domingo, 9 de dezembro de 2012

Acordes que todo o mundo ouviu alguma vez

Morreu Dave Brubeck, o católico que revolucionou o jazz com uma peça inolvidável: «Take five»

Em 1980 pediram-lhe que fizesse uma missa: «Não sei nada de missas», contestou. Não estava baptizado. Escrevendo os seus acordes decidiu entrar na Igreja.

Actualizado 6 Dezembro 2012

C.L. / ReL

Se você não é aficionado do jazz, quiçá não lhe soa o nome de Dave Brubeck (1920-2012), e talvez não calibre bem o que significou Take five, um tema do seu companheiro de quarteto Paul Desmond, inseparável na sua interpretação.

Mas se escuta os seus primeiros acordes encontrará uma das composições mais populares do século XX. Gravou-a The Dave Brubeck Quartet em 1959, com Dave ao piano, formando parte do álbum Time out. Com o seu compasso de 5/4 converteu-se em um dos maiores êxitos na história desse peculiar estilo, e formou parte da banda sonora de inumeráveis películas e séries de televisão.

Brubeck morreu esta quarta-feira um dia antes de cumprir os 92 anos de idade, depois de uma carreira carregada de prémios e reconhecimentos que teve o seu zénite nos anos cinquenta (o 8 de Novembro de 1954 ocupou a cobiçada capa do Time) e sessenta, até à dissolução do quarteto em 1967. Nem por isso deixou de compor e interpretar, e entre a sua herança destaca que quatro dos seus seis filhos sejam músicos.

Em 1968 Brubeck compôs um oratório à base de ensinamentos de Jesus Cristo, e em 1969 uma cantata que mesclava textos da Bíblia com palavras de Martin Luther King. Também havia feito peças de jazz natalício. Mas não estava nem sequer baptizado: "A minha mãe baptizou os meus dois irmãos como presbiterianos, mas esqueceu-se de mim", confessou.

A conversão
Isso mudou, sem dúvida, em 1980. "Realmente nunca me converti", explicou em 1996 numa entrevista concedida à Catholic News Service: "Eu não era nada, assim simplesmente entrei na Igreja católica".

Tudo tinha começado meses antes, quando Ed Murray, editor do semanário católico Our Sunday Visitor, lhe encomendou música para uma missa: "Não sei nada de missas", contestou. "Disse-lhe que não queria fazê-lo, porque não era católico". Mas Murray tinha um argumento: "É exactamente o que quero, alguém que venha de fora e o contemple com uma visão fresca". Insistiu em que não aceitaria um não por resposta... assim Brubeck disse sim.

Mas impôs a condição de que compositores e liturgistas católicos supervisionassem o seu trabalho. E quando o terminou e o mostrou... os especialistas não tocaram nem numa nota.

O trabalho da missa se chamou To Hope [Esperar], e ainda que o terminou em poucos meses, não se gravou até quinze anos depois. Mas a decisão de Brubeck de ser católico chegou enquanto a compunha. Uma noite, no período em que ele estava compondo a missa, "sonhou" uma música, algo que lhe havia ocorrido em outras composições. Em seguida pensou que era perfeita para o Pai Nosso, assim que se levantou a meio da madrugada e se pôs a escrevê-la freneticamente, antes de que se lhe apagasse de todo da memória do sonho. Foi então, confessou à CNS, quando decidiu entrar na Igreja. Murray foi, por suposto, o seu padrinho de baptismo.

As portas do inferno
Também em sonhos lhe veio a inspiração, sete anos depois, para uma peça que criou para ser tocada perante João Pablo II durante a visita do Papa Karol Wojtyla a San Francisco.

