mesmo a desaparecer.

Penso que, tendo como horizonte alguns exemplos felizes, deveríamos ter a coragem de mudar procedimentos e voltar a apostar nas virtualidades, nas potencialidades do interior. Esta não é, nem pode ser, apenas uma questão do Estado, mas deve também comprometer toda a comunidade e em particular as novas gerações, que, na minha opinião, são hoje possuidoras de acrescidas competências, e, por isso mesmo, capazes de se tornarem pioneiras de um processo de regresso ao interior, de aposta em projetos inovadores, capazes que atrair pessoas e investimentos, que podem ajudar a estancar a sangria da fuga para o litoral.

Acredito nas capacidades dos nossos jovens e muitas vezes, ao longo dos anos, desafiei alguns a arriscarem, a não se limitarem à atitude cómoda, pessimista e fatalista de quem espera que “os outros façam”, mas a assumirem com ousadia o protagonismo, em vez de papéis secundários, ou de meros observadores.


Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
in Diário do Alentejo, 24 de Julho de 2017




“Acredito que há mais bem do que mal neste mundo, só que o mal faz mais barulho”



REZANDO
Manuel António Guerreiro do Rosário, 53 anos, padre. “Se pudesse voltar atrás não escolheria outra vida”. Voltar atrás seria regressar ao dia 3 de julho de 1988, quando foi ordenado sacerdote numa região muito pouco dada a vocações. “O meu pai era GNR, pelo que andámos sempre de casa às costas… a minha ligação com a fé vem dessas andanças”. Vila Alva. Vila Nova da Baronia. Alvito. Cuba. Beja, para estudos no liceu. Évora, para ensaiar uma nova vida no seminário. Roma, para profundar as questões da Teologia e da Moral. Grândola, onde hoje dá conta dos afazeres paroquianos. E onde quase não pode sair à rua sem que a sua atenção seja disputada passo a passo. O território que hoje compreende a Diocese de Beja, diz, “foi abandonado durante muito tempo”. A presença muçulmana foi aqui mais demorada e intensa. A sede diocesana esteve perto de mil anos concentrada em Évora. Depois veio a extinção da Companhia de Jesus e das restantes ordens religiosas. O advento da República também não foi brando para com uma igreja que, em pleno século XX, chegou a ver bispos seus “serem recebidos à bomba”. “Há razões históricas que levaram ao afastamento institucional da Igreja nesta região”. Já a fé dos alentejanos, assegura, está espalhada por todo o lado e está comprovada em cada uma das igrejas que pontuam a paisagem. Quanto ao resto, “onde há pessoas, naturalmente há pecado. Gosto muito de ser padre, de estar e de conhecer as pessoas, de rezar por elas… O resto é com o Mestre”.


“Lembro-me perfeitamente das dúvidas que tive, das indecisões, das incompreensões, mas, ao mesmo tempo, foi uma alegria muito grande quando se colocou a questão [de ser padre]”.

“Fui a Fátima no dia 13 de maio de 1982 e acabei por entrar no Seminário de Évora em outubro desse ano”.

“Uma decisão destas não pode ser movida por calculismos, nem por critérios humanos. Esses não têm sentido e são só fonte de frustração”.

“É importante sabermos que esta zona do Alentejo esteve abandonada durante muito tempo… O primeiro momento significativo do empobrecimento, não apenas religioso mas também cultural, do Alentejo foi a extinção da Companhia de Jesus no século XVIII”.

“A fé dos alentejanos permaneceu e nós podemos ver expressões dessa mesma fé na multiplicidade de igrejas que existem espalhadas por todo o lado”.

“A relação destas pessoas com a fé é mais pessoal e de transmissão familiar e isso pode dar lugar a algum sincretismo. Isto tem muito a ver com a falta de uma presença institucional da Igreja”.

“Para mim não é essencial a questão dos segredos. Isso não me interessa nada, sinceramente. Aliás, a Igreja levou alguns anos a reconhecer a autenticidade do que sucedeu em Fátima”.

“É convicção da Igreja que Fátima não acrescenta nada ao Evangelho”.

“A grande mensagem de Fátima é o convite à oração, à adoração, à conversão, à reconciliação entre as pessoas e Deus. Aí sim, Fátima é um lugar de muitos milagres. Sinto fortemente a presença de Deus em Fátima”.

Texto Paulo Barriga Fotos Rui Cambraia
in Diário do Alentejo 23 de Maio de 2017



Liberdade e democracia



Estas crónicas no “Diário do Alentejo” são um gratificante exercício de síntese, ao ter de dizer em poucas palavras o essencial sobre os temas que escolho.

