sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

O Natal e a nova Humanidade


tempo de Natal, que se prolonga até à Epifania ou Reis, convida-nos, sobre tudo a nós cristãos, a recordar e a celebrar a vinda há cerca de 2000 anos ao Mundo, de Jesus, o Filho de Deus que assumiu a nossa natureza humana.
Os Crentes de outras Religiões, os Agnósticos, os Ateus ou os Indiferentes, poderão encará-lo talvez como profeta, líder carismático, homem perfeito, ilustre desconhecido…
Para além de tudo o que se possa dizer sobre a influência de Cristo e do Cristianismo, que são inegáveis a muitos níveis, há, contudo, uma dimensão, que me é particularmente cara e que ecoa no coração do Evangelho: somos todos iguais, temos a mesma dignidade, e em Jesus podemos dirigir-nos ao único Deus chamar-lhe Pai Nosso, reconhecendo assim a nossa condição de irmãos.
A afirmação da igual dignidade de todo o ser humano é um dos maiores valores que o Cristianismo  propõe ao Mundo. Este tesouro é intemporal e urge proclamá-lo em cada época, e na nossa em particular, quando persistem tantos atentados contra a vida humana: guerras, fome, injustiças, violência, migrações, alterações climáticas, aborto, eutanásia, pedofilia, etc.
Em Cristo nós seres humanos descobrimos ainda a Lei que tudo pode transformar: o mandamento novo do amor, a Deus e ao próximo. À luz da fé amar o nosso próximo, que é nosso irmão, é condição
para se amar a Deus, e o nosso próximo pode ser qualquer pessoa, mesmo os nossos inimigos; um desafio decerto difícil mas não impossível, para quem acredita!
O mandamento do amor convida-nos, pois, à conversão, à comunhão, à reconciliação, à Paz, outro valor tão necessário no nosso tempo. Se é verdade que nem tudo depende de nós, não é menos verdade que
também está nas nossas mãos trabalharmos na transformação deste Mundo, a partir de pequenos gestos e atitudes. Afinal Jesus não nasceu na sumptuosidade de um Palácio, mas na simplicidade de uma manjedoura, na singela cidade de Belém.
Um Santo Natal e um Abençoado Ano de 2023.

Manuel António Guerreiro do Rosário, Padre


sexta-feira, 28 de outubro de 2022

Uma “nova economia”


Papa Francisco, verdadeiro pastor das “periferias”, oriundo de um Continente marcado por profundas contradições e sofrimentos, mas também fértil em esperanças e desafios, não deixa de nos surpreender.

A atestá-lo o convite que dirigiu aos jovens de todo o Mundo para um evento em Assis, entre 26 e 28 de Março de 2020, intitulado: “Economy of Francesco”. Em virtude da pandemia, o encontro não teve o impacto desejado, mas concretizou-se agora, entre os dias 22 e 24 de Setembro.

Este projeto deveras ambicioso, contou com a participação de mais de mil jovens empresários e economistas, provenientes de 120 Países (Portugal incluído), que reflectiram sobre a possibilidade de uma “nova economia”, inspirada nos valores de S. Francisco de Assis.

O Pacto assinado pelos participantes é bem revelador da seriedade do projeto, o qual não é mera utopia, mas realidade já em construção. Nele se propõe uma Economia: de Paz, que recusa a proliferação das armas e se preocupa com a Criação; ao serviço da Pessoa, da Família e da Vida, e respeitosa sobretudo dos mais frágeis e vulneráveis; que privilegia o Cuidado e que não deixa ninguém para trás; que reconhece e protege o Trabalho digno e seguro para todos; onde as Finanças são amigas e aliadas da economia real e do trabalho; que valoriza e preserva as Culturas e as Tradições dos povos, todas as Espécies vivas e os Recursos Naturais da Terra; que combate as Misérias e reduz as Desigualdades; guiada por uma Ética da Pessoa e aberta à Transcendência; que cria Riqueza para todos, mas também gera Alegria, Bem-estar e Felicidade.

No discurso final o Papa propôs três fortes indicações: primeira, “olhar para o Mundo através dos olhos dos mais pobres”; segunda, que os jovens (estudantes, estudiosos e empresários) não esqueçam “o trabalho” e “os trabalhadores”; terceira, a “encarnação”, ou seja, que os “ideais”, os “desejos” e os “valores”, se transformem em “obras concretas”.

Mãos à obra juventude!

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
in Diário do Alentejo, 28 de Outubro de 2022


sexta-feira, 15 de abril de 2022

O Síndroma de Caim


Papa Francisco, a propósito desta fratricida guerra, que ensanguenta o Continente Europeu e envergonha a Humanidade, já por várias vezes fez referência ao “Síndroma de Caim”.

Para os leitores menos familiarizados com a terminologia da Bíblia, gostaria de explicar, de forma sucinta, que Caim e Abel são personagens mencionadas no primeiro livro da Bíblia, o Livro do Génesis; eram irmãos, e Caim matou Abel.

Abstraindo das motivações subjacentes ao homicídio, missão dos exegetas bíblicos (não é o meu caso), o que o Papa pretende lembrar-nos é que a guerra é um atentado à fraternidade humana, uma recusa, de facto, da nossa pertença à única Família Humana, que habita esta Casa Comum. O homem torna-se, deste modo, “o lobo do homem”, na medida em que na guerra se revelam de forma horrorosa e degradante, os piores sentimentos que habitam o coração humano.

A guerra não tem justificação, nunca resolve os problemas, e é uma manifestação crassa de egoísmo e de misantropia, pela obstinação em não ter em conta o mal produzido, nem as consequências transversais que daí advirão e que tenderão a perpetuar-se num círculo vicioso, porque os resquícios de ódio e de vingança permanecem por gerações, e manifestam-se, por vezes, de forma inesperada, intempestiva e descontrolada.

O futuro da Humanidade exigirá que se encontrem alternativas à guerra, que passarão pelo diálogo, negociação, e cedência; no fundo, por meios pacíficos, que permitam trilhar caminhos de autêntica evolução civilizacional.

É também desejável que se estabeleçam regras éticas universais, que sejam cumpridas por todos, e que contribuam para normalizar as relações entre povos e nações, com base na justiça, verdade, liberdade, equidade, solidariedade e bem comum, entendidos planetariamente.

Urge também repor no abecedário, o respeito pela vida humana, de cada ser humano, e de todos os seres humanos; sem esquecer que a vida humana não é “descartável” (Papa Francisco).

Pe. Manuel António Guerreiro do Rosário
in Diário do Alentejo, 15 de Abril de 2022