"Chamaram-me à última hora da noite e me disseram que necessitavam uma resposta no dia seguinte. Disse que não, mas pedi o texto. Tratava-se da passagem: ´Sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevaleceram contra ela´. E pensei: ´E querem nove minutos sobre esta única frase? Como faço isso?´ Fui-me para a cama, e a meio da noite sonhei que a única forma de fazê-lo é como lho havia feito Bach, com coral e fuga, repetindo uma e outra vez as palavras. Quando despertei, me disse: ´Já o tenho! Com coral e fuga!´ E criei o que é o melhor que sempre escrevi".

E lhe disse o primeiro músico de jazz que ganhou um disco de ouro ao vender, graças a Take five, um milhão de discos.

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sábado, 8 de dezembro de 2012

Aos 15 anos tinha queimado a Bíblia

Peter, irmão do célebre ateu Christopher Hitchens, converteu-se perante um quadro do Juízo Final

A inevitabilidade da sua morte, assim como a constatação da riqueza do cristianismo, conduziram-no a um passo decisivo.

Actualizado 6 Dezembro 2012

Sara Martín / ReL


Uma tarde de Primavera de 1967, Peter, de quinze anos, saiu para jogar no campo do seu colégio em Cambridge. Sacou a Bíblia da sua mochila e largou-lhe fogo, num acto simbólico e real de rejeição contra tudo o que, ao longo da sua infância e adolescência, a sua família lhe tinha animado a crer. Mas a Bíblia não ardeu com rapidez e frieza, como ele esperava. Só depois de soprar um bom pedaço conseguiu que o livro se inflamasse de todo, ainda que, lamenta, ficou «com algo desagradável e meio carbonizado, e todo o meu público tinha-se ido embora antes que isso sucedesse».

Esta história poderia ser quiçá uma de tantas se não fosse porque quem a conta é irmão de um dos ateus mais conhecidos e reputados das últimas décadas, Christopher Hitchens, falecido há apenas um ano e autor de livros como Deus não é bom: alegações contra a religião, É o cristianismo bom para o mundo? ou Deus não existe. O irmão de Christopher, Peter, seguiu os seus passos rapidamente como resposta ao seu ambiente familiar. «Comprometi-me com uma rebelião completa e perfeita contra tudo o que havia sido educado para crer», explica.

Um perfil completo
Essa rebelião completa de Peter incluía todas as maneiras possíveis para fazer desesperar os seus progenitores: «Comportar-me como um delinquente juvenil, utilizar uma linguagem grosseiro, zombar dos débeis (havia um rapaz em cadeira de rodas no meu ano que se converteu num vergonhoso objectivo para este impulso), insultar os mais velhos, e, finalmente, violar a Lei. Os detalhes completos seriam aborrecidos para a maioria das pessoas e desagradáveis para a minha família. Digamos que incluem algumas lutas políticas com a polícia, incursões nas drogas ilegais, uma detenção por ter uma arma ofensiva e quase matar alguém ou a mim mesmo devido à minha irresponsabilidade criminal quando conduzia uma motocicleta», resume no seu livro The rage against God: how atheism led me to faith [Raiva contra Deus: como o ateísmo me conduziu à Fé]. Num aspecto mais pessoal, Hitchens lamenta além disso que «também houve inumeráveis actos de traição menor ou maior, ingratidão, deslealdade, desonra, incumprimento de promessas e obrigações, cobardia, rancor ou egoísmo puro».

Um fracassado «Tratado de Paz» com o seu irmão Christopher
Viveu a sua juventude nos anos 70, convencido de que havia conseguido sobreviver aos «mitos paternalistas» de Deus, dos anjos e do Céu. «Tínhamos a medicina moderna, a penicilina, os motores a reacção, o Estado de Bem-estar, as Nações Unidas e a Ciência, que explicava tudo o que necessitava ser explicado», continua. A sua juventude também esteve marcada por um afastamento que parecia definitivo do seu irmão Christopher, com quem vinha tendo uma má relação desde a infância. Tanto é assim que o seu pai os obrigou a firmar um «Tratado de Paz» e o pregou na parede com uma marca vermelha. «Para minha vergonha, fui eu quem o arrancou da sua marca e apaguei a minha assinatura com ira, antes de reiniciar as hostilidades. A nossa rivalidade durou 50 anos, e a religião foi uma das suas causas posteriores», reconhece.