Falar de ausência de liberdade nas ditaduras, em regimes ditatoriais ou de cariz fundamentalista, é já um lugar-comum, mas, quando isto acontece em regimes democráticos, nos quais os direitos dos cidadãos devem estar garantidos, e entre estes se encontram o direito à liberdade e à liberdade religiosa, creio que temos razões para nos preocuparmos. 

Deixo apenas algumas interrogações:

Muitas vezes me tenho perguntado qual é ou quais são os critérios, segundo os quais, alguns consideram ter direito e opinam sobre o que os outros podem ou não pensar e dizer? 

Em nome de que conceito de liberdade se ridicularizam e se impedem, sobretudo os cristãos, de manifestarem livremente a sua fé e as suas convicções éticas sobre questões de relevância na atualidade?

Como entender as omissões no Ocidente sobre as perseguições e discriminações de que os cristãos são vítimas em diferentes pontos do globo?

Não estaremos a caminhar, mesmo que inconscientemente, para formas veladas de intolerância, senão ditadura, ao abrigo de um conceito prático e duvidoso segundo o qual há cidadãos que são “mais iguais do que outros”?

A própria Igreja já viveu ao longo da sua milenar história situações que não quer que se repitam hoje, e, por isso, tem toda a legitimidade para exigir ser respeitada e ver garantidas as condições para o cabal exercício da liberdade religiosa, direito extensivo, obviamente, aos crentes de outras confissões religiosas.

O Concílio Vaticano II inaugurou na Igreja uma nova forma de relação com os crentes de outras confissões religiosas, cristãos ou não, e até com os não-crentes, baseada no diálogo, no respeito pelo outro, na tolerância e na defesa intransigente do ser humano, da sua dignidade e direitos. É por este caminho que a Igreja quer continuar e dar o seu contributo a todos os que quiserem aceitar, na liberdade, as suas propostas.


Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
in Diário do Alentejo, 20 de Março de 2017




A força da verdade



Talvez seja um lugar-comum dizer que a verdade “é como o azeite e vem sempre ao de cima”.

É sobre esta temática que gostaria de escrever algumas linhas, começando por citar a Declaração Dignitatis Humanae, do Concílio Vaticano II, n.º 1: “A verdade não se impõe de outro modo senão pela sua própria força”.

Uma das dificuldades com que nos confrontamos é que, com alguma frequência, a verdade não é procurada como um fim, mas apenas e tão só como um meio, surgindo ligada e dependente de interesses e de agendas. Outra dificuldade dá pelo nome de subjetivismo, e nele tende a identificar-se a realidade com a perceção que eu tenho dela, ou seja, interessa a minha verdade. 

A subjetividade é um valor nas nossas sociedades ocidentais, que devemos, em especial, a pensadores como Descartes e Kant. O subjetivismo, porém, é uma degenerescência que nos pode arrastar para o pântano do individualismo e do egoísmo, ao exaltar o indivíduo e não pessoa, desvalorizando a sua dimensão social, logo, a sua componente fraterna e solidária.

No Jubileu do ano 2000, o papa João Paulo II reconheceu e pediu perdão, porque nem sempre a Igreja foi exemplar na forma como propôs a verdade, ao cair algumas vezes na tentação de a impor por meios que em nada contribuíram para a sua dignificação.

A procura da verdade deve ser sempre um objetivo que nos deve nortear, e a aceitação da mesma uma condição, para não cairmos no risco da anarquia, em que, no meio da confusão, tenderá a prevalecer a lei do mais forte, mesmo que esse seja uma minoria, mas, por dispor dos meios mais poderosos, impõe-se aos outros, os quais, ou se submetem, ou não se manifestam.

Urge, pois, estar atentos às tentativas mais claras ou mascaradas de impor “verdades”, considerando inquisitoriamente que “quem não pensa como nós” está errado e deve ser condenado.

Basta estar atentos e ter sentido crítico. Os exemplos vão abundando, em nome de uma certa ideia de democracia e liberdade.


Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
in Diário do Alentejo, 13 de Março de 2017




Misericordiosos como o pai



Terminou o Ano da Misericórdia convocado pelo Papa Francisco, ocasião soberana para mergulharmos no coração do Evangelho e chegarmos ao essencial da sua mensagem, e o essencial é a misericórdia, o amor, o perdão, respostas de Deus ao homem pecador, carente, humilde, mas desejoso de se renovar e transformar numa pessoa nova.

Embora tenha terminado o Ano da Misericórdia, não se esgotou a centralidade deste tema na vida da Igreja e dos cristãos, antes pelo contrário, é desejável que a sua semente tenha permanecido e continue a dar frutos. É, aliás, essa a razão pela qual Jesus diz aos seus discípulos que devem ser sal, luz e fermento. Se nós cristãos, o não somos, devemos interrogar-nos porquê, para podermos mudar, pois a mudança, a conversão, pertencem ao núcleo da fé cristã, como nos diz o Pe. Zézinho na canção “Amar como Jesus amou”. Vale a pena ler o poema. 

A mensagem deste Ano da Misericórdia dizia-nos ainda que, se o Pai é misericordioso, nós, seus filhos, também deveríamos seguir por esse caminho, porque essa é a sua vontade para nós. É, aliás, isso que dizemos sempre que rezamos a oração do Pai Nosso, onde manifestamos a nossa disposição de fazer a vontade de Deus e não limitarmo-nos a viver segundo as nossas opiniões e os nossos caprichos.

O cristão deve, pois, ser alguém permanentemente insatisfeito, não daquela insatisfação que se confunde com infelicidade e, às vezes, com desespero, mas uma insatisfação que é aspiração a ir mais longe, utopia que nos desafia a cortar as amarras que nos impedem de voar e de saber que, com o nosso compromisso, podemos ajudar a melhorar este Mundo em que vivemos. E se é verdade que tudo neste Mundo é passageiro e imperfeito, não devemos de desistir de nos comprometer na humanização desta “casa comum”, na qual habita a família humana, à qual todos pertencemos. 

Que a misericórdia, expressão do rosto paterno de Deus, continue a habitar em mais corações e a iluminar mais vidas.


Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
in Diário do Alentejo, 15 de Dezembro de 2016



sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Os fins não justificam os meios


Não sei se esta afirmação faz sentido para toda a gente, mas creio que, se fosse assumida em muitas dimensões da nossa vida pessoal, comunitária e social, evitar-se-iam muitos problemas e males de que enferma o nosso tempo, e não duvido que, um dos resultados mais visíveis e indiscutíveis, seria o facto de termos um Mundo menos egoísta, egocentrista e individualista, e mais solidário, fraterno e justo.

Para mim, faz todo o sentido ter de pensar no outro, pois a ideologia do "vale tudo" não só não serve, como é extremamente nefasta nas suas ramificações, porque abre as portas apenas ao "meu", esquecendo o "teu" e o "nosso", o que no tornará cada vez mais insensíveis para com o próximo, e até para com o ambiente que nos rodeia, na medida em que, paulatinamente, nos vai encerrando no castelo dos nossos interesses, aqueles que, nesta perspectiva, serão os únicos lícitos e que realmente interessam.

Estou consciente que talvez, deliberadamente, esteja a exagerar, mas, se olharmos um pouco à nossa volta, não será difícil identificar manifestações de quanto acabo de afirmar. Para não limitar o sentido crítico dos nossos leitores, adianto apenas um exemplo. O nosso País está assolado pelo drama dos incêndios e é voz frequente dizer-se que muitos deles são de origem criminosa. Quem é que ganha com os incêndios? Uma coisa é certa, para além das perdas de vidas humanas, de bens, de sonhos acalentados, e de um sem número de realidades, é o país no seu todo que empobrece e definha! Entre o bem de um país e interesses particulares e mesquinhos, creio que não restarão dúvidas sobre o bem maior, pelo qual vale a pena lutar e que, por isso mesmo, deve prevalecer e sobrepor-se aos interesses particulares e, neste caso, egoístas.

Uma conclusão que é lícito tirar é que, se pensássemos mais nos outros, nas consequências das nossas palavras e dos nossos gestos, talvez não agíssemos como tantas vezes acontece, porque procuraríamos pensar sempre no plural e não apenas no singular.

O conteúdo deste texto penso ser de fácil compreensão, mesmo para quem não tenha fé, porque ele se baseia em dados e critérios eminentemente humanos e racionais, não exigindo a fé para compreender o alcance da sua mensagem.

É claro que, para quem é cristão, as razões da fé redobram e reforçam as exigências desta afirmação e, se a ignorância desculpabiliza, o conhecimento agrava a responsabilidade daqueles que, por isso mesmo, não deveriam ser insensíveis aos apelos à mudança e, antes pelo contrário, deveriam estar na primeira linha da disponibilidade para, com compromisso, se empenharem na transformação das nossas sociedades.

Penso que, o inconformismo, a insatisfação, o desejo de mais e melhor poderiam e deveriam ser o motor da nossa vida.