Reflexão sobre a morte
O seu lento regresso à fé começou na década de 80, quando já tinha 30 anos. Nesse momento, Peter era bom na profissão que tinha escolhido, o jornalismo, e podia permitir-se ao luxo de umas agradáveis férias com a sua noiva. Mas, de repente, deixou de evitar as igrejas: «Observei que nas grandes catedrais inglesas, mas também em muitas paróquias pequenas, havia mensagens inquietantes. Uma delas era a inevitabilidade da minha própria morte. O outro era o facto indubitável de que os meus antepassados não eram rudes nem ignorantes, mas sim homens e mulheres de grande habilidade e engenho, com uma genialidade que não estava bloqueada ou em contradição com a fé, mas sim que era aumentada e melhorada por ela», explica.

Um quadro fundamental
Foi uma pintura a que jogou o papel fundamental para o retorno à fé de Peter: El Juicio Final de Rogier van der Weyden, que viu em Borgonha enquanto estava de férias.

«Tinha escarnecido de que estivesse mencionada como importante no guia turístico, mas de repente me encontrei com a boca aberta, observando como as figuras nuas fogem até ás portas do Inferno». O mais importante para Peter é que essas pessoas não lhe pareciam afastadas no tempo, não eram da antiguidade, mas sim que as sentia como da sua própria geração: «Precisamente porque estavam nus, não tinham ficado presos na sua época anónima nem em nenhuma moda. Eles eram eu e as pessoas que eu conhecia», admite.

«Teve una repentina sensação forte de que a religião é uma coisa também dos nossos dias, não encarcerada debaixo de grossas capas do tempo. Van der Weyden seguia ganhando a sua quota quase quinhentos anos depois da sua morte», ironiza o escritor.

Perdendo a fé na política
Em pouco tempo redescobriu a Natividade, uma época que havia desapreciado durante anos, e se uniu a um carol service (actos organizados pelas paróquias na Grã Bretanha para cantar cânticos e ler o Evangelho nas semanas prévias ao Natal) de uma igreja numa tarde de Inverno, «tímido e ansioso por não ser visto», reconhece.

«Sabia perfeitamente que estava passando bem, ainda que não estava disposto a admiti-lo. Também sabia que estava perdendo a fé na política e a minha confiança na ambição, e tinha uma urgente necessidade de outra coisa sobre a qual construir o resto da minha vida», continua. E o passo seguinte foi, para surpresa de todos, casar-se pela Igreja.

«Recordo sem dúvida as palavras da homilia que escutei durante o nosso matrimónio na igreja de St. Bride, que me despertaram pensamentos que eu tinha esquecido durante muito tempo. Estava entrando na minha propriedade como um inglês cristão, como homem e como ser humano. Foi a primeira coisa correcta que tinha feito até então como adulto», assegura.

Utopias terrenas de poder
Durante muitos anos, Peter teve uma certa vergonha de confessar a sua fé, salvo quando se sentia num ambiente favorável: «Se trata de um efeito secundário do ataque cada vez maior sobre o cristianismo na sociedade britânica que agora já superei», explica. «Ser cristã é uma coisa. Lutar por uma causa é outra, e agora é muito mais fácil reconhecer que nos últimos tempos a religião cristã está ameaçada. Porque há tanta fúria contra a religião agora? Porque a religião é a única força fiável que se interpõe no caminho do poder dos fortes sobre os débeis. A única força fiável que restringe a mão do homem poderoso. Numa época de poder, a religião cristã se converteu no principal obstáculo para o desejo de utopias terrenas de poder absoluto», afirma com rotundidade.