Termino com uma frase do fundador do Escutismo, Baden-Powell: "procura deixar este mundo um pouco melhor do que o encontraste". Imaginemos o alcance deste desafio, se ele fosse acolhido de forma generosa e consequente, não apenas pelos escuteiros, mas também por cada um de nós, pêlos crentes e pelos homens e mulheres "de boa vontade"!

Espero que o período das férias tenha, para além dos benefícios que lhe são inerentes, proporcionando ainda a ocasião de fazermos todos um exame de consciência, que possa ter consequências benéficas na nossa higiene interior, e no nosso agir.

in Ecos de Grândola, nº 305, 08 de Setembro de 2017



domingo, 20 de agosto de 2017

6º aniversário da inauguração do Museu de Arte Sacra de Grândola


O Museu de Arte Sacra de Grândola abriu as portas ao público, a 23 de Agosto de 2011, na igreja de São Sebastião, para apresentar a sua colecção permanente, formada por fundos de pintura, escultura e artes decorativas.

Esta iniciativa, da responsabilidade da Paróquia de Grândola, do Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja, e da Câmara Municipal de Grândola, integra obras pertencentes às igrejas da sede do concelho, das paróquias de Azinheira dos Barros, Lousal e de Santa Margarida da Serra e da Santa Casa da Misericórdia de Grândola.

Quando completa o seu 6º aniversário não perca a oportunidade de visitá-lo, de quarta-feira a domingo, das 10:30 horas às 13:00 horas e das 14:30 horas às 18:00 horas.




sexta-feira, 18 de agosto de 2017

O importante são as pessoas


Quando se houve falar tanto de números, de projectos, de estruturas e de conjunturas, no fundo, de coisas, cresce, paralelamente em mim, o desejo de centrar esta reflexão sobre as pessoas, quaisquer que elas sejam, porque me parece que, cada vez mais, as pessoas interessam menos, e os exemplos, infelizmente, abundam. Para não me prolongar enuncio apenas alguns casos:
  • Falar em rendimento per capita é uma ilusão que esconde a realidade de tanta gente que não tem o mínimo para viver com dignidade, apesar dos números dizerem o contrário;
  • Listas de espera para consultas e intervenções cirúrgicas. O seu aumento ou diminuição, que tantas vezes os governos, de qualquer cor política, esgrimem uns contra os outros, esconde a realidade de tanto sofrimento que não vem nos números, do desespero em que vivem tantas pessoas e famílias;
  • O aumento dos salários e das pensões, argumento tantas vezes utilizados pelos governos, como sinal do seu compromisso em melhorar a situação dos cidadãos, esconde a realidade de quem recebe tão pouco, que mais um cêntimo ou dois pouca diferença faz. Entretanto, a nível europeu e internacional, somos considerados um dos países mais desequilibrados, pelo fosso que existe entre os mais ricos e os mais pobres.
Poderia continuar a fazer desfilar alguns exemplos de como as pessoas importam pouco, quando outros interesses, se sobrepõem e marcam a agenda dos partidos e de tantas instituições, que deveriam fazer mais pelas pessoas, sobretudo, pelos mais frágeis, que tantas vezes não se podem defender, nem tão pouco fazer ouvir a sua voz.

E claro que o Estado não tem toda a responsabilidade, não pode, nem deve fazer tudo, mas deveria, e poderia, apoiar mais as pessoas e as instituições que, no terreno, estão mais próximas e procuram ser a resposta imediata e eficaz, para tantas necessidades básicas de pessoas concretas que são, exactamente iguais em dignidade, direitos e deveres, a todos os outros cidadãos que vivem com mais desafogo e condições de vida.

Uma sociedade, qualquer sociedade, a nossa sociedade portuguesa, não deveria descansar enquanto não vencesse a batalha da desigualdade e da injustiça, para a qual deveríamos estar todos mobilizados como causa nacional, enquanto existir uma só pessoa nestas condições. Talvez isto possa soar a utopia, mas as utopias também se podem realizar, se conseguirem acordar e mobilizar as pessoas e as forças vivas. Às vezes basta alguém começar, com pequenos gestos, concretos, para que a mudança aconteça. Não é necessário que seja o Estado a tomar a dianteira, ou aguardar que "os outros façam", podemos ser nós, cada um de nós. Está nas nossas mãos e ao nosso alcance, já amanhã, se quisermos.

Evitemos o "síndroma dos Velhos do Restelo" que anestesia e paralisa e não leva a lado nenhum, e assumamos a atitude da ousadia, da criatividade e do compromisso no concreto.

in Ecos de Grândola, nº 304, 11 de Agosto de 2017



segunda-feira, 17 de julho de 2017

Apostar numa mudança de paradigma


Nestes últimos dias, talvez fruto da tragédia dos incêndios, tenho cogitado sobre a oportunidade e necessidade de instaurar entre nós, uma cultura que privilegie a competência, e que aposte decididamente na prevenção, transversalmente, para que não seja necessário tomar decisões apressadas, e não raro atabalhoadas, como diz a sabedoria popular: "depois da casa arrombada".

Esta minha constatação creio que poderá ter aplicações em sectores variados da nossa vida colectiva, para benefício de todos e para que possamos construir e legar um futuro mais consistente e melhor às gerações que nos sucederão.

Penso já ter, noutras ocasiões, dado umas pinceladas sobre estas temáticas, mas gostaria de voltar novamente a elas, porque os casos repetem-se, as marcas profundas vão permanecendo e os estragos, tantas vezes, perduram e são impossíveis de apagar.

Passo a deixar algumas questões que me interrogam e incomodam:
Porque é que sempre que muda um Governo, qualquer que seja a sua cor política, se assiste "à dança das cadeiras"?

Que critérios são tidos em conta nestas e noutras nomeações? São baseados na competência e no rigor, ou são meros cargos de nomeação política?

Porque não se consegue chegar a consensos alargados, no espectro político-partidário, sobre questões essenciais, em áreas prioritárias, tendo em conta um horizonte que não se esgote numa legislatura?

Porque se insiste em manter arredada da praça pública uma cultura permanente da programação e da avaliação, quando está provado que a nossa capacidade não se esgota no improviso, que deverá ser sempre a excepção e nunca a regra?

Estas minhas interrogações não são sinal de descrença ou de desvalorização das nossas capacidades, antes pelo contrário, e, como já referi em anteriores ocasiões, vivi na primeira pessoa, em vários países, e escutando testemunhos dos quatro Continentes, a marca positiva que caracterizou a portugalidade. É bom não esquecer o passado, a nossa história e a nossa memória, que bem nos podem inspirar a voos mais altos e consistentes, sempre conscientes da nossa realidade e das mudanças que, entretanto, se deram no xadrez internacional.

Acredito nas potencialidades do Portugal hodierno e dos portugueses, mas não penso que o caminho passe pela pequena política, refém de interesses particulares e de clube, pelos oportunismos, pelo chicoespertismo, antes exige a coragem de romper com os atavismos do "sempre foi assim", e a aposta em pessoas e projectos que se concretizem num real desenvolvimento, como diria o Papa Paulo VI" do homem todo e de todo o homem", que tenha como objectivo promover o bem comum de todos os portugueses e, se quisermos alargar os horizontes, contribuir para um bem comum global.

Apetece-me lembrar, e deste modo terminar, com uma frase do Papa João Paulo II: "não nos contentemos com a mediocridade, mas aspiremos à santidade".

in Ecos de Grândola, nº 303, 14 de Julho de 2017



domingo, 25 de junho de 2017

D. João Marcos e o Clero do nosso Arciprestado no concelho de Grândola


O nosso Bispo, D. João Marcos e o Clero do nosso Arciprestado vão passar o dia 30 de Junho, no nosso Concelho e iniciarão o dia com a Eucaristia na nossa Igreja Matriz às 09:00 horas.

Vamos estar presentes nesse momento.



quinta-feira, 15 de junho de 2017

Verdade e Objectividade


Já há algum tempo que não reflectia sobre um tema que me é particularmente caro: a verdade e a objectividade.

Quando olho para a realidade que nos envolve, no nosso País e fora dele, fico apreensivo perante as formas, tantas vezes imperfeitas e parciais, de se apresentarem alguns acontecimentos: dá a impressão que eles são transmitidos segundo aquilo que convém a quem transmite a notícia, ou a desenha, sem a preocupação de a apresentar sem leituras, mas com objectividade, para que essa missão fique do lado da opinião pública, do leitor, do ouvinte, do telespectador, do internauta. Parece que há uma prévia definição de objectivos e a realidade transmitida já está previamente domesticada, para dizer aquilo que "nós queremos'', não deixando que os acontecimentos tenham a força que lhes é inerente e deles dimana com toda a sua autenticidade.