Um debate que lhe fez recuperar o seu irmão
E enquanto Peter se aproximava de novo da fé e se afirmavam as suas crenças, o caminho do seu irmão Christopher era exactamente o contrário. Se tornou famoso pelos seus virulentos ataques contra a religião cristã em particular, e pela sua férrea defesa literária da não existência de Deus em geral. Ambos os irmãos chegaram inclusive a realizar debates públicos sobre a existência de Deus na televisão e na rádio. Em 2008 tiveram o seu último debate. Foi encarniçado e Peter decidiu não participar em mais nenhum. No livro The Rage Against God: How Atheism Led Me to Faith explica que, contra o que se podia esperar, precisamente foi esse debate o começo da mudança da sua relação. Algo mudou entre eles. «Os nossos pais tinham morrido e chegamos à conclusão de que não queríamos que isto se converte-se num circo ambulante habitual».

Uma semana antes já tinham estado falando sobre ele: Christopher não refutou as crenças de Peter e lhe preparou uma estupenda cena na qual recordaram a sua infância e trabalharam por deixar para trás as suas diferenças dos últimos cinquenta anos: «Surpreendeu-me ver que a luta maior da minha vida parecia ter terminado de forma inesperada, tantos anos e tantos milhares de quilómetros depois de ter começado no nosso tranquilo lar de Inglaterra», reconhece Peter. «De facto, poderiam ser certas, como sempre esperei que seriam, as palavras de T. S. Eliot, que dizem que "o final de toda a nossa exploração será chegar onde começámos e conhecer o lugar pela primeira vez"». Tanto é assim, que uma semana antes da morte de Christopher, devida ao cancro, faz um ano, Peter esteve com ele no hospital, tal e como relatou no Daily Mail.

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Carta Apostólica sob a forma de Motu Proprio de Bento XVI sobre o serviço da caridade


O Ecclesia publica hoje uma carta apostólica do Papa Bento XVI sobre o serviço da caridade, a mesma pode ser acedida em:



Do baile com Will Smith a «Peso pesado»

Kevin James, outro católico sem complexos em Hollywood

É uma das grandes estrelas cómicas do cinema actual, que afronta agora junto a Salma Hayek o desafio de um grande sucesso público.

Actualizado 2 Dezembro 2012

C.L. / ReL

Até o momento, a cena mais célebre hilariante que protagonizou Kevin James na grande tela é a sua apologia do baile em Hitch (2005), onde Will Smith tentava convence-lo a duras penas de que os homens ligam melhor sendo mais comedidos na dança.

James, muito conhecido na televisão norte-americana e um dos cómicos com melhor projecção no cinema actual, chega agora às salas espanholas com Peso pesado [Here comes the boom]. Previsto para 07 de Dezembro, parece que vai atrasar-se uns dias a estreia de uma película onde interpreta um professor disposto a tudo - nada menos que meter-se como lutador no ambiente mais duro - para que no seu instituto haja fundos para actividades extra-escolares. Salma Hayek será quem lhe cura as feridas.

Kevin James, nova-iorquino de 47 anos, casado com a actriz Steffiana de la Cruz, com quem teve três filhos, estudou gestão desportiva na Universidade de Cortland, onde jogou de defensor na equipa de futebol do campus, um posto óptimo pela sua corpulência. Descobriu a sua vocação como actor cómico durante uma interpretação no grupo de teatro em que estava, ao ver o muito que as pessoas se riam com as suas graças... e até hoje.

"Amo a minha fé católica"
Por ocasião da estreia nos Estados Unidos de Peso pesado, no passado mês de Outubro, concedeu uma entrevista à Catholic News Service onde falou das suas convicções católicas: "Estou comprometido com a minha fé, e isso converte-se numa posição difícil. Porque tens uma plataforma e não queres fazer nada nela que não dê glória a Deus de todas as formas possíveis", explicou.