É verdade que a nossa subjectividade tem sempre uma quota-parte na nossa apreensão da realidade e na sua transmissão, mas não ao ponto de a deturpar, retirando o que não convém e transmitindo só aquilo que possa vir confirmar o que se pretende transmitir. Nesta linha, recordo-me um texto da Bíblia que diz: "Deus não existe." Mas, depois, o texto continua: "diz o ímpio no seu coração". Se eu retirar esta segunda parte, também poderei afirmar que a Bíblia diz que Deus não existe. Este é apenas um simples exemplo daquilo que não deve ser, sobretudo, quando se tem a missão de informar e se pretende contribuir para a formação de uma opinião pública crítica e reflexiva.

A verdade vale por si própria, venha de quem vier, e como tal deve ser reconhecida e respeitada. Equilibrar a nossa subjectividade com uma boa dose de objectividade parece-me ser uma necessidade nos tempos que correm, sob pena de cairmos no subjectivismo, no individualismo e, pior ainda, no "vale tudo", quando se definem objectivos a cumprir a qualquer preço. Há também uma norma, nesta linha, que todos devemos conhecer e que creio ser igualmente necessária: os fins não justificam os meios.

O que acabo de afirmar creio não ser apenas evidente para quem é cristão, mas, penso eu, para qualquer pessoa que procure viver segundo os desígnios da sua consciência e na fidelidade a valores partilhados universalmente, pelo menos, por grande parte da humanidade.

Como tenho referido muitas vezes, apesar destas observações, algumas vezes críticas sobre a realidade que me rodeia, continuo a ser uma pessoa positiva e optimista: acredito nas pessoas e na mudança das mesmas e acho que é necessário ir lançando sementes positivas no coração, em particular, das novas gerações, para contrabalançar tanta negatividade, pessimismo e egoísmo que circula por este mundo real e virtual.

Também é importante ser paciente e não imediatista, porque a formação de uma pessoa humana é um projecto para uma vida, e nem é sempre linear, e, por isso, é preciso ir semeando com paciência e perseverança.

Termino com uma frase que me é muito querida: acredito que há mais bem do que mal neste Mundo, só que o mal faz mais barulho!

in Ecos de Grândola, nº 302, 09 de Junho de 2017



sábado, 10 de junho de 2017

Festas em Honra de Nossa Senhora da Penha 2017 pelo Facebook


De 05 de Maio de 2017 a 04 de Junho de 2017, decorreram as Festas em Honra de Nossa Senhora da Penha.

Todos os eventos das Festas foram alvo de reportagens, de acordo com os meios disponíveis no momento, publicados no Meo Kanal da Paróquia e no blogue Paróquia em Movimento, sendo as publicações no blogue divulgadas em simultâneo na página da Paróquia no Facebook e no Google+.

Este é o TOP de visualizações dos eventos no Facebook:

Evento
Visualizações
Gostos
Missa no Jardim 1º de Maio
2316
20
Visita à Santa Casa da Misericórdia
1634
27
Visita à Aldeia do Futuro
1044
27
Procissão automóvel
770
25
Procissão das rosas
638
19
Concerto com Carlos Guilherme
601
21
Visita Bairros Esperança, Liberdade, Amoreiras, Tirana e Paragem Nova
551
6
Espectáculo musical, fogo de artificio e baile
461
18
Visita à Aldeia do Pico
424
13
10º
Vigília Mariana
409
17
11º
Missa Vespertina
366
11
12º
Visita ao Canal Caveira e Bairro do Arneiro
362
11
13º
Visita ao Breijinho d’Água, Bicas, Muda e Vale da Cobra
302
7
14º
Espectáculo Musical Cine Granadeiro
280
8
15º
Regresso da imagem à Capela
255
11
16º
Visita à Aldeia da Justa/Cadoços
213
7
17º
Corrida Solidária
213
4
18º
Noite de fados
201
3
19º
Missa dominical
187
8
20º
Procissão das Velas
172
6
21º
Visita ao Bairro do Isaías
150
3
22º
Procissão das Velas no Bairro S João
146
3
23º
Visita a Água Derramada e Silha do Pascoal
134
1



sexta-feira, 9 de junho de 2017

9ª Edição do "Amar à Tona"


O Prof. Jorge Neves veio entregar o resultado da Campanha Solidária: Amar à Tona 2017, fruto da solidariedade da Comunidade Escolar da E B D. Jorge de Lencastre.

Muito obrigado a todos. Estes alimentos serão encaminhados  para as famílias mais carenciadas de Grândola, assistidas pela Paróquia, através das Conferências Vicentinas.




quarta-feira, 31 de maio de 2017

Desporto: É Urgente Mudar de Paradigma


Hesitei bastante sobre o tema desta minha crónica mas, finalmente, decidi-me por falar um pouco, até por me considerar um leigo nestas questões, sobre o ambiente que se respira no mundo do desporto, no nosso país.

Com efeito, fico deveras incomodado, perplexo até, com as notícias sobre adeptos de clubes escoltados por forças de segurança, aparentemente, para evitar males maiores; agressões, físicas e/ou verbais entre claques; debates quase incandescentes entre comentadores desportivos e dirigentes de clubes.

Creio que há demasiada violência dentro do coração humano, pelo que, com extrema facilidade, se cometem excessos e, uma das suas consequências, é a banalização da vida humana e o desrespeito pela dignidade que cada pessoa merece, o que é um paradoxo, porquanto estamos num tempo de grande respeito pela natureza, pelo equilíbrio ecológico, pelos animais. Confesso que também me sinto incomodado quando ouço falar em somas tão avultadas nos contratos, nas transferências, e em tantos negócios ligados ao desporto, quando, por outro lado, há tantos portugueses a viverem com ordenados e pensões tão magras. É uma contradição que em nada contribui para anular o fosso que existe entre seres humanos, iguais em dignidade e direitos, ou será que há cidadãos de primeira e de segunda?

Perante tudo isto, dou comigo a pensar:

- O que é que se ganha e quem é que ganha com este ambiente e as permanentes polémicas que envolvem o desporto português?

- Como é possível passar uma mensagem positiva e construtiva, especialmente para as novas gerações, quando são, tantas vezes, os mais responsáveis dos clubes a exaltarem os ânimos e a criarem focos de conflito?

- Não será isto os antípodas do que deve ser o desporto?

- Não será necessário mudar de paradigma e relançar a discussão sobre as grandes virtualidades do desporto?

Como atrás referi, não me sinto muito habilitado para aprofundar estas questões, apenas deixo aqui as preocupações de alguém que se sente, cada vez mais desiludido com as sementes de joio que vão crescendo e desvirtuando o desporto, e que importa, por isso, combater e encontrar caminhos alternativos, para bem das nossas comunidades, sobretudo, das novas gerações.

Atrevo-me a lembrar alguns dos valores inatos ao desporto e que importa recuperar e semear com firmeza e continuidade: o direito à diferença, o respeito pelo outro, o altruísmo, a solidariedade, a comunhão, a fraternidade e a verdade.

Penso que ainda estamos a tempo de inverter caminhos e os exageros que têm tido lugar nestes últimos tempos são bem uma chamada de atenção, ou será necessário haver ainda mais incidentes, com mais mortes, para se mudar de atitude e procedimentos?

Apesar de tudo, acredito no ser humano e, como cristão, atrevo-me a dizer que Deus também acredita em nós!

in Ecos de Grândola, nº 301, 12 de Maio de 2017



quarta-feira, 26 de abril de 2017

Novo horário da Corrida Solidária para a Penha


A Corrida Solidária para a Penha, no dia 20 de Maio de 2017, tem nova hora de partida, agora será às 17:00 horas.

domingo, 23 de abril de 2017

Liberdade, reciprocidade e intolerância


Nos tempos que vão correndo vejo, com alguma apreensão, não apenas nas ainda resistentes ditaduras, mas também em alguns países democráticos, sintomas de uma crescente falta de liberdade e de certas expressões de intolerância, quando se trata de questões consideradas fracturantes, ou quando estão em causa matérias que tocam a liberdade religiosa, nomeadamente dos cristãos.

A título de exemplo, apresento apenas algumas situações que me têm chamado particularmente a atenção:

- Como é possível, em nome de uma certa ideia de liberdade religiosa, proibirem-se símbolos religiosos, quando se trata de símbolos, sobretudo, cristãos e não de outras confissões religiosas?

- Como entender que, em nome da liberdade de expressão, se ridicularizem os cristãos e as suas manifestações de fé, desvalorizando e condenando as respostas que, os cristãos vão dando, também em nome da liberdade de expressão, acusando-os de intolerantes, retrógrados e ultras?

- Como se compreende o protagonismo que certas iniciativas vindas de algumas "agendas" têm, quando, pelo contrário, tantos acontecimentos de grande amplitude, muitos deles de carácter religioso, são pura e simplesmente secundarizados, esquecidos, ou tratados de forma inadequada?

- Como é possível que se fale de assuntos de carácter religioso, sem entender a sua especificidade e a necessidade de alguma preparação séria, para se poderem abordar estes temas?

- Como entender o silêncio a nível europeu e global, quando se fala das perseguições de que os cristãos são vítimas em diferentes contextos, como se não fosse uma questão real e de contornos dramáticos nalgumas regiões do globo?