"Não posso interpretar um sacerdote em todas as películas, mas se quero que dêem uma mensagem positiva, e quero poder sentar-me a vê-las com os meus filhos": por essa razão o Kevin gosta de retocar e intervir nos guiões. Em Peso pesado, por exemplo, é a capacidade de sacrifício pelos demais o que ressalta no seu papel como o professor Voss.

James não teve um caminho de Damasco: "Nasci e cresci católico, sempre amei a minha fé e aprendo cada vez mais sobre ela continuamente. É algo que vai contigo em cada coisa que faças ou em cada parte da tua vida que assumas". Mas se se censura a si mesmo outra coisa: "Me sinto muito culpado, muito, de não ter conhecido o bastante a minha fé, de ter rezado só quando o necessitava se se passava algo mau na minha vida e de não ter sido agradecido quando as coisas se arrumavam".

"Todos os bens nos vem de Deus", continua, "e por isso quero louvar, aprender mais e imbui-lo nos meus filhos, nos meus amigos e em todos os que me rodeiam".

Depois de catorze anos nos quais lhe sorriu o êxito, Kevin assume que esse pode acabar-se um dia: "Existe essa possibilidade. É a vontade de Deus a que conta, não a minha. Se sucede assim... Definitivamente, terei uma grande carreira; e se não, continuarei trabalhando. Ele deu-me esta plataforma e [o humor]... céus!, é genial, encanta-me".


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sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Frank Cottrel Boyce é católico

O guionista da inauguração olímpica propõe ir buscar as pessoas para que voltem à igreja

Sustenta que não podemos oferecer só os frutos se não oferecemos também a raiz: a fé.

Actualizado 23 Novembro 2012

C.L. / ReL

Parece que foi o guião escrito por Frank Cottrell Boyce o que convenceu a rainha Isabel II de Inglaterra para interpretar pessoalmente junto de Daniel Craig o mais polémico episódio da cerimónia inaugural olímpica de Londres 2012.

E é que Cottrell Boyce, de 53 anos, casado e pai de sete filhos, sabe como captar a atenção dos leitores, inclusive de tão elevado nível. É um dos escritores de literatura infantil mais galardoados do mundo, sobretudo a através da sua novela mais conhecida, Millions [Milhões], levada ao cinema por Danny Boyle.

O protagonista de Millions, Damian, é um menino católico órfão muito devoto que, quando caem nas suas mãos dois milhões de libras, as considera um presente de Deus destinado a fazer o bem, o qual lhe trará mais de um problema com o seu irmão Anthony e com os ladrões que perderam esse dinheiro.

"Eu também sou católico", respondeu Frank numa entrevista com o clube do livro Mother/Daughter, à pergunta de se a religião joga um papel importante na sua vida: "Suponho que há muito de mim mesmo tanto em Damian como em Anthony. Se os somasse (ou os subtraísse?), esse sou eu".

A raiz de tudo: a fé
Com efeito, Cottrell Boyce nasceu em Liverpool no seio de uma família católica de origem irlandesa e, como explicou numa ocasião ao The Guardian, as suas recordações de infância são idílicas, também no religioso: "A igreja parecia enorme, uma presença espiritual além de física, era um desses templos onde os ritos e milagres têm todo o seu sentido". Sendo criança, Frank participou na gravação de histórias da Bíblia, pondo nele uma voz carregada de convicção. Casou-se muito jovem com Denise, sua esposa ("uma santa", segundo a dedicatória da sua primeira novela), que por sua vez era graduada em teologia e tinha pensado ser monja.

Agora Frank fez umas declarações que recolhe o The Telegraph, onde sugere que para atrair as pessoas à igreja há que fazer algo mais do que esperar que venham para algum acto social: "Gente que nunca se aproxima da Igreja sente a necessidade de fazê-lo nessas ocasiões e gasta-se uma fortuna em baptismos, primeiras comunhões, casamentos e funerais. Mas, quando vem até nós como reagimos? Que lhes oferecemos? Nos faz felizes partilhar esses frutos, mas nos embaraça ensinar-lhes o jardim onde crescem as raízes que os alimentam: a nossa fé".

Cottrel Boyce sugere então "ir ali onde as pessoas estão, e pregar em campos e tendas... mas creio que estamos fazendo exactamente o contrário".

Sair à procura, pois, em vez de esperar, é a fórmula que propõe para que os templos que conheceu cheios na sua infância cada domingo voltem a está-lo, e não só quando à realidade sacramental se acrescenta a cerimónia social.


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Natal é sempre que o homem quer


sobejamente conhecida esta frase, cujo conteúdo subscrevo sem hesitar. O Natal, com efeito, convida-nos a mergulhar dentro do nosso ser e a trazer à tona o que de melhor há em nós, e é certamente muito aquilo que somos capazes de fazer, se abrirmos o coração e percebermos que a felicidade passa também pelo dar e dar-se.

Apesar deste ano a crise, pelas suas nefastas e transversais consequências, poder vir a fragilizar a capacidade de partilha de muitos portugueses, há, contudo, sinais desconcertantes que atestam ter aumentado a generosidade e sido superadas as melhores expectativas. Penso poder justamente concluir que esta é a verdadeira e profunda alma do povo português: humanista, solidário, sensível, capaz de se superar a si próprio, em especial nos momentos mais difíceis e exigentes.

Como é óbvio, urge reflectir seriamente sobre as causas que nos arrastaram para a crise, missão que deixo para os especialistas. Como cristão que procura estar atento ao que se passa no mundo, penso, porém, dever afirmar que não podemos continuar a ser governados por uma economia sem regras, que não esteja ao serviço do Homem, que o reduza a uma mera variante, qual peça duma despersonalizada, complexa e cega engrenagem.

No Evangelho, Cristo previne-nos para a tentação do endeusamento do dinheiro e de tudo o que ele representa. Sem regras e sem valores, corremos o risco de se impor a lei do “vale tudo” e o Homem quase desaparece, torna-se uma coisa, um número, um meio e nunca um fim. Faz, por isso, todo o sentido a afirmação do Papa Bento XVI, na encíclica Caritas in Veritate: o Homem deve estar no centro do desenvolvimento. Convicção já anteriormente defendida por Papa Paulo VI na emblemática frase: o desenvolvimento deve ter como objectivo “o homem todo e todo o homem”.

Façamos do Natal ocasião para reflectirmos sobre o essencial e o essencial é o Homem. Sem ele não há futuro; há ilusão e mais crises!
Um santo Natal.
Padre Manuel António Guerreiro do Rosário
in Diário do Alentejo, n.º 1598, 07 de Dezembro de 2012

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Susana Hortigosa - De promotora do ateísmo e experimentar um vazio interior... encontrou Deus: «Já tudo se enquadra»

E, entretanto, viveu submergida num mundo de promiscuidade, drogas, depressões... até que um noivo católico lhe iluminou a vida.

Actualizado 2 Dezembro 2012

Juan Antonio Ruiz / ReL

«Se Deus é Todo-poderoso, pode fazer uma pedra tão grande que não possa carregá-la? É ou não é Todo-poderoso?». Alguns se colocam este tipo de perguntas e as utilizam como baluarte em prol da falta de crença ou da irracionalidade da fé. Haveria muitas respostas que oferecer. Mas uma das melhores, sem dúvida, é apresentar a vida de um que pensava justamente com esse tipo de argumentos e que hoje, depois de descobrir Deus, é outra pessoa.

Se chama Susana Hortigosa García. Nasceu em Palma de Maiorca (Espanha), mas muito rápido se mudou com os seus pais para um povoado de Sevilha chamado Casariche.

«A minha família, e o povo em geral, são de ideologia de esquerda e ateia – conta Susana –. Ia ao colégio público, onde não se mencionava Deus. Quando chegou o momento da Primeira Comunhão, os meus pais deixaram que eu escolhesse se queria fazê-la ou não. Decidi que não, e deixei a catequese e as aulas de religião no colégio, porque me aborreciam».