Sem esgotar este tema, naturalmente, gostaria de recordar que a autêntica liberdade supõe a reciprocidade e igual tratamento, ou seja, não deve ser só para aquilo que "nos convém", na medida em podemos resvalar facilmente para o pântano do subjectivismo e da pura arbitrariedade.

O respeito que devemos ter para com os outros, exige igual tratamento para connosco. Não podemos cair no despotismo de pensar que nós é que temos razão, sempre, e, por isso, quem não pensa como nós está errado. A atitude mais sensata, verdadeira e democrática, consiste em aceitar os outros e as suas opiniões, sem deixar de manifestar também as nossas, que devem, de igual modo, ser respeitadas, como é óbvio. Há a este propósito uma máxima do Antigo Testamento que tem duas versões: "não faças aos outros o que não queres que te façam a ti"; e, "faz aos outros o que queres que te façam a ti."

Nesta mesma linha, é de repudiar a tentativa de privatização da consciência, na medida em que os cidadãos têm o legítimo direito de se manifestarem, dentro das regras e limites do Estado de Direito. As manifestações que se vão sentindo, de relegar a Religião, nomeadamente o Cristianismo, para a "Sacristia", são uma forma eufemística de ditadura, de despotismo e autoritarismo, ao cercearem o direito à liberdade, e à liberdade religiosa em especial.

Se a Democracia é o governo do povo, então é necessário que todos os cidadãos tenham igual tratamento, e que não haja cidadãos de primeira e de segunda categorias; uns a quem tudo é permitido, e outros que estão sempre debaixo de suspeição, e sujeitos, nalguns casos, a formas inquisitoriais de controlo da opinião e da manifestação. Se todos os seres humanos são iguais, com dignidade e direitos que devem ser respeitados, não podem existir seres humanos "mais iguais" do que outros.

in Ecos de Grândola, nº 300, 14 de Abril de 2017



sexta-feira, 10 de março de 2017

Visita Pastoral de D. João Marcos, Bispo de Beja à Freguesia de Melides


A Freguesia de Melides, teve a honra de receber a visita de sua Excelência o Bispo da Diocese de Beja, Reverendíssimo D. João Marcos e do seu secretário Padre Miguel. Acompanhados pelo Padre José Bravo, visitaram vários locais nos dias 16 e 19 de Fevereiro. No primeiro dia o destaque foi para as visitas ao Centro escolar de Melides, à Lagoa de Melides, Vale de Figueira, com passagem pelos Monumentos Megalíticos. Por todos os lugares onde passou o Sr. Bispo deixou palavras de conforto e muita simpatia, tanto aos mais novos, como aos mais idosos. De destacar o almoço oferecido pela Casa do Povo de Melides, onde se trocaram palavras de alento aos utentes e elementos que compõem a Instituição. Neste dia a missa realizou­-se às 12h na Igreja de S. Pedro. As 19h o Sr. Bispo esteve no Auditório da Junta e confraternizou com a população, que marcou presença. Pelas 20.30 teve lugar um agradável jantar convívio no Snack Bar "O Fadista". No domingo, pelas 9.30, teve lugar o encontro do Sr. Bispo com os Catequistas e às 10.30 com os catequisandos e os crismandos da Paróquia. As 12h realizou-se a Eucaristia Dominical com os Crismas, momento que contou com a presença do Grupo Musical Falta Um, a animar a Missa. Seguiu-se o almoço para os intervenientes nas cerimónias eclesiásticas e familiares no restaurante a Quinta do Lourenço. A despedida aconteceu na Sede do Grupo de Dança Típica da Queimada, os quais receberam a comitiva Pastoral e convidados, que se fizeram representar em nome de várias Instituições da região, nomeadamente, o Presidente da Assembleia da Municipal de Grândola, o Vereador das Obras Publicas Municipais, Ambiente e Serviços Urbanos da Câmara de Grândola, o Presidente da Junta de Freguesia de Melides, o Presidente da Casa do Povo de Melides. Também marcaram presença os representantes da Câmara Municipal de Santiago do Cacém e Junta de Freguesia de Santo André. Para além das palavras de agradecimento por parte de todos os que mais diretamente estiveram ligados à visita do Sr. Bispo também ele, deixou ficar o seu contentamento pela forma como foi recebido por toda a comunidade em geral. De referir que o Grupo de Dança Típica da Queimada assinalou o acontecimento com uma atuação, que D. João Marcos enalteceu e valorizou o trabalho desempenhado pelos folcloristas e, por mais um momento de excelente convívio proporcionado por um lanche oferecido pela direção do Rancho.

in Ecos de Grândola, nº 299, 10 de Março de 2017