Dentro deste ambiente sem Deus, os ingredientes que temperaram a adolescência de Susana não se fizeram esperar: «Drogas, promiscuidade, escapadas de casa, discussões com os meus pais, depressões... o kit completo». E em jovem não melhorou muito a situação. Mudou-se para Málaga ao fazer os vinte anos para fazer a carreira de Magistério, pôs muito pouco os pés na faculdade… ainda que mesmo assim tenha conseguido terminar o curso.

Foi neste período quando retomou o contacto com um bom amigo, católico convencido, com quem se debatia em largas discussões durante passeios nocturnos: «falávamos das questões que nos preocupavam: moral, namoro... e Deus». Porque ainda que com o passar do tempo fosse amadurecendo e assentando a cabeça, Susana começava a experimentar um vazio interior: um algo que não lhe deixava em paz consigo mesma.

Pouco a pouco, a sua vida pessoal foi queixando-se dos seus excessos. Estabelecida em Málaga, trabalhou em tudo o que lhe aparecia à frente: garçonete, empregada, etc. Saltava de namoro em namoro. Cancelou um casamento um mês antes da sua celebração; outra, a escassos doze dias antes. Não aguentou e decidiu fugir. O seu amigo católico, estabelecido agora em Madrid, a convidou a ir ter com ele; não pensou duas vezes.

E como foi a sua vida na capital? Assim o descreve ela: «Comecei a trabalhar como informática. Me fiz sócia da ARP-SAPC, uma sociedade que promove o ateísmo (entre outras coisas), mas quanto mais me envolvia com a associação, menos me convenciam os seus argumentos. E comecei a investigar sobre a fé, a querer crer… mas não podia».

Uma "ateia católica"
A tudo isto, se somou uma tormentosa relação com um jovem que lhe levou a repensar a natureza do amor, da entrega e do sofrimento. Foram dias muito difíceis, nos quais ela se definia “ateia católica”.

Instintivamente, e para sentir-se mais segura, procurou um noivo que fosse católico. O encontrou. E aí foi onde tudo mudou…

«Quando já éramos namorados, fazia-lhe perguntas. Até que, um dia, me disse algo que me abriu os olhos: "Porque não deixas de procurar Deus nas alturas e o procuras no amor das pessoas que te rodeiam?". Nesse momento houve um clic na minha cabeça. E soube que Deus sempre havia estado aí, esperando-me».

A partir desse momento, começou a integrar-se na paróquia, a receber catequese, a ir à missa. Fez a sua Primeira Comunhão. Há apenas umas semanas se crismou… «e pouco a pouco espero ir encontrando o meu sítio na Igreja», diz uma feliz Susana.

Todo este processo, e muito mais, é o que conta no seu blog:
http://www.yentucamino.blogspot.com.es/

A Susana de hoje segue a sua vida, mas caminha já com outra visão totalmente distinta. Assim o descreve ela mesma:

«A conversão é uma experiência brutal. E, no meu caso, gosto porque eu não estava numa situação extrema. Quando se contam as conversões de prostitutas, drogaditos, presos, etc., os ateus costumam argumentar que encontraram a Igreja como uma forma de escapar à sua situação, ou como um consolo. Mas eu não necessitava de Deus. O procurava, sim, mas a minha vida era muito normal: um trabalho corrente, bons amigos, uma vida independente... mas sentia um vazio imenso no meu interior. Tratava de enchê-lo estando pendente de outras coisas: de ascender no trabalho, de comprar isto ou aquilo, estabelecendo relações idealizadas e de dependência... e nada disto me preenchia. Tentava calar essa voz que me dizia que nada tinha sentido, que não havia uma razão para levantar-me de manhã. Essa solidão abismal. Até que encontrei Deus: então, de repente, tudo se enquadrava».


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